quinta-feira, agosto 31, 2017

Invasão zumbi, Sang-Ho Yeon



A Coreia do Sul decreta estado de emergência após um vírus desconhecido tomar conta do país. Algumas pessoas tentam fugir de zumbis e ficam presas em um trem-bala que está a caminho de Busan, a única cidade que não foi afetada pelo vírus.

Assisti na Netflix. O estilo de Guerra Zumbi Z, com zumbi frenéticos infestando um trem que atravessa a Coreia. Frenético e melodramático até a última cena. Muito tenso, bem dirigido. Diverte.

terça-feira, agosto 29, 2017

Super interessante, Sapiens


Das coisas que leio.

Paladas de Alexandria, tradução de José Paulo Paes

1.

Acaso estamos mortos e só aparentamos
Estar vivos, nós gregos caídos em desgraça,
Que imaginamos a vida semelhante a um sonho,
Ou estamos vivos e foi a vida que morreu?



2.

Um palco, a vida, e uma comédia; ou aprendes a dançar, deixando
A sisudez de lado, ou lhe aguentarás as dores.



3.

Só isso, a vida: um instante de prazer. Para longe, mágoas.
Se é tão breve a existência dos homens, que venha Baco
Com suas danças, coroas de flores, mulheres.
Hoje quero ser feliz – ninguém sabe nada do amanhã.











[Paladas foi um epigramista do século IV d.C.]

Sapiens: Uma Breve História da Humanidade



Sapiens: Uma Breve História da Humanidade é um livro de Yuval Harari publicado primeiramente em 2014, embora tenha sido lançado originalmente em Israel em 2011, com o título Uma Breve História do Gênero Humano. Harari cita o livro Armas, Germes e Aço, do autor Jared Diamond Como uma das maiores inspirações para o livro, mostrando que ele era possível "fazer muitas grandes perguntas e respondê-las cientificamente". Diamond caracterizou o livro como uma obra que "Ilumina as grandes questões da história e do mundo moderno"


[Comprei na Livraria Cultura, através do aluno Eduardo Seiji (paguei R$ 37,00). É o livro da moda, me pareceu interessante pela abordagem que populariza o discurso científico para as grandes massas, tipo Mundo de Sofia. Pode ser interessante.]

segunda-feira, agosto 28, 2017

Bingo, o rei das manhas, de Daniel Resende



Começa bem, diverte depois vai entendiando e termina insuportavelmente como um filme moral. 

Não aprecio cinebiografias, não esperava nada de Vladimir Brichta que é um ator limitadíssimo - se comparado aos amigos Vagner Moura e Lázaro Ramos - por ser incapaz de compor um personagem indistinto de qualquer outro que já fez. Mas Bingo é o Bozo, e tinha uma série de elementos interessantes da biografia do ator Arlindo Barreto para acrescentar ao personagem, ao mesmo tempo que mostraria os bastidores dos programas de tevê dos anos 80, quando não havia patrulhamento politicamente correto, e valia tudo pela audiência. 

A encenação da trajetória de um ator de parcos recursos na pele do palhaço Bingo/Bozo poderia render mais. Temos no filme o tom jogoso que se espalha entre todos os personagem, todos com máscaras, todos caricaturas, sem densidade, reiterando cacos/gags. A mãe de Bingo é uma atriz veterana com postura de diva; a ex-esposa é uma estrela caricata de novela de tevê; o filho é o menino carente sempre chateado com a ausência do pai; os donos de emissoras são os velhos capitalistas visando ao lucro e apostando no quanto pior melhor; o gringo americano - dono da marca Bingo - é tão somente um gringo tolo e manipulável; a diretora do programa é uma evangélica durona que não cede a tentações e investidas do ator; o camera-man é um malandro cínico que vai contribuir para "levar" Bingo para o "mau caminho". Se reproduzem a história real e pessoas reais (alguns nomes trocados, para evitar processo?), espanta que o mundo produza tanta gente que corresponda a todos os clichês presentes num melodrama. Digo isto, pois todos me parecem previsíveis, cumprem um script sem curva, presos a figuras planas que são, sem um traço de variação e complexidade. Se Arlindo Barreto, o ator que interpretou o Bozo, era um canastração de pornochanchada, o papel do palhaço lhe assentará como uma luva, já que Bingo nada mais é que um pseudo palhaço, canastrão e politicamente incorreto. A conversão final, na igreja, em nada destoa, portanto, de uma parábola clichê de redenção.





Há um fetiche de mostrar Vladimir Brichta de cuecas em cenas forçadas e gratuitas, fetiche de flagrá-lo cheirando cocaina ou bêbado, fetiche de mostrá-lo transando com uma galeria de dançarinas sem nome, identidade etc. A câmera parece se deliciar com seus vícios, tudo se contraponto ao pai amoroso que sempre foi, mas que ao virar o Bingo, começa a naufragar. Vício e virtude, sexo e ternura, devassidão e amor à família, o maniqueísmo do melodrama já aponta para derrocada e para urgente necessidade de redenção apontada na figura feminina santinha que não se permite corromper. 

Mesmo assim, Bingo/Bozo nunca deixa de nos ser simpático, nunca parece realmente em perigo real, sua piores falhas sendo a vaidade ou as omissões em relação ao filho (do tipo: faltar aos encontros, às festinhas de aniversário, esquecê-lo na porta da escola etc). O pecado supremo: não permitir, por força do contrato com a emissora, que ele revele aos "amiguinhos" ser o pai o homem por trás da máscara de palhaço. Aliás, o anonimato para o ator de Bingo é seu maior sofrimento.





O filme Bingo então começa a se arrastar. Vira só um dramalhão sobre um cara que torra toda a grana em pó, desfila de cuecas e brada algumas obscenidades fora do ar, um cara omisso em relação a família. Em síntese é isso. Ter sucesso para ele é uma forma de vingança contra os que não reconheceram seu "talento". Não há nenhum outro aspecto a ser explorado para além deste de estar decepcionando o filho.



Quando tudo desaba, perde a mãe, se fere dando porrada na tevê, caindo drogado e bêbado. O desfecho só pode ser a conversão em cristão e palestrante em igrejas. Redimido, pode se casar com a virginal balzaquiana produtora do programa. Perdido o papel de Bingo e já distante da corrupção da fama e do dinheiro advindo da televisão, só lhe resta tornar a ser: ex-ator pornô, ex-palhaço, ex-tudo.

Seriam as grandes emissoras as vilãs da história ou o vício? Não, a televisão está poupada, ela só é impecilho para que Bingo se revele em todo seu explendor. Não há um Silvio Santos na jogada, e os diretores da emissora concorrente enfatizam a caricatura. A mãe de Bingo, no ostracismo, ressentida e infeliz, morrerá deprimida ao perder o papel numa novela. Bingo se rebela no enterro, deixando entender que a televisão seria responsável por "sugar" o talento do artista, não valorizá-lo e por fim descartá-lo.


