segunda-feira, junho 26, 2017

Súplica, de Noémia de Sousa

Tirem-nos tudo,
mas deixem-nos a música!
Tirem-nos a terra em que nascemos,
onde crescemos
e onde descobrimos pela primeira vez
que o mundo é assim:
um tabuleiro de xadrez...

Tirem-nos a luz do sol que nos aquece,
a lua lírica do xingombela
nas noites mulatas
da selva moçambicana
(essa lua que nos semeou no coração
a poesia que encontramos na vida)

Tirem-nos a palhota – a humilde cubata
onde vivemos e amamos,
tirem-nos a machamba que nos dá o pão,
tirem-nos o calor do lume
(que nos é quase tudo)
- mas não nos tirem a música!

Podem desterrar-nos,
levar-nos
para longe terras,
vender-nos como mercadoria, acorrentar-nos
à terra, do sol à lua e da lua ao sol,
mas seremos sempre livres
se nos deixarem a música!

Que onde estiver nossa canção
mesmo escravos, senhores seremos;
e mesmo mortos, viveremos,
e no nosso lamento escravo
estará a terra onde nascemos,
a luz do nosso sol,
a lua dos xingombelas,
o calor do lume
a palhota que vivemos,
a machamba que nos dá o pão!
E tudo será novamente nosso,
ainda que cadeias nos pés
e azorrague no dorso...
E o nosso queixume
será uma libertação
derramada em nosso canto!

- Por isso pedimos,
de joelhos pedimos:
Tirem-nos tudo...
mas não nos tirem a vida,
não nos levem a música!

Noémia de Sousa



Comentários descontextualizados que faço no facebook.

O cara deve ser um grande empresário, paga por fora os salários dos funcionários. Sua estratégia para sobreviver num país tão injusto, é duplicar a injustiça com os pobres que contrata. Provavelmente, é a favor da terceirização, fim dos direitos trabalhistas e extinção do Ministério do Trabalho. Deve apoiar também o trabalho pago com comida (ou seja, escravo), a minoridade penal, e crê piamente na "Meritocracia" e que o mercado se auto-regulamenta. Deve ser eleitor do Aécio. Crente/Fiel do Neoliberalismo. Cuba deveria ser explodida. Os comunistas levados a campos de concentração. E os petistas mortos no paredão. Não tenho dúvida, tudo isso normalmente vem num COMBO. Ignorância e desprezo aos pobres e ao trabalho registrado. Se não for um grande empresário é apenas um otário falando merda.

Sobre questão de gostar ou não de um filme.

O do Stanley Kubrick é um dos filmes mais geniais que já vi na vida. E há milhoes de coisas a tratar deste filme. Mas dizer se um filme é bom, depende muito do critério e da idade, maturidade, gosto e/ou conhecimento da pessoa. Meu sobrinho Pedro odeia, mas ele só assiste a Pokemon. Meu irmão odeia, ele só curte Velozes e Furiosos. Minha amiga Fran odeia, ela só ama filmes iranianos existenciais. Uma pessoa que odeia filmes de terror odiará O iluminado. Muitos que amam filmes de terror físico, odiarão O iluminado. Ou seja. Todos podem tem visões divergentes sobre filmes, pois gosto é um fator bastante subjetivo. Só um crítico de Cinema tem que ter uma visão objetiva e científica analisando aspectos formais e outros pontos. Mesmo assim, erram muito. Bjo.

quinta-feira, junho 22, 2017

O nome dela é Gal, da HBO



Composto de quatro episódios, O nome dela é Gal, dirigido por Dandara Ferreira, trata-se da videobiografia de Gal Costa, uma produção do canal HBO. 

Lindas imagens, mas uma condução linear, convencional, sem uma sombra de inventividade. Imagens de arquivo ilustrativas pontuadas de dados cronológicas. As informações seguem monotonamente entremeadas de entrevistas dos seus companheiros de trajetória, tudo ilustrativo, nada que vá a fundo. 

O nome dela é Gal é óbvio desde o título, roça a superfície da cantante, fundo sem fundo. Em seu excesso de correção e didatismo redutor, não dá conta da persona Gal, que não é a pessoa Gal. Explico: Gal Costa - no palco - a cantar, é mais que a costela de Adão, todas as vétebras expostas, os seios pequenos, a boca vermelha, a moldura do cabelo, cristal finíssimo na voz. 

