domingo, maio 21, 2017

Morro dos prazeres (2013)



"Morro dos Prazeres" é uma crônica documental sobre o dia-a-dia de uma comunidade do Rio de Janeiro um ano depois da instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Durante quatro meses, entre abril e julho de 2012, a cineasta e sua equipe acompanharam o cotidiano da favela que dá nome ao filme, em Santa Teresa, observando o processo de pacificação a partir do ponto de vista de seus protagonistas: de um lado, os moradores da comunidade, que experimentam uma nova rotina a partir da instalação da UPP, e de outro, os policiais, que representam a presença da lei em um espaço até então marcado por sua ausência. Depois de anos de uma história marcada pelo abandono público e pela agressão policial, Morro dos Prazeres testemunha os esforços para o estabelecimento de um diálogo entre sociedade civil e Estado e a tentativa de construção de uma nova noção de cidadania.



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Morro dos Prazeres
longa-metragem | 2013

Após décadas de ilegalidade, a ordem parece ter retornado ao Morro dos Prazeres. Uma UPP – Unidade de Polícia Pacificadora – tomou o controle da comunidade das mãos do tráfico. Em Morro dos Prazeres, Maria Augusta Ramos, sob a perspectiva de seis personagens principais –  um carteiro, uma adolescente envolvida com o crime organizado, um vendedor de livros e três policiais – revela as tensões diárias entre moradores, a nova força policial e os obstáculos do caminho para a reconciliação.

Brasil, Holanda, 2013, 95 min, DCP
Direção e roteiro Maria Augusta Ramos

Uma vida alemã (Mitläufer), 2016



Retrata a trajetória da funcionária da máquina administrativa nazista, Brunhilde Pomsel (1911-2017), através de palavras dela mesma em entrevista. Secretária e estenógrafa pessoal de Joseph Goebbels, ministro de Propaganda de Hitler, aqui ela conta quais eram suas tarefas, que incluíam na maior parte dos casos a maquiagem de estatísticas, e ainda nega qualquer sentimento de culpa. 

Análise do discurso

Veja como a linguagem trai. Os "anti" têm certeza "de que Lula não pode ser inocente". Veja que a certeza não é de que Lula é culpado. A diferença não é pequena.

Dizer que ele é culpado, surge como conclusão racional após algum tipo de raciocínio. Dizer que ele "não pode ser inocente" remete a uma profissão de fé que coloca o desejo como conclusão das ações. Pouco importa se Lula é inocente, "ele não pode ser".

A construção narrativa é a mesma feita sobre Getúlio que não poderia se candidatar, em se candidatando, não poderia se eleger, em se elegendo não poderia governar.

Esta construção implica no ensejo a ações sociais com vistas ao fim de declarar Lula culpado. Faça-se tudo, mas ele "não pode ser inocente". É o convite ao abuso, à injustiça e à perseguição. Tudo numa frase.

Fazer alguém que tem certeza da culpa de Lula perceber que não há nada contra ele é fácil. As provas inexistem. 

Fazer alguém que tem certeza de que Lula "não pode ser inocente" é impossível. A vontade supera a racionalidade. Mesmo se o auto-convencido for um juiz.

Agora imagine confiar no julgamento de alguém que até quinta acreditava que Aécio era o "único caminho contra a corrupção nas eleições de 2014".

Será que quem votou em Aécio não ligou ao menos uma luzinha na consciência reconhecendo que seus julgamentos são falhos e mal embasados? 

Se erraram tão claramente com Aécio, não entendem que estão errando novamente afirmando que Lula "não pode ser inocente"?

Fernando Horta

sexta-feira, maio 19, 2017

A boca da donzela



Um dia a donzela sonhou uma boca. Não que não soubesse sonhar um corpo inteiro; acontece que naquele dia quis sonhar somente uma boca. Não uma comum -- pois bocas comuns existiam aos milhares -- a sua boca haveria de ser especial; boca nunca sonhada.