Talvez o problema não seja o filme, mas a mim, como espectador/crítico. A boa crítica deve se fundamentar no que o filme é e não naquilo que ele deveria ser.

Dito isto, para mim (e isto é bastante pessoal), focar o filme só no protagonista me parece insuficiente. Mostrar como os anos 90 foram politicamente incorretos, com suas canções de sentido sexual, com a vulgaridade das atrações, sem mirar o quadro todo, do país, do tempo, fixando-se tão somente no drama individual, me pareceu empobrecedor. Neste sentido, nem sempre (quase nunca) uma vida "dá um filme". Por isso, os melhores filmes biográficos são aqueles em que a vida surja reinventada livremente, menos fiel ao biografado, mas usando-o de trampolim para além do homem. Penso em Cidadão Kane, penso em Piaf, nos documentários de Nina Simone e de Susan Sontag.[ Ok, documentário é outra coisa]. Mas estou eu já, querendo demais da Globofilmes e do Daniel Resende. 



Tecnicamente o filme é ótimo. A cenografia é de primeira, os atores não tem bilho mas estão ok. A fotografia é vibrante, bela, mas a direção não se empenha em fazer cinema, narra ilustrando, sem criatividade nos planos e movimentos de câmera, sem deixar lacuna, nada a preencher ou apontar para outros sentidos. Filme acessível, fácil, para o publicão, sem pleitear ser arte, sem risco, todo televisivo, com muito cuidado para não ferir susceptibilidades, chocar demais (apesar do tema, mas até a cocaina e o sexo no filme é soft), entretenimento feito parábola moral.

O jogo sujo prevalece mais que nunca nas redes de tevê, a manipulação do espectador, o cinismo, a falta de ética, o talento para vender o pior dentro de um "padrão de qualidade" sem olho para inteligência não mudou. Mas isso é bem tangencial.

O filme Bingo não se distingue de um telefilme, é competente e sem brilho. Brichta segue sendo Brichta. Terminado o filme, nada fica, a não ser aquele discurso moral que aponta para o novo caminho da tevê e do cinema: conquistar o público evangélico, neste objetivo, resgatar valores cristãos, a moral, a família. Subversões possíveis devem ser purgadas, os pecados puníveis: arrependimento e conversão. A velha vida em preto e branco. 

Woody Allen, um documentário


Baixei. Isto me interessa.

BOSSA NOVA FODA


Melhor site para baixar novos cds.

AQUI

Caravanas, de Chico Buarque


[EXTRAÍDO DA FOLHA 26.8.17]

Em ‘Caravanas’, Chico Buarque continua batendo um bolão


O que leva um homem de 73 anos, cada vez mais espaçando suas visitas a estúdios, a fazer um novo disco? “Caravanas”, que Chico Buarque lançou nesta semana, esclarece que o afeto move o repertório, nas questões temáticas e em sua própria formação; quatro das nove faixas são parcerias. Escorado por seu grupo de décadas, liderado pelo maestro Luiz Cláudio Ramos, Chico segue, sem riscos, a sonoridade de seus últimos trabalhos, ao mesmo tempo em que dialoga com sua própria trajetória por um olhar atual.

“As Caravanas”, obra-prima estrategicamente escolhida para fechar o disco, estabelece relações temáticas com as clássicas “Pivete” e “Meu Guri”. Chico se inspira na melodia de Caravan, do jazzista Duke Ellington, para narrar, como se delirasse, a chegada de jovens marginalizados das favelas do Rio às praias da cidade, comparando-os a muçulmanos refugiados.

A letra crítica à “gente ordeira e virtuosa que apela pra polícia despachar de volta” é envolvida pelo sutil e preciso violão de Chico, pelo beatbox de Mike, músico do Dream Team do Passinho e cordas regidas por Ramos. Se até a amorosa “Tua Cantiga” gerou polêmica, “As Caravanas” deve ser um prato cheio para discussões em redes sociais em tempos de polarização.

Mas “Caravanas” é, essencialmente, um disco romântico. A já citada “Tua Cantiga” é cantiga buarqueana em sua essência, e quem tem intimidade com a obra de Chico pode se lembrar de músicas da primeira fase da sua carreira, como “Até Pensei”. Em Chico (2011), seu trabalho mais recente, o cantor e compositor fez o blues “Essa Pequena” e retorna ao gênero com “Blues Para Bia”, cuja letra ressalta o desejo de um homem por uma mulher praticamente inalcançável. Ao fim da letra, descobre-se que ela é homossexual.

A ideia de impossibilidade amorosa segue com a regravação de “A Moça do Sonho”, feita para o musical “Cambaio”, pontuada apenas pelo violão de Ramos e pelo violoncelo de Hugo Pilger. “Desaforos”, já no fim do disco, é outra canção sobre o amor não alcançado, quase à Nelson Cavaquinho, tratando a moça que o rejeita como dama e a si mesmo como vagabundo.

O afeto que norteia o disco passa também pela presença dos netos de Chico em “Caravanas”. Com a neta Clara, ele regravou “Dueto”, cujo registro original foi feito por Chico com Nara Leão, uma de suas principais intérpretes, em 1980. Avô e neta já haviam cantado a música no documentário “Chico: Artista Brasileiro”, de Miguel Faria Jr.. A graça aqui fica por conta da inclusão das redes sociais e de sites ao fim da letra, substituindo o “pravda” e a “vodca”. O tempo é outro, e Chico sabe disso.

A valsa “Massarandupió” revela que Chico Brown, filho de Helena Buarque e Carlinhos Brown, é um grande melodista. A letra de seu avô fala sobre as lembranças de um menino na praia e é como se Chico visse em seu neto, de 21 anos, o espelho de quem era naquela idade, quando lançou uma certa “Pedro Pedreiro”. Casualmente é a terceira parceria do baixista Jorge Helder com Chico. É um bolero em espanhol sobre Havana – sim, outra música propícia à patrulha da internet.

Mas Chico, como diz em “Desaforos”, é apenas “um mulato que toca boleros”. E bons sambas. “Jogo de Bola” fala da mesma paixão que o motivou a escrever “O Futebol”, em que saúda grande jogadores. Aqui o foco são as peladas amadores, e há até vivas “à galera e às maria-chuteiras”. Como disse Caetano Veloso, Chico anda pra frente arrastando a tradição. E “Caravanas” prova que ele continua batendo um bolão.







BAIXAR CD AQUI

Domingo de trabalho

Hoje, aula especial (de redação), no Maximize em São Bernardo do Campo (das 9 às 11) e em Santo André (15h40 as 17h40). Diga cheio de cansaço e sono. 