Gal Costa como pessoa é da maior desimportância. Ela não possui a inteligência de Caetano; a alegria marota e sagaz de Gil; a erudição e hiperconsciência à procura de transcedência, de Bethânia. Tudo o que Elis Regina era como pessoa de fato, voz ativa, expressão política e consciente de uma missão, ausenta-se em Gal. Por isso, Elis é um estandarte, o emblema da pessoa, um ser-sentimento que se imprime na canção. Gal é de outra natureza. 

Gal é a voz que canta, o corpo que vibra ao compasso deste canto. Por isso o corpo de Gal também tem cor, ritmo, cadência e expressão, o plus dado pela voz. Como emblema que é, natural que traduza uma extravagância que pode ser discreta, dama máxima do desbunde sem se aperceber disto, feito duna deslizante que vai dar no mar. 

Fora do palco, diferente de Bethânia, Gal inexiste. Gal existe enquanto canta, enquanto canto: tradução absoluta do soar. Gal, como bem expressa a sílaba do nome, é a voz em sua expressão máxima, em perfeição absoluta. Riscos e volteios não são impecilhos de quem não desafina. Gal é a voz plena, total. 

A Gal pessoa, é a mais desinteressante das criaturas: parece fria por viver na dela, por parecer distante, desconectada de qualquer preocupação social e política: musa alternativa sem consciência de si. É a rainha do desbunde, de balancês e luares de prata para vender. 

Quando estrela em franca decadência, cantou Sullivan e Massadas, vestiu-se de Sonia Braga rodriguiana e transbordou em sensualidade barata e suor no horário nobre da Rede Globo. Quando a canoa virou, foi atrás de Caymmi, virou intérprete correta da bossa nova e de Jobim. Em rota de colizão, nos 90, patinando para se reencontrar, voltou-se para Caetano, Gil, Chico, dando sempre o seu melhor. Mas quando a voz fraquejou, deprimiu-se, engordou, fez shows sentada e discos ruins, excedendo em arrogância e obviedade, por um longo tempo puro ego, mera expressão de quem um dia foi. 

Entre os 90 e dois mil, a vaidade desmedida fez com que perdesse espaço para cantoras tecnicamente perfeitas, mas menores do que ela. Sucumbiria  à acomodação, e consequentemente, ao esquecimento, se Caetano não a resgatasse com Recanto, um disco síntese da Gal artista e estilhaços de sua vida pessoal. Recanto ressuscitou a Gal que tudo pode com a voz que lhe restou. 

A Gal-mulher é a pessoa prosaica do registro geral, identidade que não interessa. Isso fica claro quando ela narra em off burocraticamente a trajetória. Um off que depõe contra a cantante, torna fosca a luz da estrela que o documentário visava inaltecer. Ao se narrar, sua voz soa engessada, primária: a dessintonia absoluta da palavra com as imagens de arquivo, registros do ao vivo, tomadas de entusiasmado pasmo essencial de viver.

Talvez tenha havido outra Gal, brejeira, certeira, menos na defensiva, tendo que se dizer "a maior voz do Brasil". Uma Gal que não precisava nada disso. Que não precisava mesmo saber-se. Que só precisava cantar sem se entender, prescindindo de qualquer racionalização. Isto por que, para mim, Gal só existe enquanto intérprete, enquanto canto. Seu canto é a intuição que guarda uma sabedoria que a pessoa civil, Gal, desconhece, não domina, jamais teve controle. 

Sabedoria com e para além de toda técnica (que ela sempre dominou), a artista que o documentário apresenta burocraticamente, foi capitaneada por mãos conscientes, gente que sabia o alcance do seu cantar e a fizeram existir plenamente. Essa Gal-canto nem o documentário fraco pode esfacelar, pois a Gal-voz e Gal-performer excedem a mulher banal; dão vazão no palco a uma show-woman. 

Gal que foi pulsão plena do feminino sem traço qualquer de fragilidade, fraqueza, ou impotência. Seu corpo é incoreografável, pulsação da voz que domina o corpo. Gal só existe no palco. Gal é o corpo da voz em perfeita afinação. Extraterrestre. Um objeto identificado no som, no refino e na graça.    


