quarta-feira, junho 14, 2017

A mulher maravilha


SINOPSE: "Treinada desde cedo para ser uma guerreira imbatível, a princesa Diana (Gal Gadot) nunca saiu da paradisíaca ilha onde é reconhecida como princesa das Amazonas. Quando o piloto Steve Trevor (Chris Pine) se acidenta e cai numa praia do local, ela descobre que uma guerra sem precedentes está se espalhando pelo mundo. Atribuindo a Ares, deus da guerra, a razão de todos males, ela decide deixar seu lar. Julgando-se predestinada a derrotá-lo, viaja para Londres e posteriormente para o campo de batalha onde nazistas e ingleses lutam incessantemente, confiante de poder encerrar o conflito: uma luta para acabar com todas as lutas. Neste processo, Diana se envolve com Trevor e tenta compreender a sociedade humana, enquanto vai descobrindo o alcance de seus poderes e sua verdadeira missão na Terra."

Talvez por que dirigido por uma mulher, a diretora Patty Jenkins (de Monster e de episódios da série The Killing, ambos protagonizados por mulheres poderosas), o filme sobre a maior de todas as super-heroínas não tenha resultado num trabalho banal. A série televisiva protagonizada por Lynda Carter, fez imenso sucesso, era uma versão soft que enquadrava Diana Prince ainda como mocinha sexy, mas tão travada quando Clark Kent. Despi-la de sua roupagem setentista e trazê-la para o presente era o grande desafio da diretora que precisava dar um salto de qualidade nas pirotecnias histéricas e tediosas das adaptações recentes da DC Comics, como os decepcionantes Batman vs. Superman e Esquadrão Suicida. 

Patty Jenkins veio já se arriscando, pondo como protagonista a desconhecida Gal Gadot, modelo e atriz, ex-miss Israel, cuja experiência cinematográfica era de coadjuvante da franquia testosterona Ferozes e Furiosos. Ela já se mostrara adequada como a Mulher Maravilha em Batman vs. Superman; contudo, é nesta nova produção, na qual ocupa o centro, que veio a dar um passo à frente na saga DC.

Gal Gadot não tem a beleza extensiva e corpo voluptuoso de Lynda Carter, a imagem que se projetou também nos quadrinhos. Mais esguia, ainda assim deslumbrante, ela se preparou para o papel com aulas de Kung Fu, Kickboxing, Capoeira e Jiu-Jitsu, além do treino com espada, para as lutas que são as das mais extraordinárias já vistas nos filmes de heróis. O grande acerto da direção foi investir sem medo no carisma natural da atriz, a quem uma câmera apaixonada não cansa de flagrar em planos médios e super-closes. Gal confere à Mulher Maravilha um misto de inocência e sedução, ela nunca é mostrada de modo vulgar, o que somente o olhar atento da condução feminina poderia garantir. Aliás, o único nu presente do filme é de um homem (o bonitão Chris Pine), seu par romântico no filme.

Claro que há trama de amor, com aproximações e adiamentos entre a jovem Diana e o soldado espião Stive Trevor. O suspense clichê para o beijo, para o sexo e sua consolidação como casal, tudo isto está lá. O romance, contudo, é pouco enfatizado, já que interessa justamente o estranhamento de Diana, vinda de uma terra onde as mulheres eram todas poder, agora lançada num ocidente onde as mulheres (o filme se passa na II Guerra) eram até então consideradas pouco mais do que objetos decorativos; portanto, menosprezadas e submetidas ao controle dos homens. Isso será explorado em várias cenas em que Diana quebra o protocolo ditado pelos homens.


Mulher Maravilha é um filme para encantar, está lá o "momento uma-linda-mulher" em que Diana vai às compras e desfila diversos "looks" belos mas imprestáveis em termos de conforto e mobilidade para uma guerreira. Aliás, suas habilidades demoram, inteligentemente, a serem exploradas, pois se farão plenas no momento em que ela vai ao campo de batalha lutar para libertar velhos, mulheres e crianças. É um clichê, mas até estes podem render cenas memoráveis quando dirigido com talento. Mais do que a da luta espetacular das Amazonas (ainda na ilha), a passagem pelas trincheiras está toda centrada no domínio de luta da Mulher Maravilha, na exploração do escudo, da espada, do laço mágico, dos braceletes, da sua própria força e dom de saltar. Interessante perceber como neste, e noutros pontos, os homens presentes no filme lhe servem de escada, "literalmente" de apoio, pois ela surge mitificada como "a Liberdade que guia o povo", a deusa da vitória a guiar os exércitos.

Uma crítica que se pode fazer ao filme, é a mesma de todos àqueles de heróis. Ao se colocar um vilão potente demais (Diana enfrenta no desfecho o mitológico deus da Guerra), o final redunda numa profusão de excessos, com explosões e raios enfadonhos, prédios caindo, e resgates no último instante, com desfecho decepcionante, posto que improvável. Inclua neste desfecho um dilema moral (punir a vilã máxima - e fraca - e "ser tão má quanto Ares"), com um sacrifício seguido de uma vitória apoteótica; além da aquisição de um objeto compensatório (a fotografia antiga). 

Situada nos anos 40, Diana termina a trama trabalhando no Louvre, já que não pode mais retornar à sua ilha natal. Imortal como deusa que é, ela se converte numa incansável combatente da injustiça e da guerra, sendo prometido nos próximos filmes integrar a Liga da Justiça

Se os "machos" diretores aprenderem a lição de enfatizarem a personalidade e traços humanos dos personagens (como recentemente feito em Logan), é possível que os filmes de heróis possam significar mais que uma montanha russa de histeria épica de violência estetizada. Mulher Maravilha é entretenimento inteligente, diverte e encanta, daí o seu sucesso de público e crítica. Que ela contamine as demais produções para se explorar as complexidades dos heróis, investir na trama que tenha uma história a contar e que traga, como plus, uma outra representação, como fez Mulher Maravilha, sobre o feminino, ampliando o espaço da mulher nos quadrinhos, nos filmes e no mundo."

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