Elaborou o contorno: nem muito fina, nem carnuda demais e, por levar seus sonhos a sério, não quis ir além dos limites da imaginação fazendo outra boca que não fosse vermelha. Tendo definido a cor, achou que a boca deveria ser doce. Para princesa era loucura imaginar uma boca sem gosto.

Nas primeiras noites ficou totalmente satisfeita com a boca sonhada; boca esta que por vezes parecia sorrir-lhe flutuando segura no vazio. Com o tempo, porém, irritou-se um pouco com aquela boca ali perdida no nada. “Que triste!”, bradou a princesa, “uma boca ser tão sozinha!” E olhando a boca, não demorou a perceber que aquela era uma boca de homem e que precisava urgentemente de um rosto.
Sonhar um rosto de homem não era coisa difícil; tantos homens que iam e vinham o tempo todo. Contudo, da mesma forma que na boca, a princesa quis se esmerar no rosto que sonhava.

“Tem que ser um rosto sincero, com olhos redondos e meigos para combinar com a boca; sobrancelha baixa, para dar ao rosto certo mistério, um certo atrevimento...” No nariz, parou uma semana. E como era difícil sonhar um nariz! Pois, em narizes, pouco reparava. Assim, tendo estabelecido o nariz, vieram fáceis a testa, as maçãs, o queixo. E o cabelo? Negro? Louro? Vermelho? E a cor da pele, qual seria?

Gastou mais uma semana para sonhá-la. Nem branca, nem negra, um meio termo: clareava no inverno para combinar com a neve e escurecia no verão, para combinar com a terra. E por não saber para que servia, estabeleceu que os fios da barba cresceriam lentamente, dando tempo de se optar.
Surpreendeu-se a princesa com a cabeça sonhada. Cabeça que custara a ela todas as noites de um mês inteiro. A cabeça era um sonho, porém depois de concluída pedia urgentemente um corpo.

- Cruz credo! - tremeu a princesa, se alguém sonhasse o mesmo sonho acharia com certeza que havia decapitado o pobre rapaz.

Foi assim que na mesma lentidão, a cabeça cobrou o corpo que a princesa foi sonhando.

Sendo insuficientes as noites, a princesa foi penetrando cada vez mais os dias, passando mais tempo no sonho do que na vida.

Assim de repente, ela foi tomando consciência das diferenças que havia entre aquele corpo e o seu: o ombro largo, para que servia? Talvez para suportar o peso das armaduras que o homem teimava em usar para fazer guerra. O tórax largo seria para as medalhas? Os braços musculosos, para levar donzelas? Longos, para atirar do arco, as flechas? E as pernas? Que razões teriam para serem tão cumpridas senão para se adaptarem à sela de cavalgar? Por mais sonhar essas coisas, mais descobria que o homem era definitivamente um ser estranho e que estranhamente lhe agradava.

Mas nenhum homem a agradava tanto quanto este feito inteirinho de sonho. Por esta razão: a de não concluí-lo, adiava o despertar, demorando-se nos detalhes mais fúteis, como o contar e recontar inúmeras vezes os dedos para ele sonhados.

Os pais já a haviam repreendido, dizendo que sonho demais era quase tão ruim quanto a realidade, mas ela nada ouvia, pois já sonhava acordada.

Sonhava um outono, quando percebeu que o moço não sorria. Achou que fosse a falta de dentes e sonhou-os brancos, perfeitos e bem escovados. Mas mesmo assim o cavaleiro não lhe sorriu. Notou que, desde o início não lhe fizera nem um gesto, nem uma palavra dissera. Nada. Achou que era pura timidez, pois ela o havia sonhado primeiramente nu para depois pôr-lhe as roupas. Porém, tanto tempo transcorrido, começou a temer que fosse surdo, ou mudo, ou pior: não gostasse dela nem um pouco. Que a odiasse por ela tê-lo moldado inteiramente conforme a sua vontade. Que o quisera bom demais, bravo demais -- demasiado: augusto em cada detalhe.

Então, tomou coragem e esticou o dedo tocando-o. Era quente, pulsante, vivo -- um homem, não uma estátua! -- Ela, então, fechou o punho e bateu em seu joelho ordenando: - Fale!