Por que o Airton tem/faz fotos fantásticas


quarta-feira, junho 21, 2017

MORE - normas da ABNT



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Constelações, no Tuca Arena


Há duas semanas fui ao Tuca Arena, assistir com Ana Maria, Mauro e Tininha essa peça com Caco Ciocler e Marília Gabriel. Peça instigante, jogo de espelho de universos paralelos. Boa performance dos atores numa história de amor que se desarticula e rearticula continuamente. A posição de Arena não é o ideal, Mas valeu a ida, a companhia e ver esses atores em cena. 


Aniversário do Machado de Assis


Hoje foi aniversário do meu amado Machado de Assis, desejo sucesso eterno na sua carreira de escritor, que mais do que mais um ano de vida, ele se torne um imortal. 

segunda-feira, junho 19, 2017

Jô em São Paulo


Depois de anos de promessa (há mais de 6 ela me hospeda no Rio), Jocelene desembarcou aqui em São Paulo, dia 19, às 8 horas da madrugada, mais precisamente, no Viaduto Santa Efigênia. Vem pousar nessa cidade cinza e fria, por uma semana. Nem preciso dizer que com sua chegada, a cidade já se faz diferente, dá dois beijinhos no rosto e se multiplica em SSs chiados. Chegou o tempo de paparicá-la. Irmã e Maristela já estão de prontidão. Mauro, Airton, Solange e Gabriel já se ouriçaram para conhecê-la. O Big Rabujento, reclamou do cantinho no sofá. Preparem os pratos, restaurantes paulistanos: ela ama gastronomia. Sei que vou engordar horrores e me multiplicar para apresentar-lhe às belezas ocultas de ÉssePê. Seja bem vinda.  

quinta-feira, junho 15, 2017

As meninas, de Rembrandt


Análise AQUI


FOUCAULT, Michel – “Las Meninas”, in “As Palavras e as Coisas – Uma arqueologia das ciências humanas” – Livraria Martins Fontes Editora ltda – tradução António Ramos Rosa – pg 17

Marx, aulas e alienação

Via Marcos Machado (Paulo Maurício Machado-Matéria Incógnita)

Texto do professor Samuel Maia (maravilhoso): "Eu sempre quando trabalho Marx em sala de aula puxo para o estudo da " Ideologia alemã", mas esse ano tive uma necessidade imensa de voltar a trabalhar o Capital. 

É inadmissível que tenhamos uma geração inteira que não compreende a importância da luta, que não se reconhece como proletariado, que não percebe que é explorado. 

O seu diploma, a sua pós não te faz membro da elite. Você não é diferente do gari, da empregada doméstica, do pedreiro. Você apenas vive numa grande ilusão social.

Elite não parcela a compra de um carro em 60 meses, a casa em 20 anos. Elite não utiliza o FGTS para se sustentar em caso de desemprego , muito menos precisa de seguro desemprego. Elite não conta moeda no final do mês e não briga em aniversário de mercado pelo litro de óleo. 

Não importa se você tem um cargo de chefia com carteira assinada numa grande empresa ou é um micro empresário que precisa, volta e meia, de empréstimos para manter sua empresa. A diferença entre você e a auxiliar de serviços gerais que você despreza pq limpa o banheiro da sua empresa é que ela tem consciência da exploração em que vive. 

A luta, a greve não é algo de esquerdopata, de petralha. A luta é um direito legítimo do trabalhador para manter a sua dignidade num sistema opressor como o sistema neoliberal. Mas você só luta quando entende seu verdadeiro lugar na pirâmide e, não tenha dúvida, você está bem na base da pirâmide. Entenda que se você está criticando aqueles que estão lutando pela manutenção de um direito seu só demonstra o quanto está alienado. Afinal de contas, o capitão do mato também era explorado e escravo."
📕
Professor Samuel Maia