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Massarandupió, de Chico Buarque

No mundaréu de areia à beira-mar
De Massarandupió
Em volta da massaranduba-mor
De Massarandupió
Aquele pia
Aquele neguinho
Aquele psiu
Um bacuri ali sozinho
Caminha
Ali onde ninguém espia
Ali onde a perna bambeia
Ali onde não há caminho

Lembrar a meninice é como ir
Cavucando de sol a sol
Atrás do anel de pedra cor de areia
Em Massarandupió
Cavuca daqui
Cavuca de lá
Cavuca com fé
Oh, São Longuinho
Oh, São Longuinho
Quem sabe
De noite o vento varre a praia
Arrasta a saia pela areia
E sobe num redemoinho

É o xuá
Das ondas a se repetir
Como é que eu vou saber dormir
Longe do mar
Ó mãe, pergunte ao pai
Quando ele vai soltar a minha mão
Onde é que o chão acaba
E principia toda a arrebentação
Devia o tempo de criança ir se
Arrastando até escoar, pó a pó
Num relógio de areia o areal de
Massarandupió

domingo, agosto 27, 2017

As caravanas, de Chico Buarque

As Caravanas, Chico Buarque
É um dia de real grandeza, tudo azul
Um mar turqueza à la Istambul enchendo os olhos
Um sol de torrar os miolos
Quando pinta em Copacabana
A caravana do Arará — do Caxangá, da Chatuba
A caravana do Irajá, o combio da Penha
Não há barreira que retenha esses estranhos
Suburbanos tipo muçulmanos do Jacarezinho
A caminho do Jardim de Alá — é o bicho, é o buchicho é a charanga
Diz que malocam seus facões e adagas
Em sungas estufadas e calções disformes
Diz que eles têm picas enormes
E seus sacos são granadas
Lá das quebradas da Maré
Com negros torsos nus deixam em polvorosa
A gente ordeira e virtuosa que apela
Pra polícia despachar de volta
O populacho pra favela
Ou pra Benguela, ou pra Guiné
Sol, a culpa deve ser do sol
Que bate na moleira, o sol
Que estoura as veias, o suor
Que embaça os olhos e a razão
E essa zoeira dentro da prisão
Crioulos empilhados no porão
De caravelas no alto mar
Tem que bater, tem que matar, engrossa a gritaria
Filha do medo, a raiva é mãe da covardia
Ou doido sou eu que escuto vozes
Não há gente tão insana
Nem caravana do Arará

quinta-feira, agosto 24, 2017

FILMES ENSAIOS

O rosto em Spielberg


Kevin B. Lee


Nerdwriter1


Every Frame a Painting

Kogonada


Viral


Um verme entra no corpo de um adolescente, faz com que se comporte como zumbi atacando outros jovens e contaminando-os, fazendo-os agir de modo insano. Um encadeado de clichês zumbis com adolescentes. Ruim. Muito.

Suicídio e existencialismo


O progresso do amor, de Alice Munro


Preciso.

Donald Trump e a KKK



quarta-feira, agosto 23, 2017

13 Sins (13 pecados), de Daniel Stamm


13 Sins (2014 ‧ Thriller/Terror ‧ 1h 33m)

Um enigmático telefonema faz uma proposta para o vendedor Elliot (Mark Webber), completar 13 tarefas, em troca receberá uma grande quantia em dinheiro. Mas cada tarefa é mais sinistra que a outra. 

Endividado, o vendedor Elliot Brindle concorda em participar de um jogo que promete muito dinheiro caso consiga cumprir 13 tarefas. Porém, ele irá perceber que à medida que as completa, mais desagradáveis e extremas elas ficam.

Bokeh, de Geoffrey Orthwein



Bokeh, filme dirigido e escrito por Geoffrey Orthwein (Sword & Laser) e pelo estreante Andrew Sullivan, ganhou seu primeiro trailer:

Na trama, um casal americano faz uma viagem romântica para a Islândia e descobre que todas as pessoas do mundo desapareceram. Eles precisam sobreviver e tentar conciliar o evento misterioso com suas próprias percepções do mundo e de si mesmos. Maika Monroe (A 5ª Onda) e Matt O'Leary (Perdendo o Fôlego) estão no elenco.

segunda-feira, agosto 21, 2017

Visitando Paranex, Rose e Valentina



Ontem, depois de dois anos, voltei a visitar meus amigos Zahoz Saturnino e Rosinei Moreira, além da baby Valentina, a Boo de Monstros SA. Pronto, agora só em 2020.

Corpo Elétrico, de Marcelo Caetano


Corpo Elétrico - 2017 ‧ Drama ‧ 1h 34m

Elias (Kelner Macêdo) é o jovem criador de uma fábrica de confecção roupas femininas no centro de São Paulo onde trabalha como assistente da estilista Diana. Ele mantém pouco contato com a família na Paraíba, e passa seus dias entre o trabalho e os encontros com outros homens. Enquanto reflete sobre as possibilidades de futuro, começa a ficar cada vez mais próximo dos colegas da fábrica, e vê os amigos seguirem caminhos diferentes dos seus. Ele se interessa por Filipe, um imigrante africano que trabalha na linha de produção, e começa a organizar festas para ter motivos extras para encontrar o cara.

Assisti no Cinema Itaú. É um filme sem enredo, episódico, em torno de Elias e o universo gay/travesti de São Paulo. O foco são sujeitos periféricos, trabalhadores de uma fábrica de confecção bastante industrial. Relacionamentos esporádicos e os desejos de Elias, sua rotina, idas a baladas lgbts, envolvimento com colegas de trabalhos e o universo gay. Neste sentido, o comportamento subversivo, livre ou promíscuo de Elias é o mais focado no Corpo Elétrico.



Corpo Elético segue a linha dos filmes pernambucanos recentes - O som ao redor, Tatuagem e Aquarius, - e como esses, busca se aproximar do cotidiano banal das classes mais pobres sem abordar o tema da violência.


Os apartamentos atulhados, as ruas, as boates, os subúrbios. Há nele um desejo quase documental de flagrar o Brasil contemporâneo. Os atores pouco ou nada conhecidos, as cenas aparentemente improvisadas, a ausência do roteiro (?) além da condução solta, fazem de Corpo Elétrico, um filme mais interessante do que bom.




Carmen, de Prosper Mérimée (Teatro Aliança Francesa) - Nelson Baskerville





Assisti com Gabriel e Mauro no Aliança Francesa. Uma versão contemporânea de Carmen, enfatizando a tauromaquia (instinto, sexualidade e violência). A Carmen, conto apropriado por Bizet para composição de uma das óperas mais populares de todos tempos, vira teatro contemporâneo. Agora, não apenas José, o amante assassino, narra seu fascínio e sedução por Carmen, mas a própria Carmen assume o microfone para narrar-se. A luz enfatiza o vermelho do desejo, o negro e o azul. A trilha não reproduz nada da ópera, mas segue onipresente, enfatizando com a guitarra flamenca, a dança cigana, dança flamenca e o tango, a força dos movimentos e da paixão de corpos cheios de intensidade e desejo. Um trabalho extraordinário dos três atores, o casal  Natalia Gonsales e Flávio Tolezani que exploram os aspectos da carne, do desejo, da paixão, do erotismo e do sexo. É uma peça repleta de excessos, explorando todos os recursos de dança, canto, luz, cenografia. Símbolos - a tourada - o triângulo amoroso e a discussão sobre a liberdade da mulher controlada pelo homem. Carmen segue levando José e o marido à desgraça, para ser brutalmente assassinada nod esfecho da peça, algo que ela própria pressente e lê na borra do café.



