quinta-feira, maio 25, 2017

Pensando David Lynch e seu cinema


O americano David Lynch não é dos meus diretores preferidos, mas o respeito. Gosto do fato de flertar com a ilogicidade, de dar ao cinema a contribuição de um mistério não justificado, ainda que por vezes seja forçado a fazê-lo, como o foi na série Twin Peaks. O desfecho da série (elegendo um criminoso) trai seu cinema justamente por que ele é feito para perturbar, para não se fazer entender, para ficar no plano do inconsciente e/ou demolir certezas. Lynch quer criar um incômodo com o pré-estabelecido como realidade convencional, como real. Por isso, ele vai arregimentando em seus filmes todos os clichês da vida americana interiorana, trivial, banal, como o cinema tradicional a construiu e encenou como reprodução da verdade. Ele, por isso, mistura épocas distintas, adota o melodrama como pedra de toque (moral, para revelar o amoral de tudo). Mas transcende a trama, encenando como real o que é sonho, delírio, inconsciente. Seus filmes devem muito à psicanálise, por isso o nonsense, o grotesco, o surrealismo com que uma trama, aparentemente realista entra em colapso.


Estão lá o misticismo barato, a cafonice dos wasps/estadunidenses saudosos de uns anos 50/60 (ao qual ele sempre volta). Lynch mistura o cinema experimental com o noir e o cinema de gangster. Suas obras são cheias de silêncios, vazios, tempos mortos, inserts metafóricos em superclose, fusões, para na sequência, tudo explodir em histeria, em interpretações histriônicas, explosivas, o over-acting maravilhoso que fez seus atores brilharem. E, muito importante: suas tramas morais não procuram moralizar, educar, pôr ordem: as taras, o masoquismo, o sadismo, o incesto, as traições, o fanatismo religioso, o ascetismo, o lesbicianismo, as paixões assassinas, os vícios, mutilações, a decrepitude e a hipocrisia, tudo isto é inerente do humano, e ele não faz vista grossa. Não há mocinhos em seu cinema. Seu cinema é espaço de transgressão, de loucura e insanidade. A grande exatidão da sala vermelha, sua simetria, sua absoluta perfeição: materialização máxima da insanidade. Lindo é que não explica nada nunca, pois não é para ser compreendido, quem precisa de moral da história e esclarecimentos não entendeu ainda o mundo/tempo em que vivemos. Como uma geração atual que precisa de tudo mastigado entenderá isso?




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