sexta-feira, novembro 24, 2017

Soltando o verbo em voz alta





Às vezes me sinto chato por gostar de ler em voz alta.

Gosto principalmente de compartilhar histórias, as que me contaram, as que li, as que estavam num filme. Sou péssimo em anedotas, melhor, no inédito. Tenho a ligeira espertise no improvido. Nas piadas, falta-me o o senso de tempo: o ritmo, a pausa e o respiro. Mas no entremeado do que digo, sei fazer rir, mais pelo uso que faço da ironia, que do humor. Claro que ambos se embaralham (o que se explica minha identificação imediata com Machado de Assis, aos dezesseis). Gosto do que não se diz diretamente, do que precisa passar pelo crivo do pensamento, exige - para saltar do eixo do previsto- decodificação. O evidente me entedia. Às entrelinhas, sempre o melhor lugar para se pôr a pulga, mesmo, em Van Gogh. A ironia afirma o oposto do que é. Ela se contradiz, ou melhor, diz contra o visível, diz o contrário; e contraria um, para satisfazer o riso inteligente da plateia. Sim, a ironia. Gosto de plateia. Só me interessa o que se oculta. Meu horror à hipocrisia, a fala polida, artificial, comedida. Sou das hipérboles explícitas, dos paradoxos e ironias. Nada de eufemismos. Ttudo me obriga a denunciar o escamoteamento, as falsas intenções. Também em Drummond e Pessoa há igual, essa ironia, e a autoironia em Bandeira. Os versos possíveis em voz alta para mim são sem delicadeza.
Sei que me fiz professor tão mais para isto do que para outra coisa: ser ouvido.

Ainda que não seja minha a palavra, no momento que a enuncio, ela me pertence, ela fala por mim o que acredito, o que penso, o que sou. E nesse instante quando menos eu, mais soo.  

24.11.2017 

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