Cláudia canta Caetano

Claudia



Senhor do Tempo - Canções Raras de Caetano Veloso (2011)
.
1. Maria, Maria (Caetano Veloso / Capinam)
2. Naquela Estação (Caetano Veloso / João Donato / Ronaldo Bastos)
3. Senhor do Tempo (Caetano Veloso / Milton Nascimento)
4. Louco por Você (Caetano Veloso)
5. Amo-te (Mesmo?) Muito (Caetano Veloso)
6. As Várias Pontas de Uma Estrela (Caetano Veloso / Milton Nascimento)
7. Samba em Paz (Caetano Veloso)
8. Pele (Caetano Veloso)
9. Luzes (Caetano Veloso)
10. José (Caetano Veloso)
11. Menino Deus (Caetano Veloso)
12. Duas Manhãs (Caetano Veloso)

Clara Nunes, um documentário


Assisti hoje "Clara", série em 5 episódios sobre a vida de uma das mais importantes cantoras do país, veiculado no Canal Brasil.

quarta-feira, junho 14, 2017

A mulher maravilha


SINOPSE: "Treinada desde cedo para ser uma guerreira imbatível, a princesa Diana (Gal Gadot) nunca saiu da paradisíaca ilha onde é reconhecida como princesa das Amazonas. Quando o piloto Steve Trevor (Chris Pine) se acidenta e cai numa praia do local, ela descobre que uma guerra sem precedentes está se espalhando pelo mundo. Atribuindo a Ares, deus da guerra, a razão de todos males, ela decide deixar seu lar. Julgando-se predestinada a derrotá-lo, viaja para Londres e posteriormente para o campo de batalha onde nazistas e ingleses lutam incessantemente, confiante de poder encerrar o conflito: uma luta para acabar com todas as lutas. Neste processo, Diana se envolve com Trevor e tenta compreender a sociedade humana, enquanto vai descobrindo o alcance de seus poderes e sua verdadeira missão na Terra."

Talvez por que dirigido por uma mulher, a diretora Patty Jenkins (de Monster e de episódios da série The Killing, ambos protagonizados por mulheres poderosas), o filme sobre a maior de todas as super-heroínas não tenha resultado num trabalho banal. A série televisiva protagonizada por Lynda Carter, fez imenso sucesso, era uma versão soft que enquadrava Diana Prince ainda como mocinha sexy, mas tão travada quando Clark Kent. Despi-la de sua roupagem setentista e trazê-la para o presente era o grande desafio da diretora que precisava dar um salto de qualidade nas pirotecnias histéricas e tediosas das adaptações recentes da DC Comics, como os decepcionantes Batman vs. Superman e Esquadrão Suicida. 

Patty Jenkins veio já se arriscando, pondo como protagonista a desconhecida Gal Gadot, modelo e atriz, ex-miss Israel, cuja experiência cinematográfica era de coadjuvante da franquia testosterona Ferozes e Furiosos. Ela já se mostrara adequada como a Mulher Maravilha em Batman vs. Superman; contudo, é nesta nova produção, na qual ocupa o centro, que veio a dar um passo à frente na saga DC.

Gal Gadot não tem a beleza extensiva e corpo voluptuoso de Lynda Carter, a imagem que se projetou também nos quadrinhos. Mais esguia, ainda assim deslumbrante, ela se preparou para o papel com aulas de Kung Fu, Kickboxing, Capoeira e Jiu-Jitsu, além do treino com espada, para as lutas que são as das mais extraordinárias já vistas nos filmes de heróis. O grande acerto da direção foi investir sem medo no carisma natural da atriz, a quem uma câmera apaixonada não cansa de flagrar em planos médios e super-closes. Gal confere à Mulher Maravilha um misto de inocência e sedução, ela nunca é mostrada de modo vulgar, o que somente o olhar atento da condução feminina poderia garantir. Aliás, o único nu presente do filme é de um homem (o bonitão Chris Pine), seu par romântico no filme.

Claro que há trama de amor, com aproximações e adiamentos entre a jovem Diana e o soldado espião Stive Trevor. O suspense clichê para o beijo, para o sexo e sua consolidação como casal, tudo isto está lá. O romance, contudo, é pouco enfatizado, já que interessa justamente o estranhamento de Diana, vinda de uma terra onde as mulheres eram todas poder, agora lançada num ocidente onde as mulheres (o filme se passa na II Guerra) eram até então consideradas pouco mais do que objetos decorativos; portanto, menosprezadas e submetidas ao controle dos homens. Isso será explorado em várias cenas em que Diana quebra o protocolo ditado pelos homens.