Tudo funciona lindamente.


Um dos mais belos espetáculos que já assisti. 



FICHA TÉCNICA
Atuação: Natalia Gonsales e Flávio Tolezani | Direção: Nelson Baskerville | Criação Dramatúrgica: Luíz Farina | Direção de Movimento e Coreografia: Fernanda Bueno | Música Original: Marcelo Pellegrini | Iluminação: Marisa Bentivegna | Cenário: Marisa Bentivegna | Figurino: Leopoldo Pacheco | Assistente de figurino: Carol Badra | Designer Gráfico: Murilo Thaveira | Fotografia: Ronaldo Gutierrez | Direção de Produção: Cesar Baccan | Colaboração de Produção: Joana D'Aguiar | Realização: Bem Casado Produções Artísticas | Idealização: Natalia Gonsales e Flávio Tolezani |


Na atual encenação, que une o teatro, a dança e a música num único espetáculo, elementos clássicos como a dança flamenca, os costumes ciganos, a tauromaquia, entre outros, são resignificados ao som de guitarras distorcidas, microfones e coreografias para que não reste dúvida de que se repetem as histórias tristes de amor e paixões destruidoras. “O ponto de vista que nos interessa é o de Carmen, a mulher assassinada, dentro de uma sociedade que pouco mudou de comportamento ao longo dos séculos, que aceitou brandamente crimes famosos cometidos contra mulheres como os de Doca Street, Lindomar Castilho e mais recentemente de Bruno, o goleiro. Crimes muitas vezes justificados pela população pelo comportamento lascivo das vítimas, como se isso não fosse aceito em situações invertidas relativas ao comportamento masculino. O homem pode. A mulher não. Nessa encenação Carmen morre não porque seu comportamento justifique qualquer tipo de punição, mas porque José é um homem, como tanto outros, doente como a sociedade que o criou”, completa Nelson Baskerville.

quinta-feira, agosto 17, 2017

Nerdologia, canal do Youtube



Lentamente eu vou me apaixonando por esses canais do Youtube. Nerdologia é uma incrível fonte de conhecimento, dinâmico, instigante, inteligente. Percruta e aprofunda um tema, e ao final, se houve falha no episódio anterior, o apresentador se retrata, justifica ou acrescenta. Editado de forma dinâmica e muito bem apresentado é uma lição de como difundir conhecimento nesta catarata que é a web. 

SurfaceOne



Quero.

Estou cansado de me entristecer pelo Brasil

Eu estou cansado de me entristecer pelo Brasil. Essa desesperança toda. Essa exasteração. Esse sentimento de desilusão espalhado em todo canto. A indignação em tom menor, convertida em melancólica observação de todas as falências. As especulações e mentiras tomadas por verdade. Os equívocos. A deseducação diária dos meios de comunicação. O rancor à academia e ao saber. A incitação de ódio..., a negligência com os velhos e pobres. Esse carimbo de falência irredutível da Educação justificando o desprezo a classe de professores vistos como privilegiados. A privatização de todo bem público como irremediável e a concessão de benesses a bancos, a empresários, aos igrejeitos, a revistas e redes de teve, à agropecuária e agronegócio predatórios.

Estou cansado de me entristecer pelo Brasil sem saída. 

Caetano fala sobre "Tua cantiga", de Chico Buarque


#Caetano sobre "Tua Cantiga" (http://spoti.fi/2i7Qv46), nova canção de Chico Buarque 👉🏼 "Foi frutífero que eu tivesse tido de retardar a audição da nova canção de Chico. Talvez eu a tivesse achado bonita, delicada e antiga e a deixasse de lado. Perguntaram-me algumas vezes nesses dias: já ouviu? "Ainda não" era a resposta com que continha minha calma curiosidade. Ao ouvi-la (ao lado de Tom e de Cezar Mendes, que tinha ficado impressionado com a música ali ouvida) fiquei tomado. Cezar tinha elogiado o tratamento harmônico, o piano e o baixo, repetindo o nome de Cristóvão. Sou tão fascinado pelo lado músico de Chico (cujo violão vem das vozes cantadas em casa com Miúcha, portanto não é esquemático, como nossos violões perigam ser, o que Guinga percebeu como ninguém, deixando-se influenciar e influenciando o mestre de volta) que pensei que aquelas inversões, que fazem um tema em tom menor padrão virar invenção extraordinária, fossem do próprio Chico. Mas, sobre essas harmonias, eram as rimas que me sideravam. O cantor refere-se a elas, como se cresse que só ele sabe quantas há na canção. Mas as rimas que mexem fundo com a gente são as inaparentes, as que se dão nas consoantes das palavras finais dos penúltimos versos das estrofes: suspiro/ligeiro; nome/perfume; lenço/alcanço; filhos/ joelhos; nega/ cantiga. "Minha nega" e "cantiga" são chave de ouro. O ritmo de lento afoxé sob essas formas verbais aprofunda a sensação de velha brasilidade que só se supunha morta porque fazia tempo que Chico não vinha com uma música." #CaetanoVeloso #ChicoBuarque #TuaCantiga

GERRA TOTAL, texto de Gabriel Priolli

Curiosa essa polêmica sobre a "editoria de guerra" criada pelo jornal Extra, do Rio de Janeiro. O que, exatamente, não é bélico, em toda a grande imprensa atual?

A editoria política está em guerra permanente contra Lula, Dilma, o PT, o petismo, o socialismo e a esquerda em geral. São tratados como a quintessência da corrupção, da traição de princípios e do atraso, além de propagadores do ódio. Em alguns casos, como ingênuos sonhadores, românticos passadistas.

A editoria econômica bombardeia tudo que conteste o projeto neoliberal de estado mínimo e mercado máximo, o império da finança, a regressividade dos impostos e a desregulamentação de atividades. Mira, particularmente, no nacional-desenvolvimentismo e sua odienta obsessão com políticas sociais distributivas.

A editoria de cidades está em guerra com pichadores, craqueiros, sem-teto, ciclistas, skatistas, funkeiros, a garotada dos rolezinhos, os pobres em shoppings e manifestantes em geral, essa gente que sempre atrapalha a boa ordem urbana e o tráfego das ambulâncias.

A editoria de cultura está em conflito aberto com toda produção artística e intelectual que não se guie pelo mercado. Ataca o financiamento estatal a projetos culturais, suspeita de quem o recebe, combate a ideia de que a cultura seja operada em favor da diversidade e da redução de desigualdades no país.

A editoria de esporte, quando não está pondo o país inteiro contra o Corinthians, combate a FIFA, a COMENBOL, todas as federações de todas as modalidades, os clubes, as comissões técnicas, os treinadores, os árbitros e os atletas, salvo aqueles que disputam campeonatos europeus e a Bola de Ouro.

