quarta-feira, agosto 28, 2019

Microcontos perdidos

HOMOFOBIA

Matou o desejo
com cinco tiros.

FORMOSA

Apalpou sem receio
o caroço do seio.

FANTASMA

A coceira do membro ausente
não o deixava esquecer a bomba.

DENTADURA

Afundou a alegria
num copo de água fria.


FUNDO DO POÇO

Alcançou-o, 
ao desistir de cavar.


TORTURA

Deu com a língua nos dentes
recém-perdidos


O ALQUIMISTA ASSASSINO

Sabia transformar
chumbo em ouro.


PREMATURO

Escapou aos nove meses
do ventre da mãe.


CASAMENTO

Ergueu as duas mãos:
tinha muito a dizer.

PARADOXO

Tatuou "liberdade"
quando estava na prisão.

EX-PACIFISTA

Encerrou o argumento
com três tiros.

FUZILAMENTO

Se achava muito vivo,
até o dispara final.

DESESPERO

Ligou no noticiário,
para se enganar.

PATRIOTISMO

Acreditava no país
que insistia em trai-lo.

VOTO

Confirmou o número
ciente de que não valia nada.


PRÓDIGO

Nunca botou fé
na carreira de pastor.


CONFISSÃO

Não era dessas
que ajoelha sem rezar. 


HERESIA

Gritou Jesus!
Quando o padre a penetrou.


CARDEAL

Jamais botou fé
nas palavras que dizia.


SINTAXE

O diabo era o sujeito
da oração. 


INTERROGAÇÃO

Como conseguir afirmar:
"Ken é o namorado da Barbie." 


MÚLTIPLA ESCOLHA

Encerrou a vida
em duas carreiras.

CRIAÇÃO

Era imagem e semelhança do pai
até lhe arrancarem a costela.

TALENTO

Representava como ninguém
um péssimo ator.


ENFORCADO

Morreu cheio
de pendências.


TRANS

Soube que o filho
seria mãe.


PAIXÃO

Foi para o altar
de braços abertos.


TUBERCULOSE

Levou para clínica
A dama das camélias.


PROFISSIONAL DO SEXO

Se recusou a trabalhar
na lua de mel. 


RETALIAÇÃO

Foi implacável
a execução do carrasco.


NO ENTERRO DO ANÃO

A ausência sentida
de testemunhas. 


FIDELIDADE

Sempre trago comigo
meu amor-próprio.


CURA

Ouviu o médico afirmar
que a operação de surdez
tinha sido um fracasso.


PASSIONAL

Matou com cinco tiros
o seu amor eterno.


SUCESSO

Representava com perfeição

um ator fracassado.

FILICÍDIO

O padre afogou o rebento
na água benta.


CÂNDIDA

Engoliu o choro
com cloro.


RECIPROCIDADE

Partiu em mil pedaços,
o coração da amada. 


HERODÍADE

- Quando Salomé dança,
São João Batista perde a cabeça.


CONSERTO

Só percebeu o erro do título
no final do concerto.


VINÍCIUS

Era só o pó
porque cheirava muito.


DE ALMA LAVADA

Engoliu as mágoas
com água sanitária. 


DATILÓGRAPHA

Me phaz phalta o éphe
para escrever pheliz. 



LIBERTAÇÃO

Tatuou atrás das grades 
a palavra liberdade.


ZOOPEDOLATRIA

Tinha sonhos eróticos
com o Pé Grande.


SABEDORIA

Escalou a montanha mais alta
para chegar dentro de si.


ALPINISMO SOCIAL

Chegou ao apogeu
sem um pingo de classe.


LAPIDAR

Quem nunca atirou pedras,
que lance a primeira.


GIZ

Viu reduzido a pó
tudo que havia ensinado.


MAUSOLÉU

Na morte, realizou o sonho
da casa própria.


MAO

Arquivou ao lado do Livro Vermelho
as Páginas Amarelas. 


MAQUIAVELISMO

Só venceu o concurso de MISS
por que leu O príncipe.


DESTINO

Leu na mão do analfabeto
seu destino trágico.


TARTARUGA

Levava a casa
nas costas. 


PARÁBOLA

Tatuou no céu da boca
a palavra "inferno".




