terça-feira, junho 06, 2017

O Brasil do século 19 e o desprezo pelo trabalho

Sobre a polêmica de hoje (a da escola cujos alunos foram vestidos de lixeiro, faxineira e outras profissões "indignas"), um trecho que sempre cito aos meus alunos do livro "Mauá, empresário do Império", de Jorge Caldeira, sobre o Brasil de 1846:

"Qualquer trabalho manual, por mais bem pago que fosse, era considerado tarefa degradante para os cidadãos livres. Até mesmo a idéia de optar por uma carreira como a de Irineu, como empregado ou dono de uma empresa de comércio, provocava arrepios em gente que se considerava bem-nascida, mesmo que a alternativa fosse a pobreza. A reação contra o trabalho manual costumava ser violenta, e assustava viajantes como Thomas Ewbank:

Interrogando-se um jovem nacional de família respeitável e em má situação financeira sobre porque não ganha a vida de maneira independente, há dez possibilidades contra uma de ele perguntar, tremendo de indignação, se o interlocutor está querendo insultá-lo. "Trabalhar! Trabalhar!", gritou um deles, "para isso tem os negros." Sim, centenas de famílias têm um ou dois escravos, vivendo do que eles ganham. O doutor C. conta que um jovem prefere morrer de fome a abraçar uma profissão manual. Diz que há alguns anos aconselhou uma pobre viúva, que tinha dois filhos rapazes, um de catorze outro de dezesseis anos, a encaminhá-los em ofícios. A viúva ergueu-se, deixou a sala, e nunca mais falou com ele, embora tivesse fornecido gratuitamente seus serviços profissionais à família durante oito anos. Recentemente foi abordado por um funcionário do Departamento de Polícia, que se deu a conhecer como o filho mais velho da Viúva, que revelou ter um cargo satisfatório. Ser empregado no governo, na polícia, é honroso, mas descer abaixo de empregos no governo, mesmo para ser negociante, é degradante.

Esse desprezo ao trabalho era fundamental para marcar uma diferença social básica nas sociedades escravistas, nas quais distinção se confundia com não se sujeitar a tarefas consideradas humilhantes. Na escala social que guiava as elites, até mesmo um comerciante rico como Irineu aparecia como um tipo suspeito de envolvimento em atividades vis. A partir do alto, o preconceito contra o trabalho manual se estendia a toda a sociedade. Fugir do estigma da escravidão era uma necessidade imperiosa até mesmo para os que não tinham outra opção na vida a não ser ganhar o pão com o suor do rosto. Nessa categoria estavam todos os trabalhadores especializados do país, que viviam de salários ou tinham pequenas oficinas. Para conservar a dignidade e se diferenciar dos escravos, esses trabalhadores manuais adotavam complicadas formas de comportamento, cuja lógica muitas vezes fugia à compreensão dos europeus que passavam por aqui. Cruzar com um desses tipos, como aconteceu com o comerciante inglês John Luccock, muitas vezes acabava se tornando uma dura prova para toda a racionalidade européia, ainda que o problema fosse uma simples fechadura encrencada:

Os mecânicos brancos consideravam-se todos eles fidalgos demais para trabalhar, e consideravam que ficariam degradados se vistos em público carregando a menor coisa pelas ruas, ainda que fossem as ferramentas de seu ofício. O orgulho tolo e a presunção formalizada, que dominava todas as classes da sociedade brasileira, atingiam nessa categoria de homens um absurdo singular e ridículo. Tornando-se necessário abrir uma fechadura de que se perdera a chave, e tão rara era a habilidade necessária para tanto, que o gerente e o copeiro do hotel onde então eu morava ficaram grandemente perplexos quando eu perguntei onde se a poderia encontrar. Afinal 
aconselharam-me a me dirigir a um carpinteiro inglês que se achava estabelecido no Rio de Janeiro há uns dois anos e que tinha muitos empregados, dos quais um foi mandado ir comigo (porque neste tempo mestres não se atreviam a ir executar trabalhos fora), com a garantia de que haveria de me contentar. Fez-se esperar por largo tempo, mas, afinal, para compensar a demora, apareceu-me vestido de grande gala, com tricórnio, fivelas no sapato abaixo dos joelhos e outras quejandas magnificências. À porta da casa tornou a estacar, na intenção de alugar algum preto para que lhe carregasse o martelo, a talhadeira e alguma outra ferramenta pequena. Lembrei-lhe de que, sendo leves, eu mesmo me encarregaria de uma parte ou do todo, mas isso se constituiu um solecismo tão grande como o de usar ele próprio suas mãos. O cavalheiro esperou pacientemente até que aparecesse um negro, tratou com ele, e então prosseguiu em sua devida forma, seguido por seu criado temporário. Em pouco tempo deu cabo da tarefa, quebrando a fechadura em vez de abri-la com a gazua, após o que o homem importante, puxando uma profunda reverencia, retirou-se com seu lacaio.

Era quase impossível explicar ao comerciante inglês que o carpinteiro afetado precisava fazer tudo isso para não se sentir identificado com um reles escravo. Por causa do fantasma da degradação do trabalho, todos os comportamentos em torno dele adquiriam outro significado. Em tal mundo, uma fábrica era um empreendimento mais que incerto. A ordem que os conservadores tinham montado, e à qual os liberais tinham se rendido por não vislumbrarem alternativa, se compunha de uma lição básica: no mundo alguns deveriam se limitar a mandar, outros a executar as tarefas que lhes cabiam. Tudo o que não podia ser explicado por esse axioma básico, tudo o que ficava no meio desse mundo em branco e preto, se constituía num problema difícil de resolver, para patrões ou empregados. O trabalho em troca de salários existia, porém mais como um acidente inevitável que como regra. Era uma solução pouco razoável, um arranjo temporário que deveria ser abandonado na primeira oportunidade que surgisse."

Um problema que existe desde a fundação da nação não vai ser resolvido de um dia para outro, infelizmente. Por isso estamos assim.

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