segunda-feira, setembro 03, 2018

Duas meninas, Robeto Schwarz


Este livro tinha caído há alguns anos nas minhas mãos. Lembro de começar a leitura da segunda parte, sobre o romance Minha vida de menina, de Helena Morley. 

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Publicado em 1942, Minha Vida de Menina é um livro em forma de diário escrito pela brasileira de origem inglesa Helena Morley. Tendo como pano de fundo um Brasil que acaba de abolir a escravidão e proclamar a República, Morley começa a escrever o seu diário, que nos revela seu universo e um país que, como a menina, está saindo da adolescência.  Nesse diário, Helena debocha e desmascara as pretensas virtudes alheias. Helena vive na remota cidade de Diamantina em Minas Gerais, símbolo da era da mineração agora em franca decadência. Em um momento crítico de sua vida, ela briga para estabelecer sua liberdade e individualidade, empenhando-se para não perder uma infantil alegria de viver, reinventando, para isso, o mundo à sua maneira.



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Roberto Schwarz compara o romance-diário da garota de Minas ao romance Dom Casmurro, de Machado de Assis. Acha conexões entre Capitu e Helena, entre a análise construída sobre a sociedade brasileira e os reflexos da escravidão nesta sociedade, seus ecos e reverberações no modo de ser, de pensar e de agir dos diversos estratos sociais. Li com atenção, e como sempre me surpreendo com a ótima prosa analítica de Schwarz e aquela sensação de hiper-interpretação, de forçação de barra. Por mais bonito que escreva e "defenda e tente ilustrar com a obra seus argumentos", sempre a "mão pesada" de sua retórica caudalosa, cheia de volteios, idas e voltas nos mesmos trechos de leitura. O instrumental da análise é o campo da análise histórico-sociológica que converte a obra em ilustração para determinadas teorias. Tanto é assim, que as peripécias cotidianas de Helena e sua interação com avó aristocratas, parentes abastados, pai minerador obtuso, ex-escravos, freiras, padres, mãe abnegada, irmãos, jovens e crianças de Minas do fim do século 19, são esmiuçadas como reveladoras de um país em formação. Roberto Schwarz elogia na obra a prosa pseudo não-literária de Morley (e ele vai tentar investigar se são verídicos os diários ou uma "construção" engenhosa corrigida ou falseada) - mais realista que todos os Realismos, mais espontânea e "moderna" do que aos das Vanguardas de 22. Achei tudo exagero, forçado, mas muitas de suas reflexões são interessantíssimas, alarga a perspectiva sobre as relações no Brasil, mas pouco acrescenta na questão da análise literária. 

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