quarta-feira, maio 24, 2017

Lucas manda um retrato



Lucas está na Áustria estudando Economia. Falo com ele semanalmente, às vezes, longas horas. Ele me fala de suas peripécias cotidianas: o trabalho atual num cinema, os cursos que faz, as rotinas dos dias, algumas coisas sobre a família e o coração. Entre um trem e outro, conversamos nas longas viagens que faz retornando da faculdade para casa. Fala dos livros que ele lê com paixão (Lewis Carroll, Gabriel Garcia Marquez e Guimarães Rosa, que ama), das músicas que houve. Quando em casa, toca violino para eu ouvir, lê alguns poemas que escreve, lê trechos de textos em inglês e alemão. Está sempre preocupado com os rumos da política do Brasil, fazendo longas reflexões sobre a nossa dificuldade de ser um país justo e democrático. Fala, igualmente, da Áustria, e alguns incômodos, principalmente, sobre as relações dos austríacos com os imigrantes, seu conservadorismo, a visão tradicional que pauta as relações; das dificuldades que tem de expressar afetos. Vive com a esposa/namorada, numa região rural (os pais dela são produtores de leite), conta-me das suas dificuldades iniciais com o idioma, do processo de aquisição da carteira de motorista que tirou recentemente. Sente saudade da irmã Nicole, pessoa com a qual mais se preocupa no mundo. Da mãe, da vó, da tia Edna, das crianças todas que estão crescendo sem sua presença, dos tios, irmãos, da madrinha, do padrinho; e de mim. Fala das dificuldades financeiras, das pindaíbas, das dificuldades de um estrangeiro dentro de uma cultura e um país tão distinto; da indiferença do pai quer raramente pára para falar com ele. Ele é uma das melhores pessoas do mundo, muito humano, com um olhar amoroso para o mundo, desejoso de justiça, igualdade e alegria para todos. Possui uma curiosidade insaciável por tudo, um desejo de ser e estar. Tem um amor incansável pela Arte, mas nunca apenas contemplativa, adora estudar, envolver-se criar. Por isso, cabem nele o esqueitista, o lutador de ninjútso, o tocador de violão, o mágico, o pintor amador, o modelo profissional. Mesmo longe, está sempre presente, e vezenquando eu paro e escrevo um pouco, sobre ele, para lembrá-lo que estou/estamos aqui, e o amamos.



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