quarta-feira, setembro 06, 2017

Sobre Stephen King e Escuridão Total, sem estrelas


Retomei a leitura do conto que não havia lido, "1922". Escuridão total sem estrelas, de Stephen King traz quatro narrativas longas, uma melhor que o outra e numa linguagem excelente, o que é raro, já que King é um escritor desleixado e prolixo.

Cada conto sai pronto para uma adaptação cinematográfica. King não é um estilista, a linguagem não lhe interessa, mas a fábula/enredo, a caracterização e complexidade psicológica dos personagens. Para ele, os diálogos tem que ser fiéis ao universo cultural dos personagens e ao narrador trata uma contenção distanciada, embora frequentemente, por trabalhar com narrativas em primeira pessoas, embaralham-se esses dois elementos. 

Mas o que Stephen King é de fato, é um escritor épico, no sentido de que enfatiza as ações. É por meio delas que o leitor chega à psicologia do personagem, suas motivações etc. A interação com o entorno e outros personagens em vez de longas digressões ou firulas são marcas do seu estilo, quase sempre direto, limpo, convencional e objetivo. Isso nos bons livros, já que em muitos ele se perde no grotesco e na escatologia (sendo ou não a narrativa calcada no terror físico, psicológico ou sobrenatural). Há algo de inegavelmente tosco, vulgar, prosaico em King. Ele recusa a natureza intelectual que frequentemente envolve o campo das letras, para ele um bom escritor tem que ser um contador de histórias, envolver o leitor, suscitar emoções, instigar, entreter. Não lhe interessa camadas profundas de significação, embora frequentemente coloque autoria, escrita e bloqueio como elemento central de suas tramas, uma forma de trazer para o plano do concreto questões mais profundas da criação narrativa. Um bom exemplo disto é Misery/Louca obsessão, uma alegoria do alcool e das drogas e da angústia da criação. 



O campo dos Estudos Literários ignora e despreza Stephen King, talvez por que para esse o enredo/fábula é uma vulgaridade. E eu acho isso estranho, já que autores como Jorge Luís Borges  a defendeu como fundamental, destacando grandes criadores de enredo como o próprio Cervantes. Mas não podem negar que King domina o métier. Seu livro Sobre a escrita, a arte em memórias, trata justamente do seu processo de construção da narrativa, da dita "inspiração" ao processo prático de composição de romances e contos. Tem uma visão nada acadêmica, em muitos pontos questionáveis do fazer literário, mas instigante, já que ele é um dos criadores mais inventivos, produtivos e bem sucedido comercialmente. É possível odiar odiar suas tramas de suspense, terror e ficção, mas o século XX e XXI não seria o mesmo sem filmes como O iluminado, de Stanley Kubrick; Carrie, de Bryan Depalma; A hora da zona morta, de David Cronemberg; Conta comigo e Louca obsessão, de Rob Reiner; Um sonho de liberdade e À espera de um milagre, de Frank Darabont. Sem falar de tantos outros filmes extraordinários que surgiram de sua imaginação. 



Stephen King, com o tempo começou a fazer livros extensos demais, com narrativas que poderiam ocupar um terço do tamanho. King é produtivo, mas extremamente irregular na qualidade do que produz, por isso também prefiro ler seus contos. O conto exige uma contensão/síntese e uma precisão que lhe faz bem. Ele é um excelente contista, tanto na short story quanto no conto mais longo e na novela. Discipulo de Poe, ele busca o efeito da surpresa final e escreve já de olho no desfecho; sabe como e quando fisgar o leitor. Por isso aconselho sempre seus livros de contos, que trazem muitas narrativas - várias delas foram adaptadas e viraram filmes, curtas (episódios em séries televisivas) e seriados. 



Recentemente a editora SUMA adquiriu os direitos de King passou a publicá-lo em edições muito bem cuidadas, da tradução ao design do livro. Escuridão total, sem estrelas é o melhor exemplo: a capa, as fontes do título e as laterais das páginas são negras, só há o branco na lombada, tudo em consonância com o título, configurando-se sim um "objeto-livro".

Dos livros de contos, eu recomendo: Sombras da noite (o primeiro que li, e cheio de obras-primas do conto), Pesadelos e paisagens noturnas I e II (dois volumes independentes), Quatro estações, Tripulação de esqueletos, O bazar dos sonhos ruins e Ao cair da noite. Muitos desses livros trazem, anteposto ao conto, um comentário de King sobre o contexto e/ou a motivação do conto, onde foi publicado e por que lhe interessou a temática. Ou seja, um plus, uma espécie de making off da narrativa, o que é raro entre escritores. 





Escuridão total, sem estrelas traz quatro contos:

1922
Preste a ocorrer a Grande Depressão, Esposa é assassinada pelo marido e pelo filho que pretendem ficar com as terras herdadas por ela. 

Gigante do volante
Escritora é estuprada e começa a investigar o autor do crime para vingar-se. 

Extensão justa
Um sujeito com câncer faz um pacto com o diabo para extender seu tempo de vida, sacrificando com isso a vida do melhor amigo.

Um bom casamento
Esposa descobre que seu marido é um serial killer e elabora um modo de fazê-lo pagar por seus crimes. 

Não há propriamente terror, mas as tramas são engendradas de modo inteligente e o suspense é mantido da primeira a última linha. Brilhante. 

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