Sobre GERMINAL, de Zolá

Terminei de ler/ouvir o romance de Zolá, e me falta tempo para colar aqui os trechos que achei significativo. Todo aquele universo milimetricamente descrito com o amparo da realidade e um senso de observação incomparável tanto do exterior (geografia, arquitetura, realidade social concreta) e interioridade (perscrutação da psicologia íntima dos personagens, ambições, recalques, ideologia, psicologia social). Germinal para mim é a construção de um mundo, ponderado meticulosamente, narrado com grandiloquência dramática e precisão. Toda a pauta cientificista está sim, posta no livro, assim como as referência ao início do partido comunista, as leituras de Marx, as organizações de greve operária, seus agentes e motivações. Há claro, certa predisposição ao maniqueísmo ao focar principalmente patrões/aristocracia/elite, e mais nuances ao tratar dos pobres, mas pesando a mão para certa "degradação moral", degeneração dos costumes, principalmente o das práticas sexuais. 

Preciso, igualmente, assistir ao filme que já baixei, para consolidar essa experiência. Ler esses clássicos para mim significa ir realmente mais fundo na literatura, ampliando meu conhecimento do fazer literário, dos clássicos, da tradição. É o meu eterno correr contra a defasagem. Mas ler esses grandes autores é resgatar meu amor pelos livros e seu poder de espanto, ainda que nos intertícios das leituras sempre acabe lendo uns contos pobrinhos do Stephen King, para desanuviar o peso de Zolá.  

segunda-feira, agosto 19, 2019

A vida secreta dos pets 2


Baixei e assisti. É mais fraco que o primeiro, que é perfeito. Este segundo é fofo mas não vai muito longe. 




Acho uma linda imagem


domingo, agosto 18, 2019

Era uma vez em Hollywood


 Era uma vez em Hollywood. de Quentin Tarantino. Saí ontem do trabalho na Paulista e fui correndo assistir no shopping que ainda passa filmes legendados, ao último filme de Tarantino. Ele é sempre ótimo, nunca me decepciona. Mas saí frustrado do filme. Não por que ele seja ruim, mas por que lhe falta "punch".




Esclareço: falta-lhe aquela energia nervosa que nos faz estarrecer, e que é tão frequente nos seus filmes, para além de referências, jogos de câmera, diálogos sagazes, violência. Seus filmes nós levamos conosco, cenas inteiras, ele se imprime em nós, as falas hipnóticas, o nonsense de tudo, a originalidade da colagem de um truque banal que ele reinsere no cinema moderno e resignifica seu uso presente. Mas este novo filme se arrasta monotonamente numa melancolia nostálgica, o ocaso da época de ouro do cinema que se esvai. Na verdade, uma era em seu crepúsculo, apontando também o fim da utopia da onda hippie, que trazia no seu bojo também a ignorância, o fanatismo, a violência e o mal. SE há algo de diferente, mas que vai para a linha da ternura comovente, é como ele poupa a fantástica Sharon Tate de seu destino atroz, modificando a história, e propiciando uma catarse que deveria valer o filme. Mas até chegar lá, o mergulho está na alma dos homens toscos, brutos e ao mesmo tempo sensíveis, mais complexos que no cartaz do filme.



Amor e cumplicidade masculinas dão a tônica do filme: a brotheragem é explicitada em todo seu esplendor, já que é a relação mais fiel do filme. Brad brilha, Dicaprio arrasa expondo todo seu potencial dramático, Margot é apenas uma "presença", mas seu carisma radiante mitifica e eterniza Sharon Tate. Há muitas belezas neste filme arrastado, sólido, impecavelmente construído, mas que não permite a fruição festiva e selvagem de quase todos os filmes de Tarantino. É um grande filme, mas é paradoxalmente insuficiente. Não é o melhor filme do ano. O melhor filme do ano é de Almodóvar: Dor e glória.


Fragmentos de um discurso amoroso, de Roland Barthes


Hoje este livro voltou a cair na minha mão. Folheio. Lembro. Barthes tem linguagem, a gente lê uma página e começa a pensar e escrever barthianamente. Gosto de capas, então para não reiterar uma mesma postagem, achei no google essas capas lindas que coloco na sequencia do meu gosto. O amor é um problema até de linguagem e comunicação. Por isso sobrevive mais nos não ditos, e muito se faz calar. 





sábado, agosto 17, 2019

Relógio do Rosário

Era tão claro o dia, mas a treva,
do som baixando, em seu baixar me leva

pelo âmago de tudo, e no mais fundo
decifro o choro pânico do mundo,

que se entrelaça no meu próprio chôro,
e compomos os dois um vasto côro.

