sexta-feira, novembro 17, 2017

Linha de passe, de Walter Salles e Daniela Thomas



[Quando assisti, há anos, a este filme de Walter Salles e Daniela Thomas, fiquei profundamente irritado com a representação da periferia de São Paulo. Hoje, caí nesta pequena crítica sobre o filme, e me parece extremamente precisa, não resisti e colo aqui.]




Fabio Diaz Camarneiro

Linha de Passe está permeado pela idéia da maternidade. O cenário é uma São Paulo um tanto inóspita: o único espaço público de convivência é o estádio de futebol. O resto, um mar de concreto de onde o ônibus de Reginaldo parte sem destino, fugindo talvez em busca desse Brasil que ainda não nasceu. A barriga de gestante de Sandra Corveloni concentra a espera pelo que ainda não veio, pelo que ninguém sabe o que será. Essa espera, e a incerteza, são os problemas dos personagens: o filho que não nasceu, a espera pelo salário no fim do mês, a incerteza se o emprego vai durar até a semana seguinte... As formas circulares dominam o filme: a barriga da mãe, a bola de futebol, a roda da motocicleta, o volante do ônibus. Símbolos de caminhos que parecem não sair do lugar, mas que tentam escapar de seus destinos. Espécie de obsessão do cinema de Walter Salles, a procura do pai está lá. Como em Central do Brasil, há uma cena em que personagens “anônimos” dizem nome e sobrenome em voz alta (os remetentes das cartas em Central do Brasil, os candidatos à peneira de futebol em Linha de Passe). A importância do nome próprio tem paralelo com o batismo dos crentes: a esperança de que, encontrando-se um nome (e encontrando-se um pai), as dúvidas sobre o futuro desaparecerão e aquilo que está esperando para nascer poderá, finalmente, vir à luz.

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