Mulher Maravilha é um filme para encantar, está lá o "momento uma-linda-mulher" em que Diana vai às compras e desfila diversos "looks" belos mas imprestáveis em termos de conforto e mobilidade para uma guerreira. Aliás, suas habilidades demoram, inteligentemente, a serem exploradas, pois se farão plenas no momento em que ela vai ao campo de batalha lutar para libertar velhos, mulheres e crianças. É um clichê, mas até estes podem render cenas memoráveis quando dirigido com talento. Mais do que a da luta espetacular das Amazonas (ainda na ilha), a passagem pelas trincheiras está toda centrada no domínio de luta da Mulher Maravilha, na exploração do escudo, da espada, do laço mágico, dos braceletes, da sua própria força e dom de saltar. Interessante perceber como neste, e noutros pontos, os homens presentes no filme lhe servem de escada, "literalmente" de apoio, pois ela surge mitificada como "a Liberdade que guia o povo", a deusa da vitória a guiar os exércitos.

Uma crítica que se pode fazer ao filme, é a mesma de todos àqueles de heróis. Ao se colocar um vilão potente demais (Diana enfrenta no desfecho o mitológico deus da Guerra), o final redunda numa profusão de excessos, com explosões e raios enfadonhos, prédios caindo, e resgates no último instante, com desfecho decepcionante, posto que improvável. Inclua neste desfecho um dilema moral (punir a vilã máxima - e fraca - e "ser tão má quanto Ares"), com um sacrifício seguido de uma vitória apoteótica; além da aquisição de um objeto compensatório (a fotografia antiga). 

Situada nos anos 40, Diana termina a trama trabalhando no Louvre, já que não pode mais retornar à sua ilha natal. Imortal como deusa que é, ela se converte numa incansável combatente da injustiça e da guerra, sendo prometido nos próximos filmes integrar a Liga da Justiça

Se os "machos" diretores aprenderem a lição de enfatizarem a personalidade e traços humanos dos personagens (como recentemente feito em Logan), é possível que os filmes de heróis possam significar mais que uma montanha russa de histeria épica de violência estetizada. Mulher Maravilha é entretenimento inteligente, diverte e encanta, daí o seu sucesso de público e crítica. Que ela contamine as demais produções para se explorar as complexidades dos heróis, investir na trama que tenha uma história a contar e que traga, como plus, uma outra representação, como fez Mulher Maravilha, sobre o feminino, ampliando o espaço da mulher nos quadrinhos, nos filmes e no mundo."

Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, de André Comte-Sponville



01. Polidez
02. Fidelidade
03. A prudência
04. A temperança
05. A coragem
06. A justiça
07. A generosidade
08. A compaixão
09. A misericórdia
10. A gratidão
11. A humildade
12. A simplicidade
13. A tolerância
14. A pureza
15. A doçura
16. A boa-fé
17. O humor
18. O amor

Ed. Martins Fontes, São Paulo, 1999.
Tradução de Eduardo Brandão


[Uma beleza de livro, que disserta longamente sobre cada uma das virtudes selecionadas por André Comte-Sponville. Às vezes a linguagem poética soa obscura e palavrosa, mas as reflexões são boas, e traz para gente, em tempo de absoluta degradação moral e ética uma reflexão sobre valores/virtudes universais, apreciáveis, mas que perdem sempre espaço para os pecados, os sete, e todos os outros].

domingo, junho 11, 2017

Eu vi o rei passar, de Antônio Cicero

Eu vi o rei passar

Um rei assim
não ouve muito bem
e adora luz;
sem ver ninguém
prefere olhar
o horizonte, o céu:
longe daqui
é tudo seu.

Seu sangue azul
ninguém diz de onde vem
de que sertão
que mar, que além;
e para nós
ele jamais se abriu
senão uma vez
depois partiu.

Um rei assim
cultiva a solidão
sombria flor
no coração
e claro é
que o pêndulo do amor
às vezes vai
até a dor

Devo dizer
que não sofri demais.
Devo dizer
que acordei.
Mesmo sem ser
tudo que imaginei
devo dizer
que o amei.

