quinta-feira, novembro 23, 2017

Notívago [night owl]



Sempre fui notívago. Entre as memória mais antigas que tenho, estou deitado no alto do meu beliche olhando, em plena madrugada, a pouca luz que entrava em faixas pela janela. E não tinha medo do escuro. Mas meu pai imperava na casa, e exigia, muitas vezes, que fôssemos dormir às nove. Sempre fui péssimo para acordar cedo, de manhã, na escola, parecia um zumbi infeliz. Portanto, gosto de dormir muito tarde (por volta das 3 ou 4 da manhã, quando o dia já é outro), e acordar tarde. O que faço é ler, assistir filme, colocar ordem nas minhas coisas, mimar meu cachorro, não fazer nada. Isso faz com que, eu sempre escolha lecionar no período vespertino, ou, em algumas épocas, pela manhã, para me forçar a acordar cedo e não perder demais a luz do dia. Aliás, tenho deficiência de vitamina D. Sou tão mais funcional à noite, que escrevi minha tese inteira de madrugada, entre a meia-noite e às sete, período que tive bolsa de estudo e exonerei minhas aulas no Estado. Quando criança, assim que me apaixonei pela leitura, lia na cama com uma lanterna de madrugada até vir o sono ou ser flagrado por meu pai, que sempre, com truculenta ameaça, me mandava dormir. Se um bom filme passava de madrugada, eu e meus irmãos ligávamos a televisão com cuidado e colocávamos um pano na fresta da porta para que ele não acordasse e viesse desligar a tevê, para, aos berros, nos mandar dormir. Naquele tempo, criança/adolescente não tinha qualquer vontade, ninguém estava nem aí para as opiniões, ideias e sentimentos das crianças. Fui criado como gado, com toda brutalidade que meu próprio pai tinha sido criado no interior da Bahia. Para ele, temor era sinônimo de respeito, então, sua autoridade se fundamentava na opressão, em menosprezos continuos, uma forma de ter algum poder, já que ele - na vida real - operário/desempregado recalcitante, não tinha nenhum. Mas eu gostava da noite (e nada tem a ver com "baladas"), do silêncio da noite, por que me liberava para pensar, para me concentrar, ainda por que havia gente demais na casa, o silêncio era raro. Talvez não fosse nem o silêncio, gostava da calmaria. Da ausência de movimentos bruscos na casa, bater de portas, mil obrigações para fazer, as tensões cotidianas. A noite era para as atividades do pensamento, ainda mais por que de dia, sinto que está tudo acontecendo lá fora, e eu perco tempo em casa escrevendo, trabalhando, feito agora. Esta questão é tão importante para mim, que marca minha entrada no mundo adulto, o primeiro enfrentamento que tive com meu pai, que como disse, era bruto, autoritário, violento. De manhã, para nos acordar (a mim e a meus irmãos/primos), abria a janela, batia às vezes com um cinto em cima dos lençóis e gritava: acorda, vagabundos! Uma manhã em que eu estava deitado - devia ter uns dezesseis anos - ele fez o mesmo. Saltei da cama assustado, olhei para ele, e eu que sempre fui muito medroso e incapaz de enfrentá-lo, comecei a gritar e disse que ia continuar deitado, que ele podia me bater o quanto quisesse, mas que eu iria dormir o quanto quisesse. Sei que tivemos uma grande discussão, sei que ele me ameçou, mas lembro de estar com um ódio concentrado de anos, sei que depois disso ele nunca mais me acordou deste modo. Eu me recordei disto esta semana, então percebi que quando me obrigam a dormir ou acordar em horário X, o que estão de fato fazendo comigo, é cerceando meu direito não apenas de ser livre, mas de ser eu mesmo, e em circunstância nenhuma, admito que imponham em mim suas próprias regras. 

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