Mas ele não falou. Ela então se afastou cheia de horror, pois compreendera que o fizera perfeito. Perfeito demais. Esquecera somente de lhe dar uma alma. Existiria uma alma perfeita?
Mas não era isso, era pior. E seu grito soou terrível.

- Sou eu que não sou perfeita.

E, gritando, desejou que jamais tivesse feito seu corpo, sua cabeça... e que sua boca, ora, que a sua boca fosse igual a qualquer boca. Uma boca qualquer, que pudesse beijá-la com amor.


[Um conto de fadas meu publicado no Blog das 30 pessoas, em 13 de novembro de 2009] 

O cidadão ilustre, de Gastón Duprat & Mariano Cohn



O cidadão ilustre. Vi ontem em casa com Gabriel. Genial.



Daniel Mantovani (Oscar Martínez), um escritor argentino e vencedor do Prêmio Nobel, radicado há 40 anos na Europa, volta à sua terra natal, ao povoado onde nasceu e que inspirou a maioria de seus livros, para receber o título de Cidadão Ilustre da cidade - um dos únicos prêmios que aceitou receber. No entanto, sua ilustre visita desencadeará uma série de situações complicadas entre ele e o povo local.


Dia das mães no Zaíra



No Zaíra, no dia da mãe de todos nós. Não todos. Uma pequena parcela dos filhos que ela foi elencando ao longo dos anos. O riso feliz da mãe, pilar do matriarcado familiar, poltrona sobre a qual todos nos inclinamos, menos Gabriel que olha direto pra câmera. O rosto da minha mãe em mim, na irmã, no irmão, replicado no riso de Vittorino, os cilios e sobrancelhas grossas de Pedro. A inteligência. A Lã ao lado, herdeira da profissão de enfermeira e afeto por cães e gatos. Eu, o amor pelas crianças, pelos livros, por lecionar, por declamar teatralmente e escrever. O irmão e seu carisma, sua capacidade de mobilizar as pessoas, de liderar; a irmã e sua amorosidade maternal, sua capacidade administrativa, de criar negócios, de planejar eventos e sua fé. Como se todos fôssemos extensão dela, projeções para fora do seu ser único, sem jamais dar conta de comportá-la por completo. Levamos em nós o legado de sua coragem, sua postura combativa, sua inquietude. Somos sua memória agora que evanesce e sucumbe no mais cruel dos males. Mas neste dia, seu dia, que esteja mais presente, como presença, e que a mereçamos agora e sempre, e sejamos mais ela enquanto nós, elos firmes, da família que sempre almejou, para além de todos retratos familiares. Amor.

sábado, maio 13, 2017

Jerry Maguire, a virada


 Um empresário de atletas que comete o erro de dizer o que pensa se vê abandonado por todos os seus clientes, exceto o jogador de futebol americano Rod Tidwell. A vida pessoal de Maguire também começa a se desintegrar quando ele fica dividido entre amor e dinheiro nesta metáfora sobre a necessidade de dinheiro e poder dos americanos.


Descubro que este filme que vi no cinema é de 98, resolvi assistir com Gabriel. Gosto do filme, embora seja muito americano, muito convencional, muito em torno da questão do sucesso, dos valores (amizade, lealdade) e da família. O que gosto no filme é justamente o fato de que nada disso se encaixa bem, que não há de fato amor na relação de Jerry com a mãe viúva, que sua paixão é pelo filho dela, e que a grande virada é de 360 graus, ou seja, retornar ao ponto de partida, repleto de sucesso e grana, parasitando carreiras e outras famílias. Jerry Maguire é o cara que não pode ficar sozinho, é vazio em si mesmo, obsessivo pelo sucesso (até na última cena do filme). 

Realive ou Projeto Lázaro, 2016




O filme gira em torno de Marc (Tom Hughes), um homem bem sucedido, ambicioso, com um monte de projetos na vida, que é diagnosticado com câncer terminal e com alguns meses de vida. Incapaz de aceitar a morte, ele decide criogenar seu corpo para ser ressuscitado no futuro.