Antônio Cícero

sexta-feira, junho 09, 2017

Um dia de cão, 9.6.17


Manhãzinha, fico no sofá fazendo festinha do Big, cada dia mais velhinho e fofo.

Laerte-se, um documentário Netfilx


Laerte Coutinho é um gênio, passou por uma transição de homem à mulher e tornou-se militante do movimento transgênero. Laerte-se foi aguardado como o primeiro documentário brasileiro produzido pela NetFlix. Eliane Brum e Lygia Barbosa da Silva foram lá e fizem esse documentário absolutamente tedioso, que só não reduz a zero o cartunista Laerte, por ele ser maior que o desastre - em todos os sentidos - que acabou sendo este documentário. Entremeando tudo, um material rico e mal aproveitado, filmagens em super8 da infância à idade adulta, mais a produção rica do artista que se abriu totalmente à conversa. Pena.


Guia de escrita, de Steven Pinkes


Um livro que me pareceu interessante, tenho que encontrar e ver se não é um embuste.

Volta à academia












Hoje, pedi para montarem um treino para mim, e voltei à academia depois de mais um mês. Engordei horrores neste período, tive crises danadas, mas enfim consegui concluir um trabalho importante. Estava escrevendo o artigo Tempos, trips e terreiros: “Cabeça de nego”, um samba-rap de Sabotage.





Teste Rorschach ou O que vai pela minha cabeça






HISTÓRIA

http://www.hagopgaragem.com/sp_galeria.html

aqui

Santa Ifigênia


1919/2013 - Ladeira de Santa Ifigênia (rua do Seminário) no alto em 1919. Com exceção do Hotel Bom Gosto, atual Hotel Seminário (em vermelho, ao que parece), construído no lugar da casa térrea. Na foto atual, aparece à esquerda o Palacete Santa Ephigenia e à direita o resistente hotelzinho.

Igreja Santa Efigênia


Santa Efigência - São Paulo - 1916.

Resistência


Na Alemanha nazista, uma prova sutil de resistência.

terça-feira, junho 06, 2017

O Brasil do século 19 e o desprezo pelo trabalho

Sobre a polêmica de hoje (a da escola cujos alunos foram vestidos de lixeiro, faxineira e outras profissões "indignas"), um trecho que sempre cito aos meus alunos do livro "Mauá, empresário do Império", de Jorge Caldeira, sobre o Brasil de 1846:

"Qualquer trabalho manual, por mais bem pago que fosse, era considerado tarefa degradante para os cidadãos livres. Até mesmo a idéia de optar por uma carreira como a de Irineu, como empregado ou dono de uma empresa de comércio, provocava arrepios em gente que se considerava bem-nascida, mesmo que a alternativa fosse a pobreza. A reação contra o trabalho manual costumava ser violenta, e assustava viajantes como Thomas Ewbank:

Interrogando-se um jovem nacional de família respeitável e em má situação financeira sobre porque não ganha a vida de maneira independente, há dez possibilidades contra uma de ele perguntar, tremendo de indignação, se o interlocutor está querendo insultá-lo. "Trabalhar! Trabalhar!", gritou um deles, "para isso tem os negros." Sim, centenas de famílias têm um ou dois escravos, vivendo do que eles ganham. O doutor C. conta que um jovem prefere morrer de fome a abraçar uma profissão manual. Diz que há alguns anos aconselhou uma pobre viúva, que tinha dois filhos rapazes, um de catorze outro de dezesseis anos, a encaminhá-los em ofícios. A viúva ergueu-se, deixou a sala, e nunca mais falou com ele, embora tivesse fornecido gratuitamente seus serviços profissionais à família durante oito anos. Recentemente foi abordado por um funcionário do Departamento de Polícia, que se deu a conhecer como o filho mais velho da Viúva, que revelou ter um cargo satisfatório. Ser empregado no governo, na polícia, é honroso, mas descer abaixo de empregos no governo, mesmo para ser negociante, é degradante.

