quinta-feira, agosto 10, 2017

Le temps que reste, de Françóis Ozon



O Tempo que Resta (2004‧ Drama/LGBT ‧ 1h25). Um drama soturno e melancólico de François Ozon. Romain é um jovem fotógrafo bem-sucedido que é diagnosticado com um câncer já em estágio terminal. Ao receber a notícia de sua doença, oculta a doença dos mais próximos. Na contramão do óbvio, em vez de tentar acertos de contas, inicia a implosão dos laços mais íntimos. Humilha e dispensa o namorado que ama, recusa a reconciliar-se com a irmã, indaga ao pai sobre suas amantes, por fim vai procurar a avó. Só a ela revela estar morrendo, e ao indagar-lhe por que a escolheu para dizê-lo ele responde: "Por que você irá morrer". Abdicando a uma viagem no Japão que "consolidaria" sua carreira, segue numa maratona autodestrutiva: cheira cocaína, vai procurar sexo num inferninho sadomasoquista gay e cai na bebedeira enquanto rememora (em flashes) uma ida, ainda menino à praia, quando se vê diante do mar com uma bola imensa. Numa visita a uma igreja católica, contempla devotos rezando e se lembra (novo flashback) quando em menino, junto com um colega, urinou na água benta da igreja. 

Neste processo de busca de si, o filme se torna um roadmovie pocket. Na beira de uma estrada, num bar, encontra uma garçonete que pede que a engravide, já que o marido é estéril e ela o achou bonito. Não só o marido está ciente do acordo, como vão os três para cama, num ménage à trois glamourizado. Logo que a gravidez que confirma, diante de um juiz ele deixa de herança para o bebê todos seus bens, além de dar-lhe o sobrenome. No curso de tudo isso, fotografa com uma pequena câmera o cotidiano banal de pessoas e lugares. Por fim, combalido, apanha um ônibus, e muito magro, segue para uma praia. Deita entre banhistas. Um menino com uma bola (ele mesmo?) aproxima-se dele que lhe devolve a bola vermelha imensa. Enfim, deita-se entre banhistas na toalha sobre a areia. O sol lambe seu corpo, o por do sol começa a cair, os banhistas partem, e já morto, na praia, advém a noite.  




 Le temps que rest é aqueles dramas que temem cair no melodrama, então são conduzidos com silêncio, secura, com aproximações e distanciamentos onde poderia haver explosões emocionais. Mas são franceses, então tais lacunas são preenchidos com silêncios, flashbacks poéticos, frases lacônicas e misteriosas. Romain é belo, arrogante, gosta de estar no controle, desliza contemplativo, tenta segurar o tempo presente fabricando esses instantâneos para ninguém na sua pequena máquina. O tempo que resta é de autoavaliação. O aleijão emocional de Romain o impede de se abrir emocionalmente com os parentes mais próximos, pede sexo ao namorado (agora ex) que ainda ama, mas de quem não deseja autocomiseração. No fundo é o menino com a bola, contemplativo e frágil que segue aparecendo em vários pontos do filme. É o passado que abre e se fecha ao término do filme, com a bola do menino e o círculo solar que desce sobre o mar.. O bebê é o que Roman deixa como continuidade de si para o mundo. Um filme curto, com desejo de significar mais do que alcança. Ainda assim, outro belo Ozon. 

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