Ele desperta em 2056, mas é o primeiro caso bem sucedido de ressuscitação; seu corpo é inteiramente refeito, só o cérebro mantido. Ele se torna o cartão de visitas do Projeto Lázaro capetaneado pelo obsessivo Dr. West e um batalhão de cientistas. As limitações físicas, a dependência umbilical às máquinas, frustra seu despertar. Soterrado de memórias felizes com a mulher amada, ele mergulha numa crescente depressão, reavaliando sua descisão de ressuscitar. 



É uma versão moderna de Frankenstein, mas recheado de flashbacks e elocubrações filosóficas existênciais, mas tudo desenvolvido em offs convencionais, compondo uma visão empobrecida da questão. Realive fica na superfície do que propõe, calcado numa historinha de amor romântico e num personagem unidimensional, ainda mais, por que o que o fustra e leva a um novo desejo de morrer/suicídio está no fato de não controlar a própria vida, de não querer as limitações físicas (que não são tantas) que seu novo corpo apresenta. O desfecho é meio tolo, quando o ressuscitam novamente, mostrando que ele se tornou prisioneiro da ciências, não sendo permitido nem mesmo morrer. O filme é lento, convencional, e termina por ser um drama arrastado, bem pouco metafísico; não se pagando mesmo como entretenimento. 

Get out, ou Corra!!!



Chris (Daniel Kaluuya) é jovem negro que está prestes a conhecer a família de sua namorada caucasiana Rose (Allison Williams). A princípio, ele acredita que o comportamento excessivamente amoroso por parte da família dela é uma tentativa de lidar com o relacionamento de Rose com um rapaz negro, mas, com o tempo, Chris percebe que a família esconde algo muito mais perturbador.


Sim, trata-se de uma versão terror/suspense do clássico Adivinha quem vem para o jantar. Logo que a o rapaz negro penetra a casa da namorada branca, se instaura o estranhamento. Não só por que os únicos negros são a empregada e o jardineiro, mas estes se comportam como zumbis.

Logo ao saber que o rapaz é fumante, a mãe da moça - uma terapeuta - se propõe a hipnotizá-lo para que ele deixe de fumar. Isto é suficiente para percebermos que se trata disso: um controle profundo dos personagens negros que faz todos agirem como velhos escravos no Alabama. Mas o protagonista, traumatizado pela perda da mãe na infância, não apenas - apaixonado que está - se deixa envolver com pouca resistência, mas acaba hipnotizado e participando de uma reunião com velhos ricos e brancos que estão lá para leiloa-lo. Por mais absurdo que parecesse o controle da mente pela hipnose, ou pela cirurgia que o pai neurologista pretende fazer no moço, ainda pareceria verossímil numa trama do tipo. O problema que quebra a lógica do enredo é sabermos no desfecho que os negros na verdade eram hospedeiros de homens brancos cujo cérebro lhes era transplantados. A mocinha, uma espécie de aranha a atrair vários rapazes para o negócio da família, que era vender esses corpos aos brancos ricos calcasianos. Ou seja, no final não serve nem como metáfora. 

O desfecho feliz, com um deus ex machina duplamente repetido, não ajuda muito. Mas o filme cumpre o papel de diversão vazia e barata, perdendo as camadas possíveis de discussão para além do gênero banal: a nostalgia dos wasp de um sul escravocrata com negros dóceis, resignados e serviçais. O filme começa num tom de drama mais realista, depois de suspense, depois parte para o nonsense, para o paranóico, para o terror psicológico, e descamba num humor um tanto ridículo, capitaneado pelo amigo gordão piadista. O melhor do filme, contudo é o ator Daniel Kaluuya, cujo olhar de uma expressividade ímpar, já tinha sido posta a prova num dos episódios do blacklist. 