Esse desprezo ao trabalho era fundamental para marcar uma diferença social básica nas sociedades escravistas, nas quais distinção se confundia com não se sujeitar a tarefas consideradas humilhantes. Na escala social que guiava as elites, até mesmo um comerciante rico como Irineu aparecia como um tipo suspeito de envolvimento em atividades vis. A partir do alto, o preconceito contra o trabalho manual se estendia a toda a sociedade. Fugir do estigma da escravidão era uma necessidade imperiosa até mesmo para os que não tinham outra opção na vida a não ser ganhar o pão com o suor do rosto. Nessa categoria estavam todos os trabalhadores especializados do país, que viviam de salários ou tinham pequenas oficinas. Para conservar a dignidade e se diferenciar dos escravos, esses trabalhadores manuais adotavam complicadas formas de comportamento, cuja lógica muitas vezes fugia à compreensão dos europeus que passavam por aqui. Cruzar com um desses tipos, como aconteceu com o comerciante inglês John Luccock, muitas vezes acabava se tornando uma dura prova para toda a racionalidade européia, ainda que o problema fosse uma simples fechadura encrencada:

Os mecânicos brancos consideravam-se todos eles fidalgos demais para trabalhar, e consideravam que ficariam degradados se vistos em público carregando a menor coisa pelas ruas, ainda que fossem as ferramentas de seu ofício. O orgulho tolo e a presunção formalizada, que dominava todas as classes da sociedade brasileira, atingiam nessa categoria de homens um absurdo singular e ridículo. Tornando-se necessário abrir uma fechadura de que se perdera a chave, e tão rara era a habilidade necessária para tanto, que o gerente e o copeiro do hotel onde então eu morava ficaram grandemente perplexos quando eu perguntei onde se a poderia encontrar. Afinal 
aconselharam-me a me dirigir a um carpinteiro inglês que se achava estabelecido no Rio de Janeiro há uns dois anos e que tinha muitos empregados, dos quais um foi mandado ir comigo (porque neste tempo mestres não se atreviam a ir executar trabalhos fora), com a garantia de que haveria de me contentar. Fez-se esperar por largo tempo, mas, afinal, para compensar a demora, apareceu-me vestido de grande gala, com tricórnio, fivelas no sapato abaixo dos joelhos e outras quejandas magnificências. À porta da casa tornou a estacar, na intenção de alugar algum preto para que lhe carregasse o martelo, a talhadeira e alguma outra ferramenta pequena. Lembrei-lhe de que, sendo leves, eu mesmo me encarregaria de uma parte ou do todo, mas isso se constituiu um solecismo tão grande como o de usar ele próprio suas mãos. O cavalheiro esperou pacientemente até que aparecesse um negro, tratou com ele, e então prosseguiu em sua devida forma, seguido por seu criado temporário. Em pouco tempo deu cabo da tarefa, quebrando a fechadura em vez de abri-la com a gazua, após o que o homem importante, puxando uma profunda reverencia, retirou-se com seu lacaio.

Era quase impossível explicar ao comerciante inglês que o carpinteiro afetado precisava fazer tudo isso para não se sentir identificado com um reles escravo. Por causa do fantasma da degradação do trabalho, todos os comportamentos em torno dele adquiriam outro significado. Em tal mundo, uma fábrica era um empreendimento mais que incerto. A ordem que os conservadores tinham montado, e à qual os liberais tinham se rendido por não vislumbrarem alternativa, se compunha de uma lição básica: no mundo alguns deveriam se limitar a mandar, outros a executar as tarefas que lhes cabiam. Tudo o que não podia ser explicado por esse axioma básico, tudo o que ficava no meio desse mundo em branco e preto, se constituía num problema difícil de resolver, para patrões ou empregados. O trabalho em troca de salários existia, porém mais como um acidente inevitável que como regra. Era uma solução pouco razoável, um arranjo temporário que deveria ser abandonado na primeira oportunidade que surgisse."

Um problema que existe desde a fundação da nação não vai ser resolvido de um dia para outro, infelizmente. Por isso estamos assim.

domingo, junho 04, 2017

Mulher Maravilha no cinema.


Sábado trabalhei o dia todo, saí de lá e encontrei Mauro na entrada do cinema da Paulista. Jantamos ali na praça de alimentação e fomos ver A mulher maravilha.