Até a seção de cartas, ora transformada em redes sociais e com a ressonância elevada à milésima potência, é pura confrontação e beligerância.
Se a coisa está mais grave para a editoria de polícia, em especial no Rio de Janeiro destruído pelos governos estadual e federal do PMDB, nem por isso ela pode arrogar qualquer titularidade da nomenclatura militar, como fez o Extra.

Editoria de guerra são todas, numa imprensa que vive de fornecer inimigos para o deleite de seu público.

Caravanas, de Chico Buarque


Prestes a ser lançado. Ansioso.

Carta de Mário para Drummond, sobre amar o Brasil e crer

São Paulo, 10 novembro 1924

Meu caro Carlos Drummond

Já começava a desesperar da minha resposta? Meu Deus! Comecei esta carta com pretensão… Em todo caso de mim não desespere nunca. Eu respondo sempre aos amigos. Às vezes demoro um pouco, mas nunca por desleixo ou esquecimento. As solicitações da vida é que são muitas e as da minha agora muitíssimas e… Quer saber quais são? Tenho o meu trabalho cotidiano, é lógico. Lições no Conservatório, lições particulares. Mas atualmente as minhas preocupações são as seguintes: escrever dísticos estrambóticos e divertidos prum baile futurista que vai haver na alta roda daqui (a que não pertenço, aliás). Escolher vestidos extravagantes mas bonitos pra mulher dum amigo que vai ao tal baile. E escrever uma conferência sem valor mas que divirta pra uma festa que damos, o pianista Sousa Lima e eu, no Automóvel Clube, sexta-feira que vem. São as minhas grandes preocupações do momento. Serão desprezíveis pra qualquer idiota antiquado, aguado e simbolista. Pra mim são tão importantes como escrever um romance ou sofrer uma recusa de amor. Tudo está em gostar da vida e saber vivê-la. Só há um jeito feliz de viver a vida: é ter espírito religioso.

Explico melhor: não se trata de ter espírito católico ou budista, trata-se de ter espírito religioso pra com a vida, isto é, viver com religião a vida. Eu sempre gostei muito de viver, de maneira que nenhuma manifestação da vida me é indiferente. Eu tanto aprecio uma boa caminhada a pé até o alto da Lapa como uma tocata de Bach e ponho tanto entusiasmo e carinho no escrever um dístico que vai figurar nas paredes dum bailarico e morrer no lixo depois como um romance a que darei a impassível eternidade da impressão.

Eu acho, Drummond, pensando bem, que o que falta pra certos moços de tendência modernista brasileiros é isso: gostarem de verdade da vida. Como não atinaram com o verdadeiro jeito de gostar da vida, cansam-se, ficam tristes ou então fingem alegria o que ainda é mais idiota do que ser sinceramente triste. Eu não posso compreender um homem de gabinete e vocês todos, do Rio, de Minas, do Norte me parecem um pouco de gabinete demais. Meu Deus! se eu estivesse nessas terras admiráveis em que vocês vivem, com que gosto, com que religião eu caminharia sempre pelo mesmo caminho (não há mesmo caminho pros amantes da Terra) em longas caminhadas! Que diabo! estudar é bom e eu também estudo. Mas depois do estudo do livro e do gozo do livro, ou antes vem o estudo e gozo da ação corporal.

Eu neste ponto não aconselho nada porque nisso a gente não se muda por causa de conselhos, mas um dos desastres que impedem a felicidade, que é naturalidade, de vocês está aí: em casa lendo, redação de jornal, café com amigos sobre tal livro, tal escritor, escrever coisas depois, talvez cinemas e depois farra com mulheres. Isso não é vida que se leve! Isso é vício. Está muito bem com todas as outras formas de vida juntas, mas assim sozinhos e continuados é miséria, decadência e infelicidade na certa. É horrível.

Veja bem, eu não ataco nem nego a erudição e a civilização, como fez o Osvaldo num momento de erro, ao contrário respeito-as e cá tenho também (comedidamente, muito comedidamente) as minhas fichinhas de leitura. Mas vivo tudo. Que passeios admiráveis eu faço, só! Mas ninguém nunca está só a não ser especiais estados de alma, raros, em que o cansaço, preocupações, dores demasiado fortes tomam a gente e há essa desagregação dos sentidos e das partes da inteligência e da sensibilidade. Estão a gente fica só por milhões de amigos que tenha ao lado. Se não, não. Um sentido conversa com outro, a razão discute com a imaginativa etc. e é uma camaradagem sublime de pessoas tão íntimas como nenhuns Castor e Pólux ideais. E então parar e puxar conversa com gente chamada baixa e ignorante! Como é gostoso! Fique sabendo duma coisa, se não sabe ainda: é com essa gente que se aprende a sentir e não com a inteligência e a erudição livresca. Eles é que conservam o espírito religioso da vida e fazem tudo sublimemente num ritual esclarecido de religião.

Eu conto no meu “Carnaval carioca” um fato a que assisti em plena avenida Rio Branco. Uns negros dançando o samba. Mas havia uma negra moça que dançava melhor que os outros. Os jeitos eram os mesmos, mesma habilidade, mesma sensualidade mas ela era melhor. Só porque os outros faziam aquilo um pouco decorado, maquinizado, olhando o povo em volta deles, um automóvel que passava. Ela, não. Dançava com religião. Não olhava pra lado nenhum. Vivia a dança. E era sublime. Este é um caso em que tenho pensado muitas vezes. Aquela negra me ensinou o que milhões, milhões é exagero, muitos livros não me ensinaram. Ela me ensinou a felicidade.

Bom! não é preciso ninar a vida pra ser feliz dentro dela e ainda tenho umas coisinhas pra lhe dizer e perguntar. Primeiro você me fala numa carta que escrevi ao Martins de Almeida. Ora eu já escrevi duas e da segunda não veio resposta. Não sabe se ele a recebeu? Se não, fico seriamente triste porque era longa, não era pensada, não, mas era tão minha, dada de coração, e eu me horrorizo de me pensarem ingrato ou indiferente. Ele que me escreva qualquer coisa. A carta foi registrada pra avenida Paraopeba 272. Segundo: li seu artigo. Está muito bom. Mas nele ressalta bem o que falta a você — espírito de mocidade brasileira. Está bom demais pra você. Quero dizer: está muito bem pensante, refletido, sereno, acomodado, justo, principalmente isso, escrito com grande espírito de justiça. Pois eu preferia que você dissesse asneiras, injustiças, maldades moças que nunca fizeram mal a quem sofre delas. Você é uma sólida inteligência e já muito bem mobiliada… à francesa.

