quinta-feira, julho 27, 2017

Angel, de François Ozon


Angel, escritora inglesa de grande imaginação, se recusa a aceitar a realidade. Ela conhece um editor rico e famoso e vira celebridade. Baseado num romance da escritora britânica Elizabeth Taylor, o primeiro filme de Ozon falado em inglês mimetiza, não sem ironia, os melodramas de época hollywoodianos dos anos 30 e 40. O entrecho: no início do século 20, num lugarejo obscuro do norte da Inglaterra, Angel (Romola Garai), filha da merceeira local, escreve compulsivamente histórias românticas. Sonha tornar-se uma escritora rica e famosa para poder entrar num palacete que ela contempla através das grades do portão, a Mansão Paraíso. Seu sonho logo se realiza: ela vai para Londres, seus livros são um sucesso, ela se casa com um pintor aristocrata e boêmio etc. A Primeira Guerra Mundial acabará por esfacelar seu mundo de fantasia. Ozon conta a história exagerando nas cores irreais do technicolor, no artificialismo das sobreposições de imagens (algumas cenas beiram o cômico dos filmes de Ivan Cardoso), na música melosa, nas frases-feitas dos diálogos. Resulta daí um romantismo de segundo grau, influenciado por Douglas Sirk e matizado por Fassbinder, chamando a atenção do público para os mecanismos de construção da fantasia e da emoção.

A François Ozon interessa a investigação sobre a representação, tanto que tensiona e evidencia na maior parte dos seus filmes a questão da encenação usando como recurso o artificialismo posto em todos os planos: do enredo, a interpretação, da música, da cor/p&b, da mise cene, da paródia, do kitch e da metalinguagem. A experimentação é um ponto chave do seu trabalho onde todos os filmes se situam entre uma realidade diegética e uma fantasia de seus personagens (como no caso de Franz), em Ozon a narrativa que desfila na tela é a narrativa que os personagens fazem para si, reconstruindo-se na tela com todo seu aparato mental.

Angel tem tudo isso: uma salada de cores e cenários “kitsch” para um enredo meloso que transcorre como encenação, como se o filme emulasse os excessos bregas dos livros escritos pela “mocinha”, tudo portanto fantasioso, hiperbólico, inculto, arrogante e pretensioso. Angel é uma arrivista adolescene que escreve histórias românticas descabeladas que apelam para emoções simplórias, cenários exóticos e inverossímeis, um verdadeiro sucesso comercial; best-sellers esquecíveis.

"A grande surpresa em tudo isso é ver que Angel transgride tanto a graça equilibrada (e levemente insípida) de seus filmes anteriores, quanto o suposto comercialismo que se supõe que esse material tenha, que é o de um romance trágico e adocicado, de livro vagabundo. Com tudo isso, Ozon faz simplesmente o filme mais estranho e instigante de sua carreira, algo que não se esperava de um cineasta tão cheio de “pés atrás” como ele. A cafonice plástica e dramática estão totalmente integradas em Angel, filme que leva até as últimas conseqüências essa opção de lidar com um universo em que o exagero se transforma em uma apoteose de imagens. Imagens estas que se utilizam de todos os elementos possíveis (fotografia, direção de arte, figurino, interpretação espalhafatosa, trilha sonora) para fazer um estudo dos artifícios sentimentalistas do drama, ou melhor, de um cinema que vai usar de todos os seus artifícios para caracterizar o mundo interior de seus personagens.

Pensar o cinema de François Ozon a partir de Angel é revelador. O excesso desse filme repara as deficiências de seus outros trabalhos que não conseguiam de maneira convincente fazer com que acreditássemos na conjunção dos personagens (seus corpos, suas psicologias) com os universos que o cineasta propunha. Em Angel tudo é tão intenso e falsificado ao mesmo tempo, que Ozon consegue fazer disso um universo de alguma verdade e coerência. É uma explosão caótica que cria uma nova ordem na obra de seu diretor. Faltava-lhe isso mesmo: pular de cabeça, abrir mão do controle seguro de seu estilo, mesmo que venha a fazer de sua fama de cineasta interessante, uma infâmia. Angel é, ao pé da letra, um filme experimental. " [Angel, de François Ozon (Inglaterra/Bélgica/França, 2007)
por Francis Vogner dos Reis, um "Experimento kitsch"]

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