sexta-feira, agosto 11, 2017

Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé

Em São Paulo, a prefeitura identificou 1.320 imóveis sem função social na capital (não cumprem com interesses da cidade e da sociedade), configurando cerca de 2 milhões de m2 de casas e edifícios ociosos que não pagam impostos, estão vazios e abandonados. 

Abandonado, com focos de dengue e acúmulo de lixo, o antigo Hotel Cambridge foi ocupado, em 2012, pela Frente de Luta por Moradia (FLM). Situado na Avenida 9 de Julho, uma das mais importantes de São Paulo, o hotel passou a abrigar 170 famílias. Gerido pelo Movimento dos Sem Teto do Centro (MSTC), o imóvel foi limpo e convertido em lar, ainda que precário, para trabalhadores brasileiros e refugiados.


Eliane Caffé é uma diretora bem intensionada, tem equipe e colaboradores excelente, sempre parte de premissas ótimas, mas o resultado é sempre torto, por que como diretora é menos que mediana. Seus filmes param sempre no meio do caminho entre divertir e estimular o pensamento, não cumprindo nem uma coisa nem outra. Kenoma e Narradores de Javé trazem isso, partem do factual que mitifica para alcançar um sentido existencial/filosófico/social que não alcança. São filmes falhos no ritmo, insuficientes no desenvolvimento, capengas na condução, falhos no desfecho. 

Era o Hotel Cambridge parte do documento social e vai se perder justamente na tentativa de se extrair dali um sentido transcendente que não tem. Começa por ser essa coisa híbrida, misto de documentário (ao qual não se aprofunda) e ficção (que não desenvolve, e o pouco que apresenta não convence). Podia ser algo, mas ainda investe mais no filme-frankenstein: no meio da não trama já confusa, vai tentar entender pela "arte" (vários moradores estão preparando uma peça de teatro/dança) a diversidade da experiência coletiva no Hotel Cambridge. Até as tentativas de metáfora/alegoria das múltiplas culturas que se encontram no hotel são pobres/toscas - como a discussão entre nordestino/brasileiro, japonês, africano a melhor comida; a sequência de conserto da luz, o envolvimento romântico/sexual de homens e mulheres de origens e níveis distintos na ocupação. 

Era o Hotel Campbride surge primeiro como um filme de grandes possibilidade. Eliane filma num prédio ocupado, com moradores/militantes reais, com o aval do MST, podendo retratar a rotina, os anseios, as dificuldades, as frutrações, a complexidade das relações, o choque com os interesses dos poderosos, da prefeitura/estado de Direita, com moradores/trabalhadores do entorno riquíssimo da metrópole dinâmica e irracional que é São Paulo. Quem não gostaria de ter essa oportunidade nas mãos? Mas Eliane opta por ficcionalizar rotinas e relações,  mesclando realidade e ficção, acrescentando certos delírios poéticos no meio disto.

Eliane tem no Cambridge o microcosmo perfeito para se entender o Brasil atual: um prédio histórico (no centro da capital econômica do país) ocupado por excluídos (pobres, moradores de rua, nordestinos, mulheres com filhos pequenos, imigrantes, marginais e marginalizados diversos). Reivindicado  como lar, como direito, eles enfrentam o poder do Estado, da especulação imobiliária e travam embate com o aparato repressor (polícia militar) em desdobrados revezes com a Lei/Justiça. O que Eliane Caffé faz? Resolve voltar o foco principal para os refugiados, tirando novamente de primeiro plano os já (tão ou mais) excluídos que eles. Aliás, tendo acesso a este grupo de refugiados (artistas e não artistas), o que a diretora extrai disto? Um filme confuso, sem ritmo, cheio de descompasso entre as partes, em que nada se soma para dar coesão e sentido.

Nisso, esvazia a realidade, derruba a ficção, e converte em pastiche o trabalho teatral/artistico que insere no filme. O discurso do filme mais que confuso vira algaravia, discurso nenhum, da qual restam poucos momentos elucidativo da rotina, procedimentos e questões dos habitantes das ocupações.

Era o Hotel Cambridge é, para mim, um filme absolutamente decepcionante. Zé Dumont repete o jocoso artista pop-popular de Narradores de Javé com récitas soltas e delírios oswaldianos, Suely Franc que faz sua tia septuagenária (ex-artista circense delirante) tem a constrangedora cena em que se insinua sexualmente para um imigrante para parir um elefante de estimação. A apresentação teatral é interessante, mas está no filme errado. Parece que Cacá Diegues e Sérgio Resende se juntaram para - a partir de um material excelente, como de costume - detonar em mais um abacaxi caro e esquecível que mata a gente de vergonha. 

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