Com toda a abundância do meu coração eu lhe digo que isso é uma pena. Eu sofro com isso. Carlos, devote-se ao Brasil, junto comigo. Apesar de todo o ceticismo, apesar de todo o pessimismo e apesar de todo o século 19, seja bobo, mas acredite que um sacrifício é lindo. O natural da mocidade é crer e muitos moços não creem. Que horror! Veja os moços modernos da Alemanha, da Inglaterra, da França, dos Estados Unidos, de toda a parte: ele creem, Carlos, e talvez sem que o façam conscientemente, se sacrificam. Nós temos que dar ao Brasil o que ele não tem e que por isso até agora não viveu, nós temos que dar uma alma ao Brasil e para isso todo sacrifício é grandioso, é sublime. E nos dá felicidade. Eu me sacrifiquei inteiramente e quando eu penso em mim nas horas de consciência, eu mal posso respirar, quase gemo na pletora da minha felicidade. Toda a minha obra é transitória e educada, eu sei. E eu quero que ela seja transitória. Com a inteligência não pequena que Deus me deu e com os meus estudos, tenho a certeza de que eu poderia fazer uma obra mais ou menos duradoura. Mas que me importam a eternidade entre os homens da terra e a celebridade? Mando-as à merda. Eu não amo o Brasil espiritualmente mais que a França ou a Cochinchina. Mas é no Brasil que me acontece viver e agora só no Brasil eu penso e por ele tudo sacrifiquei.

A língua que escrevo, as ilusões que prezo, os modernismo que faço são pro Brasil. E isso nem sei se tem mérito porque me dá felicidade, que é a minha razão de ser da vida. Foi preciso coragem, confesso, porque as vaidades são muitas. Mas a gente tem a propriedade de substituir uma vaidade por outra. Foi o que fiz. A minha vaidade hoje é de ser transitório. Estraçalho a minha obra. Escrevo língua imbecil, penso ingênuo, só pra chamar a atenção dos mais fortes do que eu pra este monstro mole e indeciso ainda que é o Brasil. Os gênios nacionais não são de geração espontânea. Eles nascem porque um amontoado de sacrifício humanos anteriores lhes preparou a altitude necessária de onde podem descortinar e revelar uma nação. Que me importa que a minha obra não fique? É uma vaidade idiota pensar em ficar, principalmente quando não se sente dentro do corpo aquela fatalidade inelutável que move a mão dos gênios. O importante não é ficar, é viver. Eu vivo. E vocês não vivem porque são uns despaisados e não têm a coragem suficiente pra serem vocês. É preciso que vocês se ajuntem a nós ou com este delírio religioso que é meu, do Osvaldo, de Tarsila ou com a clara serenidade e deliciosa flexibilidade do pessoal do Rio, Graça, Ronald. De qualquer jeito porque não se trata de formar escola com um mestrão na frente. Trata-se de ser. E vocês por enquanto ainda não são. Responda, discuta, aceite ou não aceite, responda. Amigo eu serei sempre de qualquer forma. Não é a amizade e a admiração que diminuirão, é a qualidade delas.

Amizade triste ou amizade alegre e do mesmo jeito a admiração. Desculpe esta longuidão de carta. Eu sofro de gigantismo epistolar. Como vai o Nava? Vocês não arranjam mesmo um jeitinho de vir passar uns dias em São Paulo? Isto aqui é engraçado. Me avisem antes se um dia se aventurarem até aqui. E até logo. Vou lhe mandar uma cópia do “Noturno”, é só minha irmã ter um tempinho e passará a versalhada a máquina. Olhe, a Estética publicou um poema meu, “Dança”, que eu acho que tem alguma coisinha dentro. Reflita e mande me dizer.

Um abraço do
Mário de Andrade

Um gênio

quarta-feira, agosto 16, 2017

Microconto de Hemingway

VENDEM-SE

Sapatos de bebê
nunca usados.

Ernest Hemingway

















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segunda-feira, agosto 14, 2017

Caetano e filhos em turnê




Nota de Caetano Veloso à imprensa:


"Há muito tempo tenho vontade de fazer música junto a meus filhos publicamente. Desde a infância de cada um deles gosto de ficar perto. Cada um é um. Sempre cantei para eles dormirem. Moreno e Zeca gostavam. Tom me pedia pra parar de cantar. Indo por caminhos diferentes, todos se aproximaram da música a partir de um momento da vida. Moreno, que nasceu vinte anos antes de Zeca, formou-se em física. Tom, que nasceu cinco anos depois de Zeca, só gostava de futebol. Moreno e Tom já se profissionalizaram como músicos. Zeca, depois de passar parte da adolescência experimentando com música eletrônica, começou a compor solitariamente. Quero cantar com eles pelo que isso representa de celebração e alegria, sem dar importância ao sentido social da herança. É algo além até mesmo do "nepotismo do bem", na expressão criada por Nelson Motta.

Faz uns anos, fiz, atendendo a um convite específico, um show com Moreno, que foi uma das melhores coisas que já aconteceram na minha vida. No show que faremos agora, voltaremos a certas canções impossíveis de serem descartadas, como "Um canto de afoxé para o bloco do Ilê" ou "Sertão". Moreno tem uma linha criativa extremamente refinada. Os trabalhos com o grupo +2 são uma marca profunda e duradoura da sua geração. Seu disco individual é um dos mais belos exemplos de delicadeza da história da canção brasileira.

Logo depois comecei a fazer o trabalho com a Banda Cê. E Recanto pra Gal. Moreno esteve em todos esses projetos como produtor, trazendo sua sabedoria. No meio tempo, Zeca e Tom foram crescendo. Tom, no começo, nem ligava pra música. Hoje faz parte da banda Dônica e é, de nós quatro, o mais naturalmente dotado para as relações entre as alturas, os tempos e todos os signos musicais. Zeca, que sempre adorou música, justo quando achava que não havia para si mesmo um caminho nessa atividade, compôs um grupo de canções comoventes. Ao ouvir uma delas, Djavan exigiu que ele a mostrasse em público. Ele resistiu mas nesse show finalmente obedecerá a Djavan. Tom, em sua relação de discípulo com Cézar Mendes, desenvolveu uma capacidade de execução notável. E logo já começava a compor com seu mestre. Entrei como letrista numa dessas canções que ele fez com Cézar. E agora, na preparação desse novo show, fiz letra para uma música só sua. 

Assim, no show apresentaremos algumas dessas coisas que cresceram em nós, de nós. E canções minhas escolhidas por eles. "O
Leãozinho", que os filhos de tanta gente pedem, os meus não deixaram de pedir. E coisas como "Reconvexo" têm de estar ali confirmando a linhagem. Há clássicos de Moreno e canções novas de todos (inclusive minhas). Nas primeiras conversas, imaginamos chamar um pequeno grupo de músicos para enriquecerem os arranjos. Mas, ensaiando, decidimos ficar só os quatro no palco. O som será mais para o acústico e muito singelo. Eu sou o único que só toca violão. Os outros podem se revezar em alguns instrumentos. É um show familiar, nascido da minha vontade de ser feliz. Ter filhos foi a coisa mais importante da minha vida adulta. O que aprendi com o nascimento de Moreno - e se confirmou com as chegadas de Zeca e Tom - não tem nome e não tem preço. Mas nosso show também tem a responsabilidade de apresentar números com qualidade profissional. Creio que não somos uma família de músicos, como há tantas, dado o caráter comprovadamente genético do talento musical, mas seguramente somos músicos de família. Os shows são dedicados às mães deles, a Cézar Mendes e à memória de minha mãe.

