segunda-feira, agosto 28, 2017

Bingo, o rei das manhas, de Daniel Resende



Começa bem, diverte depois vai entendiando e termina insuportavelmente como um filme moral. 

Não aprecio cinebiografias, não esperava nada de Vladimir Brichta que é um ator limitadíssimo - se comparado aos amigos Vagner Moura e Lázaro Ramos - por ser incapaz de compor um personagem indistinto de qualquer outro que já fez. Mas Bingo é o Bozo, e tinha uma série de elementos interessantes da biografia do ator Arlindo Barreto para acrescentar ao personagem, ao mesmo tempo que mostraria os bastidores dos programas de tevê dos anos 80, quando não havia patrulhamento politicamente correto, e valia tudo pela audiência. 

A encenação da trajetória de um ator de parcos recursos na pele do palhaço Bingo/Bozo poderia render mais. Temos no filme o tom jogoso que se espalha entre todos os personagem, todos com máscaras, todos caricaturas, sem densidade, reiterando cacos/gags. A mãe de Bingo é uma atriz veterana com postura de diva; a ex-esposa é uma estrela caricata de novela de tevê; o filho é o menino carente sempre chateado com a ausência do pai; os donos de emissoras são os velhos capitalistas visando ao lucro e apostando no quanto pior melhor; o gringo americano - dono da marca Bingo - é tão somente um gringo tolo e manipulável; a diretora do programa é uma evangélica durona que não cede a tentações e investidas do ator; o camera-man é um malandro cínico que vai contribuir para "levar" Bingo para o "mau caminho". Se reproduzem a história real e pessoas reais (alguns nomes trocados, para evitar processo?), espanta que o mundo produza tanta gente que corresponda a todos os clichês presentes num melodrama. Digo isto, pois todos me parecem previsíveis, cumprem um script sem curva, presos a figuras planas que são, sem um traço de variação e complexidade. Se Arlindo Barreto, o ator que interpretou o Bozo, era um canastração de pornochanchada, o papel do palhaço lhe assentará como uma luva, já que Bingo nada mais é que um pseudo palhaço, canastrão e politicamente incorreto. A conversão final, na igreja, em nada destoa, portanto, de uma parábola clichê de redenção.





Há um fetiche de mostrar Vladimir Brichta de cuecas em cenas forçadas e gratuitas, fetiche de flagrá-lo cheirando cocaina ou bêbado, fetiche de mostrá-lo transando com uma galeria de dançarinas sem nome, identidade etc. A câmera parece se deliciar com seus vícios, tudo se contraponto ao pai amoroso que sempre foi, mas que ao virar o Bingo, começa a naufragar. Vício e virtude, sexo e ternura, devassidão e amor à família, o maniqueísmo do melodrama já aponta para derrocada e para urgente necessidade de redenção apontada na figura feminina santinha que não se permite corromper. 

Mesmo assim, Bingo/Bozo nunca deixa de nos ser simpático, nunca parece realmente em perigo real, sua piores falhas sendo a vaidade ou as omissões em relação ao filho (do tipo: faltar aos encontros, às festinhas de aniversário, esquecê-lo na porta da escola etc). O pecado supremo: não permitir, por força do contrato com a emissora, que ele revele aos "amiguinhos" ser o pai o homem por trás da máscara de palhaço. Aliás, o anonimato para o ator de Bingo é seu maior sofrimento.





O filme Bingo então começa a se arrastar. Vira só um dramalhão sobre um cara que torra toda a grana em pó, desfila de cuecas e brada algumas obscenidades fora do ar, um cara omisso em relação a família. Em síntese é isso. Ter sucesso para ele é uma forma de vingança contra os que não reconheceram seu "talento". Não há nenhum outro aspecto a ser explorado para além deste de estar decepcionando o filho.



Quando tudo desaba, perde a mãe, se fere dando porrada na tevê, caindo drogado e bêbado. O desfecho só pode ser a conversão em cristão e palestrante em igrejas. Redimido, pode se casar com a virginal balzaquiana produtora do programa. Perdido o papel de Bingo e já distante da corrupção da fama e do dinheiro advindo da televisão, só lhe resta tornar a ser: ex-ator pornô, ex-palhaço, ex-tudo.

Seriam as grandes emissoras as vilãs da história ou o vício? Não, a televisão está poupada, ela só é impecilho para que Bingo se revele em todo seu explendor. Não há um Silvio Santos na jogada, e os diretores da emissora concorrente enfatizam a caricatura. A mãe de Bingo, no ostracismo, ressentida e infeliz, morrerá deprimida ao perder o papel numa novela. Bingo se rebela no enterro, deixando entender que a televisão seria responsável por "sugar" o talento do artista, não valorizá-lo e por fim descartá-lo.


Talvez o problema não seja o filme, mas a mim, como espectador/crítico. A boa crítica deve se fundamentar no que o filme é e não naquilo que ele deveria ser.

Dito isto, para mim (e isto é bastante pessoal), focar o filme só no protagonista me parece insuficiente. Mostrar como os anos 90 foram politicamente incorretos, com suas canções de sentido sexual, com a vulgaridade das atrações, sem mirar o quadro todo, do país, do tempo, fixando-se tão somente no drama individual, me pareceu empobrecedor. Neste sentido, nem sempre (quase nunca) uma vida "dá um filme". Por isso, os melhores filmes biográficos são aqueles em que a vida surja reinventada livremente, menos fiel ao biografado, mas usando-o de trampolim para além do homem. Penso em Cidadão Kane, penso em Piaf, nos documentários de Nina Simone e de Susan Sontag.[ Ok, documentário é outra coisa]. Mas estou eu já, querendo demais da Globofilmes e do Daniel Resende. 



Tecnicamente o filme é ótimo. A cenografia é de primeira, os atores não tem bilho mas estão ok. A fotografia é vibrante, bela, mas a direção não se empenha em fazer cinema, narra ilustrando, sem criatividade nos planos e movimentos de câmera, sem deixar lacuna, nada a preencher ou apontar para outros sentidos. Filme acessível, fácil, para o publicão, sem pleitear ser arte, sem risco, todo televisivo, com muito cuidado para não ferir susceptibilidades, chocar demais (apesar do tema, mas até a cocaina e o sexo no filme é soft), entretenimento feito parábola moral.

O jogo sujo prevalece mais que nunca nas redes de tevê, a manipulação do espectador, o cinismo, a falta de ética, o talento para vender o pior dentro de um "padrão de qualidade" sem olho para inteligência não mudou. Mas isso é bem tangencial.

O filme Bingo não se distingue de um telefilme, é competente e sem brilho. Brichta segue sendo Brichta. Terminado o filme, nada fica, a não ser aquele discurso moral que aponta para o novo caminho da tevê e do cinema: conquistar o público evangélico, neste objetivo, resgatar valores cristãos, a moral, a família. Subversões possíveis devem ser purgadas, os pecados puníveis: arrependimento e conversão. A velha vida em preto e branco. 

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