segunda-feira, julho 31, 2017

Esse viver ninguém me tira, de Caco Ciocler



A estreia de Caco Ciocler como diretor traz a história de Aracy Moebius de Carvalho, mulher de Guimarães Rosa, que trabalhou no consulado na Alemanha e ajudou muitos judeus a emigrarem para o Brasil. Aracy Moebius de Carvalho foi chefe do setor de passaportes do consulado brasileiro em Hamburgo, na Alemanha. Lá conheceu - e se apaixonou - pelo escritor Guimarães Rosa e ajudou vários judeus a emigrarem para o Brasil, escapando do nazismo. Aracy faleceu esquecida, vítima do Alzheimer, mas permanece viva na memória daqueles que só existem hoje graças a sua insubordinação.



Doc de Caco Ciocler reconstrói o heroísmo de Aracy, mulher de Guimarães Rosa, na Alemanha nazista: Primeiro longa-metragem do ator foi exibido nesta quinta-feira na mostra competitiva da Première Brasil


POR FABIANO RISTOW 02/10/2014 21:30 / atualizado 06/10/2014 10:48
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RIO - Aracy Moebius de Carvalho (1908-2011) pode ser lembrada tanto como a mulher de Guimarães Rosa quanto como uma heroína, e é sobre este segundo perfil que se debruça o ator Caco Ciocler em sua primeira incursão atrás das câmeras. O documentário “Esse viver ninguém me tira” foi exibido na tarde desta quinta-feira no Cinépolis Lagoon, dentro da mostra competitiva da Première Brasil do Festival do Rio.

Os familiares, jornalistas, historiadores, pesquisadores, colegas e professores entrevistados definem Aracy com os adjetivos mais lisonjeiros possíveis, mas o consenso é que, acima de tudo, tratava-se de uma mulher corajosa. Aos 26 anos, com um filho de cinco e “dona da própria vida”, como lembra um dos personagens, ela foi para Alemanha nazista, onde se tornou chefe do setor de passaportes do consulado brasileiro em Hamburgo, e onde se apaixonou pelo autor de “Grande Sertão: Veredas” e então diplomata.

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Lá, arriscou a própria vida ao ajudar judeus a obterem o visto necessário para viajarem ao Brasil. Algumas das falas mais emotivas vêm de pessoas desconhecidas que possivelmente existem graças à ousadia de Aracy, única brasileira inscrita na Avenida dos Justos entre as Nações, em Jerusalém, além de ter tido seu nome usado para batizar um parque em Israel. Uma das mulheres entrevistadas calcula que pode haver, hoje, cerca de uma centena de judeus vivos por causa do “anjo de Hamburgo”.

O longa de Ciocler reconstrói a história da perfilada principalmente a partir de depoimentos, mas também de poéticas imagens de apoio e reflexões do próprio diretor, que pesquisou cartas e objetos pessoais de Aracy. Nas poucas vezes em que o cineasta abre o escopo de suas lentes e aborda a relação entre ela e Guimarães Rosa, fica clara a influência da mulher sobre a obra do marido. O neto dela argumenta que sua força, sintetizada na maneira com que enfrentou o regime nazista, serviu de inspiração aos temas de “Grande Sertão”. Já Ciocler fantasia: “Cabe a nós imaginar: juntos, sobre o que falavam? Que tipo de silêncio havia entre os dois?”.

O ator e documentarista não estava presente na sessão, por ter ficado “preso” no Projac, onde aconteceu, nesta quinta, o debate entre os presidenciáveis. Em seu lugar, mandou o diretor de produção, que leu uma carta escrita por Ciocler:

— O filme foi exibido em Gramado, mas essa sessão é importante porque a bisneta de Aracy, Sophia Tess, está aqui. O Caco pede mil desculpas por não ter vindo, mas trouxe essas palavras: “Quando era pequeno, ouvi uma história, a de que o Spielberg não conseguia enquadrar o tubarão. Então ele transformou a fragilidade em potência, filmando apenas a barbatana e deixando que os espectadores imaginassem o monstro. Nosso tubarão, a Aracy, ficou conhecida como a segunda mulher de um grande escritor. Não pudemos enquadrar o marido famoso por questões de direitos autorais. Nos restavam as histórias ouvidas e contadas. Esse filme tem mais a ver com barbatana do que com tubarão. Nosso monstro era frágil, mas tiramos a Aracy do status de mulher de escritor famoso. Me curvo diante dos mestres deste festival e peço licença para mostrar meu experimento”.

HISTÓRIAS DO PAISSANDU

A reconstrução de uma existência a partir de memórias afetivas também foi tema do curta-metragem projetado mais cedo, “Cine Paissandu: Histórias de uma geração”. O diretor Christian Jafas conversou com cineastas e artistas para lembrar aquele espaço que serviu de debates para muitos cinéfilos na década de 1960, produzindo a chamada Geração Paissandu. O documentário também registra a última sessão do cinema, em 31 de agosto de 2008. Jafas se referiu ao Cine Paissandu como um “velho amigo” seu, e demonstrou um desejo:

— Quero vocês sonhem o último grande sonho: que esse filme seja exibido na reabertura do Paissandu. Em São Paulo e outras cidades, vários cinemas reabriram através da mobilização das pessoas. E tenho esse sonho com o Paissandu.


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