Caetano Veloso".

sábado, agosto 12, 2017

Valerian, de Luc Besson


Pense num filme ruim. Valerian é o filme. Muito efeito, muita pirotecnia, um casal que não convence romanticamente, uma missão que não empolga, não desenrola, clichês a cada cinco minutos, muita corrida, explosões, vilão megacaricato e sem poder, aquele humor ogro de tolo típico de Luc, tanto CG que o filme parece uma animação (pior, ruim). É diluição de tanta coisa que resulta em puro vazio. Esquecível na hora que se bota o pé para fora da sala de cinema. Vi com Mauro na Paulista, esse micão novo de Luc Besson. 


Século XXVIII. Valérian (Dane DeHaan) é um agente viajante do tempo e do espaço que luta ao lado da parceira Laureline (Cara Delevingne), por quem é apaixonado, em defesa da Terra e seus planetas aliados, continuamente atacados por bandidos intergaláticos. Quando chegam no planeta Alpha, eles precisarão acabar com uma operação comandada por grandes forças que deseja destruir os sonhos e as vidas dos dezessete milhões de habitantes do planeta.

sexta-feira, agosto 11, 2017

Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé

Em São Paulo, a prefeitura identificou 1.320 imóveis sem função social na capital (não cumprem com interesses da cidade e da sociedade), configurando cerca de 2 milhões de m2 de casas e edifícios ociosos que não pagam impostos, estão vazios e abandonados. 

Abandonado, com focos de dengue e acúmulo de lixo, o antigo Hotel Cambridge foi ocupado, em 2012, pela Frente de Luta por Moradia (FLM). Situado na Avenida 9 de Julho, uma das mais importantes de São Paulo, o hotel passou a abrigar 170 famílias. Gerido pelo Movimento dos Sem Teto do Centro (MSTC), o imóvel foi limpo e convertido em lar, ainda que precário, para trabalhadores brasileiros e refugiados.


Eliane Caffé é uma diretora bem intensionada, tem equipe e colaboradores excelente, sempre parte de premissas ótimas, mas o resultado é sempre torto, por que como diretora é menos que mediana. Seus filmes param sempre no meio do caminho entre divertir e estimular o pensamento, não cumprindo nem uma coisa nem outra. Kenoma e Narradores de Javé trazem isso, partem do factual que mitifica para alcançar um sentido existencial/filosófico/social que não alcança. São filmes falhos no ritmo, insuficientes no desenvolvimento, capengas na condução, falhos no desfecho. 

Era o Hotel Cambridge parte do documento social e vai se perder justamente na tentativa de se extrair dali um sentido transcendente que não tem. Começa por ser essa coisa híbrida, misto de documentário (ao qual não se aprofunda) e ficção (que não desenvolve, e o pouco que apresenta não convence). Podia ser algo, mas ainda investe mais no filme-frankenstein: no meio da não trama já confusa, vai tentar entender pela "arte" (vários moradores estão preparando uma peça de teatro/dança) a diversidade da experiência coletiva no Hotel Cambridge. Até as tentativas de metáfora/alegoria das múltiplas culturas que se encontram no hotel são pobres/toscas - como a discussão entre nordestino/brasileiro, japonês, africano a melhor comida; a sequência de conserto da luz, o envolvimento romântico/sexual de homens e mulheres de origens e níveis distintos na ocupação. 

Era o Hotel Campbride surge primeiro como um filme de grandes possibilidade. Eliane filma num prédio ocupado, com moradores/militantes reais, com o aval do MST, podendo retratar a rotina, os anseios, as dificuldades, as frutrações, a complexidade das relações, o choque com os interesses dos poderosos, da prefeitura/estado de Direita, com moradores/trabalhadores do entorno riquíssimo da metrópole dinâmica e irracional que é São Paulo. Quem não gostaria de ter essa oportunidade nas mãos? Mas Eliane opta por ficcionalizar rotinas e relações,  mesclando realidade e ficção, acrescentando certos delírios poéticos no meio disto.

Eliane tem no Cambridge o microcosmo perfeito para se entender o Brasil atual: um prédio histórico (no centro da capital econômica do país) ocupado por excluídos (pobres, moradores de rua, nordestinos, mulheres com filhos pequenos, imigrantes, marginais e marginalizados diversos). Reivindicado  como lar, como direito, eles enfrentam o poder do Estado, da especulação imobiliária e travam embate com o aparato repressor (polícia militar) em desdobrados revezes com a Lei/Justiça. O que Eliane Caffé faz? Resolve voltar o foco principal para os refugiados, tirando novamente de primeiro plano os já (tão ou mais) excluídos que eles. Aliás, tendo acesso a este grupo de refugiados (artistas e não artistas), o que a diretora extrai disto? Um filme confuso, sem ritmo, cheio de descompasso entre as partes, em que nada se soma para dar coesão e sentido.

Nisso, esvazia a realidade, derruba a ficção, e converte em pastiche o trabalho teatral/artistico que insere no filme. O discurso do filme mais que confuso vira algaravia, discurso nenhum, da qual restam poucos momentos elucidativo da rotina, procedimentos e questões dos habitantes das ocupações.

Era o Hotel Cambridge é, para mim, um filme absolutamente decepcionante. Zé Dumont repete o jocoso artista pop-popular de Narradores de Javé com récitas soltas e delírios oswaldianos, Suely Franc que faz sua tia septuagenária (ex-artista circense delirante) tem a constrangedora cena em que se insinua sexualmente para um imigrante para parir um elefante de estimação. A apresentação teatral é interessante, mas está no filme errado. Parece que Cacá Diegues e Sérgio Resende se juntaram para - a partir de um material excelente, como de costume - detonar em mais um abacaxi caro e esquecível que mata a gente de vergonha. 

O estranho que nós amamos, remake de Sofia Coppola


SINOPSE: Remake dirigido por Sofia Coppola, O estranho que nós amamos se passa na Virginia, 1864, três anos após o início da Guerra Civil. John McBurney (Colin Farrell) é um cabo da União que, ferido em combate, é encontrado em um bosque pela jovem Amy (Oona Laurence). Ela o leva para a casa onde mora, um internato de mulheres gerenciado por Martha Farnsworth (Nicole Kidman). Lá, elas decidem cuidá-lo para que, após se recuperar, seja entregue às autoridades. Só que, aos poucos, cada uma delas demonstra interesses e desejos pelo homem da casa, especialmente Edwina (Kirsten Dunst) e Alicia (Elle Fanning).



Assisti na Paulista com Cinha, ontem (10.8.17) a tarde. Achei o filme escuro (talvez problema da projeção), moroso - para não dizer arrastado - e sem muito para oferecer. Colin Farrell faz sua sempre anódina interpretação de si mesmo, Nicole está competente e distante, Kirsten Dunst, tão sumida de bons papéis, surge para não fazer a diferença. Elle Fanning nos presenteia com um papel diferente de tudo que já fez, a vagaba espevitada. 