Oh dor individual, afrodisíaco
sêlo gravado em plano dionisíaco,

a desdobrar-se, tal um fogo incerto,
em qualquer um mostrando o ser deserto,

dor primeira e geral, esparramada,
nutrindo-se do sal do próprio nada,

convertendo-se, turva e minuciosa,
em mil pequena dor, qual mais raivosa,

prelibando o momento bom de doer,
a invocá-lo, se custa a aparecer,

dor de tudo e de todos, dor sem nome,
ativa mesmo se a memória some,

dor do rei e da roca, dor da cousa
indistinta e universa, onde repousa

tão habitual e rica de pungência
como um fruto maduro, uma vivência,

dor dos bichos, oclusa nos focinhos,
nas caudas titilantes, nos arminhos,

dor do espaço e do caos e das esferas,
do tempo que há de vir, das velhas eras!

Não é pois todo amor alvo divino,
e mais aguda seta que o destino?

Não é motor de tudo e nossa única
fonte de luz, na luz de sua túnica?

O amor elide a face... Ele murmura
algo que foge, e é brisa e fala impura.

O amor não nos explica. E nada basta,
nada é de natureza assim tão casta

que não macule ou perca sua essência
ao contacto furioso da existência.

Nem existir é mais que um exercício
de pesquisar de vida um vago indício,

a provar a nós mesmos que, vivendo,
estamos para doer, estamos doendo.

Mas, na dourada praça do Rosário,
foi-se, no som, a sombra. O columbário

já cinza se concentra, pó de tumbas,
já se permite azul, risco de pombas.




ANDRADE, Carlos Drummond de. "Claro enigma". In:_____Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002.

O paradoxo entre Capitalismo e Democracia



"Contradição entre capitalismo e democracia. O capitalismo tem uma estrutura feudal fundamentado na acumulação, ele tem um arcaísmo que não supera, já que é parte constitutiva de seu funcionamento global. Um sistema desses é contrário ao princípio básico da democracia, um regime de igualdade radical, baseado num procedimento fundamental: a igualdade, mas não igualdade como homogeneidade ou unicidade, é igualdade quanto todos tem o mesmo poder. E para que todos tenham o mesmo poder não é possível esse processo de concentração de renda que quebra o fato de que todos tenham os mesmo poder."



Política é uma questão de quem controla a percepção, a visibilidade e a sensibilidade. Quem muda a estrutura. As pessoas que tem uma luta contra a população LGBT argumentam: "Você pode existir, mas você é visível demais. Exista, mas não apareça." Contudo, ser reconhecido socialmente é existir, aquilo que não é reconhecido socialmente inexiste.Portanto, está dizendo inexista, porque se você entrar na minha percepção você irá me afetar, assim eu não poderei ser da mesma maneira. E eu vou ter que me implicar, pois os corpos me afetam. E as artes são práticas que lutam pela transformação das estruturas de sensibilidade, por isso o seu poder e a "necessidade por parte de um Estado conservador e autoritário de combatê-la."

Vladimir Saflate

Caio Coppola sobre Machado de Assis

Os comentários nos ensinam que o Brasil é um país RACISTA, que nega continuamente sua negritude e AFIRMA que isso não é uma questão de discriminação na sociedade brasileira. É cegueira histórica e ideológica. Caio é um personagem machadiano, um medalhão (muita retórica e pouco conteúdo, até no jargão do Direito), mas a linguagem ilude os ignorantes e pouco letrados (que fingem serem leitores até para si mesmos). Caio e seu cinismo é o arrogante Brás Cubas moderno que vê seu ex-negrinho Prudêncio,  no Valongo, surrando outro negro e achando "fino e profundo".

Pesadelos e paisagens noturnas, de Stephen King



Leio e releio uns contos do primeiro volume de Pesadelos e paisagens noturnas, de Stephen King. 

quarta-feira, agosto 14, 2019

Aladdin


Aladdin, uma bobagem. Protagonista sem carisma, enredo redundante em relação o desenho, vilão Jaffar sem força, só o WillSmith salva com algum brilho. 

