quarta-feira, maio 31, 2017

Sobre o fim da inocência e sobre a passagem de tempo

Gosto do Tempo que não cessa e inexoravelmente tudo transforma, quando não degrada e faz ruir. Muitos livros ficaram, as tecnologias se fizeram obsoletas, as angústias se dispersaram ou se tornaram outras. As pessoas se transformaram, mas são nelas que medimos melhor a passagem do tempo, não nos relógios, nos calendários, nas paisagens.  

Quando um bebê nasce torna tudo novo, inunda de sentido o cotidiano mais banal. Tira-nos no estado natural das coisas. Tornamo-nos mais alertas. O mundo nos surge como fonte de ameças, preocupações. Crianças também nos instigam a ser melhores (pelo menos comigo sempre foi assim; embora não tenha me tornado pai, preservei para sempre a empatia pelas crianças. Sei me colocar no lugar delas.

Criança não é gente, é outra coisa: está entre figuras angélicas transcendentes e algo demasiado humano, frágil e mortal, digno de piedade e amor. Criança é um ponto flutuante no espaço. Uma indefinição. A potência em forma encarnada, engatinhando para um dia ser. Mas criança tem curta duração, e um dia acaba. 

Acaba a infância substituída por toda espécie de outra coisa enquadrada na categoria de gente. Bons, maus, belos, duvidosos, recalcitantes humanos, fonte de preocupações, de dúvidas, medos, e por medo, desejo e vaidade, uma inesgotável fonte de ferocidade e dano.

Os antigos diziam que enquanto não havia fala (in, não; facis, falante), havia a infância, talvez por isso nossos animais de estimação são sempre inocentes. O humano é outra coisa. Não podendo ser eternamente infantil, ao crescer tudo toma outra natureza. 

E sempre me instigou saber o que pontua o fim da infância. Para mim, ocorre quando acaba a "inocência", e não me refiro à sexualidade (que se manifesta muito breve numa libido que ainda não é plena), mas algo que vai além. 

A "i-nocentia" (a negação do "nocens": mau, criminoso) é atributo do que é inofensivo, do que não nos ofende/agrida por sua pureza, sua não consciência de algum tipo de transgressão, por isso digno de piedade. A mentira após devorar a maçã do Paraíso e o pudor de estarem nus são manifestações diante do Deus bíblico do fim da inocência de Adão e de Eva. 

O fim da inocência nasce daquele ponto de ruptura, em que todos os movimentos são empreendidos de forma não mais espontânea, natural, imediata, sem intensão; mas quando surge o cálculo preciso, o desejo de manipular de algum modo o outro, com consciência de o estar fazendo em benefício próprio. É em grande parte a consciência de si.


Na foto, imprimiu-se minha inocência. Olho-me com nostalgia do que foi breve, bom e fugaz. Da criança que fui. Tenho enorme piedade por este outros que fui, suas dores, seus silêncios não compreendidos, sua grande solidão. O tempo é inexorável. Estamos sempre nos despedindo do que vivemos e do que fomos. 

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