Mulheres castradas pelo puritanismo da época e do protestantismo cristão só poderiam resultar em tensão e desejo. A melhor cena segue sendo Nicole lavando o corpo de Colin desmaiado e suando e arfando de tesão ante a nudez do cara (que Sofia dirige pudicamente para a América puritana de hoje, que não tolera nem paus nem pentelhos). Deveria ter um clima mais tenso de desejo, de suspense (ele pode ser levado a qualquer momento da casa pelos soldados inimigos) e de terror, acaba tudo sendo diluído e filtrado pelo estilo de Sofia Copolla, que adora os não ditos e a marcha ré. O tema segue sendo sempre o mesmo da diretora: o exame do feminino em situação de isolamento, das mulheres presas às convenções sociais do lugar/tempo/espaço/sociedade, sexualmente carentes e/ou frustradas ante homens indiferentes ou ameaçadores. No final, elas sempre assumem o controle, nem que isto resulte em autodestruição. 

O filme não emociona, não estimula intelectualmente o espectador, não encanta. Os tons pastéis anêmicos e a monotonia arrastada dos planos - para fazer o filme de época ser mais filme de época - com algumas explosões bruscas na ação faz a gente se questionar se este filme valia um remake. 

A vingança está na moda, de Jocelyn Moorhouse



A sinopse do filme diz o seguinte: "Na década de 1950, na Austrália, a talentosa costureira Tilly regressa à sua cidade natal para tentar se reconciliar com a mãe e se vingar de algumas pessoas do seu passado. Mas uma paixão inesperada cruza o seu caminho." Não bate com o enredo tolo, imbecil. Expulsa da cidade quando criança por ter "assassinado" um garoto com uma pedra na cabeça, Tilly volta para cuidar da mãe que está nas últimas e descobrir se matou o não o tal garoto, já que não se lembra de nada (?????) do fato. Neste ínterim trabalha como costureira/estilista embelezando as pessoas na cidade que a odeia. Tem um envolvimento amoroso com um rapaz do time de futebol que é todo perfeição, mas esse morre ao se jogar dentro de um silo para provar que ela não está amaldiçoada para o amor. Tilly segue agindo como um capacho da cidade mesmo quando descobre que o garoto imbecil, morreu batendo a cabeça num muro. Quando a mãe morre ela prepara uma vingança sem sentido (fazer figurino para uma peça), encedeia a casa e por tabela toda a cidade (que só tem literalmente meia duzia de casas).

A única coisa que presta no filme são os figurino. A gente se pergunta o que Kate Winslet está fazendo num melodrama tão imbecil, fazendo papel de mocinha frágil tendo como par romântico um ator de vinte poucos anos. A trama inverossímel, a condução arrastada, os personagens excêntricos e repulsivos (até os bonzinhos) faz a gente pensar em como se gasta grana, atores e nós, espectadores, num filme tão absolutamente ruim. 

Charge política, sempre arguta e no ponto.


O mínimo para viver (To the bone), Netflix



Uma jovem (Lily Collins) com anorexia é levada pela família, na uma última tentativa de se recuperar, a um novo médico (Keanu Reeves) com terapia não convencional. Fica internada numa casa com outros jovens anorexos, muitos sem perspectivas de se livrar da doença e ter uma vida feliz e saudável. Interagindo, tendo avanços e recaídas, ela por fim  consegue abraçar a vida.  



Tem gente que achou o filme forte, eu achei uma espécie de Garota interrompida ainda mais cosmetizada que o promeiro. Mas é um filme honesto, que vai tangenciando a questão sem ir muito a fundo. Lily Collins tem um ótimo esforço de motificação do corpo, mas falta densidade dramática a ela e demais jovens da casa.


quinta-feira, agosto 10, 2017

Le temps que reste, de Françóis Ozon



O Tempo que Resta (2004‧ Drama/LGBT ‧ 1h25). Um drama soturno e melancólico de François Ozon. Romain é um jovem fotógrafo bem-sucedido que é diagnosticado com um câncer já em estágio terminal. Ao receber a notícia de sua doença, oculta a doença dos mais próximos. Na contramão do óbvio, em vez de tentar acertos de contas, inicia a implosão dos laços mais íntimos. Humilha e dispensa o namorado que ama, recusa a reconciliar-se com a irmã, indaga ao pai sobre suas amantes, por fim vai procurar a avó. Só a ela revela estar morrendo, e ao indagar-lhe por que a escolheu para dizê-lo ele responde: "Por que você irá morrer". Abdicando a uma viagem no Japão que "consolidaria" sua carreira, segue numa maratona autodestrutiva: cheira cocaína, vai procurar sexo num inferninho sadomasoquista gay e cai na bebedeira enquanto rememora (em flashes) uma ida, ainda menino à praia, quando se vê diante do mar com uma bola imensa. Numa visita a uma igreja católica, contempla devotos rezando e se lembra (novo flashback) quando em menino, junto com um colega, urinou na água benta da igreja. 

Neste processo de busca de si, o filme se torna um roadmovie pocket. Na beira de uma estrada, num bar, encontra uma garçonete que pede que a engravide, já que o marido é estéril e ela o achou bonito. Não só o marido está ciente do acordo, como vão os três para cama, num ménage à trois glamourizado. Logo que a gravidez que confirma, diante de um juiz ele deixa de herança para o bebê todos seus bens, além de dar-lhe o sobrenome. No curso de tudo isso, fotografa com uma pequena câmera o cotidiano banal de pessoas e lugares. Por fim, combalido, apanha um ônibus, e muito magro, segue para uma praia. Deita entre banhistas. Um menino com uma bola (ele mesmo?) aproxima-se dele que lhe devolve a bola vermelha imensa. Enfim, deita-se entre banhistas na toalha sobre a areia. O sol lambe seu corpo, o por do sol começa a cair, os banhistas partem, e já morto, na praia, advém a noite.  




 Le temps que rest é aqueles dramas que temem cair no melodrama, então são conduzidos com silêncio, secura, com aproximações e distanciamentos onde poderia haver explosões emocionais. Mas são franceses, então tais lacunas são preenchidos com silêncios, flashbacks poéticos, frases lacônicas e misteriosas. Romain é belo, arrogante, gosta de estar no controle, desliza contemplativo, tenta segurar o tempo presente fabricando esses instantâneos para ninguém na sua pequena máquina. O tempo que resta é de autoavaliação. O aleijão emocional de Romain o impede de se abrir emocionalmente com os parentes mais próximos, pede sexo ao namorado (agora ex) que ainda ama, mas de quem não deseja autocomiseração. No fundo é o menino com a bola, contemplativo e frágil que segue aparecendo em vários pontos do filme. É o passado que abre e se fecha ao término do filme, com a bola do menino e o círculo solar que desce sobre o mar.. O bebê é o que Roman deixa como continuidade de si para o mundo. Um filme curto, com desejo de significar mais do que alcança. Ainda assim, outro belo Ozon.