Pedro e Vittorino, meus sobrinhos






terça-feira, agosto 13, 2019

Perciliano


Meu pai me olha (com aquele seu olhar sedutor) do passado. O amor nunca é fácil. Sinto saudades dele. E rezo pedindo proteção, que me afaste os problemas, me abençoe, me ajude nas adversidades.

Meu pai


Perciliano Bernardo Teixeira, que me deu 50% de seus genes, dentre eles a calvície, o nariz de batata, os olhos fracos, a libido exacerbada, certo desejo de ócio e algum humor em relação à vida. Meu pai foi o adolescente mais velho que conheci, chegou aos setenta com os mesmos sonhos teens. Nunca entendeu bem as responsabilidades de ser marido e pai. Confundia temor com respeito, e tinha um difícil acesso à empatia, chegando à injustiça e à crueldade. Suas virtudes eram silenciosas, soterradas em contradições espantosas. Em relação ao mundo, sempre foi um homem comum, com ambições e sonhos pequenos. Mas se orgulhava dos filhos que sempre amou desapegadamente.

No dia dos pais



Meu irmão é meu pai preferido, só colocaria um pouco mais de movimento para fora da segurança do lar: uns passeios, umas viagens, etc. No resto, é o pai que gostaria de ter, com sua participação ativa na vida das crianças desde bebês, seu amor incondicional, seu respeito a forma de ser de cada uma das crianças, sua responsabilidade como pai, sua preocupação atenta e impulso de criar e libertar os filhos para vida. Neste dia, quero mandar para ele a admiração e o orgulho que tenho em tê-lo como irmão. Amor.

Teodora Pereira de Souza.



A bisavó olha a câmera e sorri em um de dois registros fotográficos que comprovam sua existência. Gosto da cor negra da sua pele, dos cabelos brancos, da dignidade da sua pobreza que não me faz esquecer também que tenho as raízes nesta Santana, nesta Bahia, neste nordeste, neste mundo mestiço e paupérrimo, de mulheres e desvalidos destinados a sofrer. Minha mãe pegou os males e rompeu o ciclo fazendo outro destino. E todo dia honramos, sem até termos consciência, a memória dos nossos que está em nós.

quarta-feira, agosto 07, 2019

Doze homens e uma sentença (1957), Sidney Lumet


Doze homens e uma sentença 

Seguindo o encerramento do caso do julgamento do assassinato cometido por um adolescente, os membros do júri devem chegar a um consenso sobre qual será o veredito. Enquanto os 12 indivíduos estão fechados em uma sala para tomar uma decisão, onze deles votam pela condenação do réu, porém um deles acredita na inocência do jovem e tenta convencer os outros a mudarem seus votos, dando início a um conflito que ameaça inviabilizar o delicado processo que vai decidir o destino do acusado.

Direção: Sidney Lumet
Roteiro de Reginald Rose



1. Treinador: coerente, sóbrio, prima pela objetividade
2. Banqueiro: ingênuo
3. Empresário: pai rancoroso, autoritário, egoísta, masculinidade tóxica
4. Contador: cético, metódico, autocontrole
5. Mexicano: pobre, periférico, submisso, constrangimento
6. Pintor, operário, imigrante: praticidade, integridade, valor
7. Comerciante/homem comum: indiferente, superficial, indiferente, alienado, volúvel
8. Davis (o arqueteto): homem virtuoso, valores democráticos, racional, integridade, honestidade, respeito
9. Avô: humanista, empático, sábio, consciencioso

10. Racista: ódio, cinismo, mal
11. Relojoeiro imigrante: educado, lógico
12. Publicitário/Marketeiro: superficial, volúvel, aparente, tolo



Uma pipoqueira e uma panela de arroz



Troquei os pontos do meu cartão de crédito Visa, por uma pipoqueira e por uma panela de arroz da mundial. Tive que pagar 30 reais de frete no total, mas valeu. 

Reassistindo



Nestes dias frios e politicamente depressivos, deito no sofá e reassisti a filmes/animações. Sing é aquela felicidade de alegre divertimento. 


