quinta-feira, junho 22, 2017

O nome dela é Gal, da HBO



Composto de quatro episódios, O nome dela é Gal, dirigido por Dandara Ferreira, trata-se da videobiografia de Gal Costa, uma produção do canal HBO. 

Lindas imagens, mas uma condução linear, convencional, sem uma sombra de inventividade. Imagens de arquivo ilustrativas pontuadas de dados cronológicas. As informações seguem monotonamente entremeadas de entrevistas dos seus companheiros de trajetória, tudo ilustrativo, nada que vá a fundo. 

O nome dela é Gal é óbvio desde o título, roça a superfície da cantante, fundo sem fundo. Em seu excesso de correção e didatismo redutor, não dá conta da persona Gal, que não é a pessoa Gal. Explico: Gal Costa - no palco - a cantar, é mais que a costela de Adão, todas as vétebras expostas, os seios pequenos, a boca vermelha, a moldura do cabelo, cristal finíssimo na voz. 

Gal Costa como pessoa é da maior desimportância. Ela não possui a inteligência de Caetano; a alegria marota e sagaz de Gil; a erudição e hiperconsciência à procura de transcedência, de Bethânia. Tudo o que Elis Regina era como pessoa de fato, voz ativa, expressão política e consciente de uma missão, ausenta-se em Gal. Por isso, Elis é um estandarte, o emblema da pessoa, um ser-sentimento que se imprime na canção. Gal é de outra natureza. 

Gal é a voz que canta, o corpo que vibra ao compasso deste canto. Por isso o corpo de Gal também tem cor, ritmo, cadência e expressão, o plus dado pela voz. Como emblema que é, natural que traduza uma extravagância que pode ser discreta, dama máxima do desbunde sem se aperceber disto, feito duna deslizante que vai dar no mar. 

Fora do palco, diferente de Bethânia, Gal inexiste. Gal existe enquanto canta, enquanto canto: tradução absoluta do soar. Gal, como bem expressa a sílaba do nome, é a voz em sua expressão máxima, em perfeição absoluta. Riscos e volteios não são impecilhos de quem não desafina. Gal é a voz plena, total. 

A Gal pessoa, é a mais desinteressante das criaturas: parece fria por viver na dela, por parecer distante, desconectada de qualquer preocupação social e política: musa alternativa sem consciência de si. É a rainha do desbunde, de balancês e luares de prata para vender. 

Quando estrela em franca decadência, cantou Sullivan e Massadas, vestiu-se de Sonia Braga rodriguiana e transbordou em sensualidade barata e suor no horário nobre da Rede Globo. Quando a canoa virou, foi atrás de Caymmi, virou intérprete correta da bossa nova e de Jobim. Em rota de colizão, nos 90, patinando para se reencontrar, voltou-se para Caetano, Gil, Chico, dando sempre o seu melhor. Mas quando a voz fraquejou, deprimiu-se, engordou, fez shows sentada e discos ruins, excedendo em arrogância e obviedade, por um longo tempo puro ego, mera expressão de quem um dia foi. 

Entre os 90 e dois mil, a vaidade desmedida fez com que perdesse espaço para cantoras tecnicamente perfeitas, mas menores do que ela. Sucumbiria  à acomodação, e consequentemente, ao esquecimento, se Caetano não a resgatasse com Recanto, um disco síntese da Gal artista e estilhaços de sua vida pessoal. Recanto ressuscitou a Gal que tudo pode com a voz que lhe restou. 

A Gal-mulher é a pessoa prosaica do registro geral, identidade que não interessa. Isso fica claro quando ela narra em off burocraticamente a trajetória. Um off que depõe contra a cantante, torna fosca a luz da estrela que o documentário visava inaltecer. Ao se narrar, sua voz soa engessada, primária: a dessintonia absoluta da palavra com as imagens de arquivo, registros do ao vivo, tomadas de entusiasmado pasmo essencial de viver.

Talvez tenha havido outra Gal, brejeira, certeira, menos na defensiva, tendo que se dizer "a maior voz do Brasil". Uma Gal que não precisava nada disso. Que não precisava mesmo saber-se. Que só precisava cantar sem se entender, prescindindo de qualquer racionalização. Isto por que, para mim, Gal só existe enquanto intérprete, enquanto canto. Seu canto é a intuição que guarda uma sabedoria que a pessoa civil, Gal, desconhece, não domina, jamais teve controle. 

Sabedoria com e para além de toda técnica (que ela sempre dominou), a artista que o documentário apresenta burocraticamente, foi capitaneada por mãos conscientes, gente que sabia o alcance do seu cantar e a fizeram existir plenamente. Essa Gal-canto nem o documentário fraco pode esfacelar, pois a Gal-voz e Gal-performer excedem a mulher banal; dão vazão no palco a uma show-woman. 

Gal que foi pulsão plena do feminino sem traço qualquer de fragilidade, fraqueza, ou impotência. Seu corpo é incoreografável, pulsação da voz que domina o corpo. Gal só existe no palco. Gal é o corpo da voz em perfeita afinação. Extraterrestre. Um objeto identificado no som, no refino e na graça.    


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