domingo, novembro 19, 2017

Euforia e desencanto "No intenso agora" de João Moreira Salles


“A felicidade é uma espécie de competência; 
você tem, mas não há garantia de que irá mantê-la”
João Moreira Salles



Fui ao cinema Itaú Cultural, da Augusta, acrescentar uns vinténs na conta do João Moreira Salles, cujo patrimônio é avaliado em 3 bilhões UDS.  O novo documentário de João tem o título sofisticado de "No intenso agora". É um documentário feito de colagem de arquivos amadores, e históricos, todos referentes à década de 60. O filme começa pelos vídeos "caseiros" de sua mãe, em viagem à China com grupo de amigos e empresários para investigar/documentar acervo artístico da terra de Mao Tsé Tung, em plena Revolução Cultural, tudo financiado por uma revista francesa. Ricos tem contatos, riqueza gera riqueza.

As imagens são acompanhadas de um off na voz do próprio diretor, que descreve o contexto, analisa as imagens, tece digressões pessoais e afetivas sobre a mãe, a família, sobre si, o tempo histórico; mas principalmente sobre a natureza das imagens, tudo tangenciando o tema da "felicidade" (momento singular de grande deslumbramento). 

O filme é belo,  mas evita o melodrama. João, diferente do irmão Walter, em seu cinema (e na vista, a se julgar por suas entrevistas), prefere os vácuos, os silêncios, a incompletude da palavra final, menos incisiva, gosta de frases curtas, lapidares, de efeito delicados, como o título do próprio filme. Neste, aliás, dá grande atenção às mensagens pixadas nos muros de París por "estudantes", no auge do Maio de 64. Diferente da "autoflagelação" do senhor da grana que executara em Santiago, belo documentario em p&b que fez sobre o mordomo argentino que serviu a família Salles por anos) (na verdade um filme sobre a relação de poder patrão e empregado, a mesma que estabelecia ao estabelecia ao filmá-lo), "No intenso agora" também tergiversa sobre relações de riqueza/privilégio e poder, mas se desvia para uma análise "ontológica/filosófica" da História e da memória. 

A colagem dos filmes da época é informativa/ilustrativa, mas peca na montagem ritmica que termina por fazer o filme se arrastar em silêncios não tão significativos assim. E há melancolia, desencanto, ironia também, pois como as imagens, nada nunca é o que parece ser. Os slogans dos muros são "produto de publicitários", Daniel Cohn-Bendit (um dos expoentes do maio de 68 na França, se é que se pode falar de lideranças) um babaca inconsciente / inconsequente / alienado que se vende barato à uma revista para fazer uma viagem à Alemanha; a cantora tcheca de revolucionária termina um criatura patética; mortos são usados nas marchas, muito ideologicamente, tanto para excitar como aplacar a fúria das massas. Nada resulta em nada no final, as paixões e sentimentos transformados numa desilusão.

O foco é 1968, e são exibidas imagens de enterros em Praga, Paris e Rio de Janeiro, mas o filme dialoga com as manifestações de rua de 2013, de quando Salles começou a montar o filme. E disserta sobre a ideia de utopia e uso ideológico das imagens para controle do Estado e manutenção do poder. Tem aquela desesperança típica dos Salles, para os quais a grana/o capital sempre assume a pauta e direção de tudo, subvertendo ideiais, e fazendo "ingênua" a causa, os movimentos. 

As imagens de - Elisa Margarida Gonçalves - que ele chama de Mamãe, flagram seu "encantamento" e alegria na viagem a Grande Muralha e nos povoados de crianças, tudo mais que distante da riqueza de esposa de banqueiro, com mansão em Paris, tão fina e elegante quanto alienada em relação ao que se passava de fato tanto na China quanto nas ruas de Paris. Ele diz, "nem sempre a gente sabe o que está filmando", e a mãe comprova no seu deleite contemplativo a grande inconsciência de classe, distanciada do mundo. Ela se suicidará no fim da vida, mas isso "nunca" será dito, é o grande tabu dos Salles. Dinheiro não traz felicidade, mas produz filmes, revistas, institutos onde expiar a culpa de esfolar milhões de correntistas brasileiros pobres com as mais altas taxas de juros do mundo e de sempre conseguir isenções para dívidas astronômicas, não importa qual governo nos governe. Sim, a revolução é uma utopia, sempre o será, já que o capital, - e os bancos: seus representantes máximos, - estarão aí para controlar o mundo, e seus filhos, para produzir imagens de como entender essa realidade que eles ajudam, com poesia e entendimento, a forjar no Brasil, na China, em Praga, ou em Paris. 



[O filme tem como ponto de partida imagens de manifestações políticas dos anos 1960, incluindo a Revolução Cultural Chinesa, os levantes estudantis em Paris e a Primavera de Praga, tecendo uma análise que inclui, entre outros temas, o significado que essas referências visuais ganham.
Direção: João Moreira Salles. País de Produção: Brasil - 127 minutos]


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