E descubri, novamente, como o filme é bom e tem tanta fidelidade ao espírito do romance original que é para mim uma obra prima. Incrível como materializa bem os cheios com cortes abruptos de superclose. Feroz, melancólico, poético. Um final maravilhoso, quase tão intenso quanto descrito no livro. 



Fiz uma resenha há anos e crio que disse tudo sobre essa maravilha que é uma animação policial/suspense. Personagens deliciosamente carismáticos. 



Revi o Toy 3 por conta de ter visto o Toy 4 no cinema. E confirma-se o fato de este filme fechar com perfeição o ciclo como uma trilogia. O quatro vale pelo Garfinho, mas nada mesmo acrescenta ao alto clima emocional que tem o 3. Poesia. 

O Rei de Amarelo, de Robert W. Chambers


sábado, agosto 03, 2019

Postagem de 30 de novembro de 2016



Fiz uns tantos posts e compartilhei outros tantos que chegaram sobre temas variados. A minha recusa à comiseração geral pegou fundo nos corações e fui xingado inbox por pessoas amadas. Flanando sobre vitrines cyber, não alimento novas ilusões sobre pessoas, sobre o país e o futuro. Tampouco escamoteio minhas falências morais ou éticas. Sexta tem hospital para levar a mãe, lavei hoje o banheiro, dei banho no meu cachorro aleijado e comi linguiça calabresa. Li um trecho lindo do ensaio do Walter Benjamin, o suicida que sempre estimula meu desejo de viver e produzir. Conversei com meu irmão, instalei o Uber no seu celular, e minha cunhada me serviu um café delicioso. Com meu sobrinho Vitorino fiz um sol amarelo de massinha de modelagem, um coelho púrpura, um video cantando "Meu pintinho amarelinho" e fotos lindas. Minha vida é prosaica, simplória e, em boa medida, satisfatória. O Facebook me distrai e nele propago determinadas impressões absolutamente pessoais sobre o mundo, alem de cronicar meu dia-a-dia. Leio várias postagens e interajo com pessoas que mal conheço, que conheci um pouco mais nas redes que na vida, com gente que admiro e sinto saudade da presença real. Mas na prática, nada é sério e relevante demais. Que relevância tenho eu antes a catástrofe? Que valerão lágrimas minhas aos mortos que independem do meu respeito piedoso ou insultuosa indiferença? Por que aos vivos constrange e agride minha recusa a compactuar com a catarse ou expurgo em forma de dor coletiva? Este dia o que vai me ficar é a alegria deste encontro, sintetizada numa fotografia com Vitorino, que para mim é a cara do amor.

sexta-feira, agosto 02, 2019

Émile Zola

 Três retratos de Zola.




Germinal, de Émile Zola


Depois de patinar sem saber que obra ler, cai no Germinal, de Émile Zola, por conta da influência das leitura de Maristela, a quem dou aulas sobre escrita de tese. É uma obra monumental, estarrecedora em cada detalhe. Não, impossível enquadra-la simplesmente no Naturalismo, sua densideade, complexidade e riqueza estilística narrativa se constitui para mim numa EXPERIÊNCIA. 

A grande beleza, de Paulo Sorrentino


Por conta do Airton, reassisti ontem A grande beleza de Paulo Sorrentino. Um filme feliniano até não caber mais, do grotesco dos personagens, das festas cheias de ironias sobre a sociedade romana, sobre os intelectuais, celebridades, sobre a existência e os conflitos existenciais dos artistas. A memória da juventude - a paixão pelas mulheres - tudo conectado a uma tradição que remonta aos antigos. Os bon vivants transitam entre o tédio e o vazio existencial. Os jovens estão perdidos, soterrados pela tradição, infantilizados. O edonismo não dá conta da vida, cuja transcendência escapa aos católicos oficiais e a vaidade é o deus que sempre rege este universo. Todo tempo o risco e a morte pisca para os humanos, se materializa as vezes, e é tratada de modo formal, até se impôr como destino inevitável. E que legado se deixa se tudo é transitório e fugaz? A fotografia primorosa, os ambientes, os diálogos crueis, cínicos, afiadíssimos. Tanto para se amar num filme sobre a beleza que termina por nos entristecer com o niilismo da existência. Detalhe para santa grotesca que vem jantar no final e, como uma bruxa, conecta-se com as forças divinas de uma forma surrealista. Belíssimo.