Lula e Moro

Lula depôs dia dez em Curitiba, Moro mostrou toda sua incompetência como juiz/investigador, cheio de inconsistência num processo que nem deveria existir, já que sem qualquer prova concreta. O tom arrogante para com Lula e os advogados nos remete à toga dos eleitos que aparece tão bem tematizada na obra de Machado de Assis. A teoria do medalhão em versão atualizada: a aparência de legalidade, de seriedade, de legitimidade no que é arbitrário. A democracia brasileira é uma falácia. A lei uma mentira, posto que moldada aos interesses dos velhos donos do poder, como visto, antes, no impeachment da presidenta eleita Dilma Housself. 

Dear white people, série da Netflix



Dear white people é uma série original da Netflix que acompanha a história de um grupo de jovens negros que estuda na faculdade de Winchester, um ambiente majoritariamente branco. O nome do seriado vem de um programa de rádio apresentado pela protagonista, que visa a enfrentar o problema,  conscientizar estudantes e denunciar casos de racismo no campus.


Fazendo burburinho na Internet, comecei a assistir com o Gabriel. É um seriado pop, dinâmico, com diálogos afiados, inteligentes. Uma doze cavalar de humor e sarcasmo dão o tom da série, que com esta estratégia, bota em pauta até as questões mais polêmicas.

O racismo é o foco, mas não deixa de esmiuçar outras reflexões, por que embora o título sugira que é um discurso que se faz de enfrentamento direcionado exclusivamente aos brancos, o que a série acaba pontuando é as muitas formas de "ser" do cidadão negro nos Estados Unidos. Com os brancos, a tensão é premente e nunca resolvida. Cada episódio é centrado em um personagem por vez, mostrando sua relação com os demais, e a partir disso, suas motivações, investigando como ele constrói sua identidade e compreende sua negritude.

As relações amorosas (matéria do que as 99% séries para jovens são feitas) estão presentes e impusionam a trama. Mas questões como sexualidade, política, violência policial, poder da imprensa, seguem par a par com alianças e traições muito humanas. O criador da série, Justin Simien, confere mais consistência ao que poderia ser só mais uma "novelinha" (como aquela que os personagens assistem dentro da própria série, cheia de clichês e esteriótipos), justamente, por ressaltar contradições nos personagens, a começar pelo fato da protagonista militante negra namorar um rapaz branco cuja preocupação principal é a produção do alimento orgânico.

A realidade vivida pelos negros estadunidenses está anos luz da vivida no Brasil. Eles pertencem a uma elite rica, intelectualmente inserida no espaço da universidade e do poder e estão em premente negociação com forças autoritárias/reacionárias brancas americanas. São conscientes de que não vivem epidermicamente o que está nas ruas, mas ainda assim questionando o discurso "pós-racial", embora uns demonstrem-se igualmente alienados, ou simplesmente ávidos pelo poder, pelo luxo, pela ostentação.

Como dito, o racismo é um ponto chave, investigado na série, mas igualmente, não é abordado de modo simplista. As relações brancos e negros são profundamente problemáticas, e delas muitas vezes, se manifesta um racismo de forma não ostensiva/direta, mas ambígua, subterrânea, ou pior: sub-reptícia.

Mas ainda que distinta do Brasil, ao assistir Dear white people, percebemos que o radicalismo n pouco/nada soluciona, colabora para guetização - tudo na série são grupos: asiáticos, orientais, latinos, glbts, nerds, etc etc - reflexos de uma sociedade fragmentada que parece nunca se reconhecer como una em sua diversidade e cuja possibilidade de diálogo parece sinônimo de confronto, já que cada qual está preso a determinadas convicções. 

A autopsia de Jane Doe, de André Øvredal

Tommy Tilden (Brian Cox) e Austin Tilden (Emile Hirsch), seu filho, são os reponsáveis por comandar o necrotério de uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos. Os trabalhos que recebem costumam ser muito tranquilos por causa da natureza pacata da cidade, mas certo dia, o xerife local (Michael McElhatton) traz um caso complicado: uma mulher desconhecida foi encontrada morta nos arredores da cidade - "Jane Doe", no jargão americano. Conforme pai e filho tentam descobrir a identidade da mulher morta, coisas estranhas e perigosas começam a ocorrer, colocando a vida dos dois em perigo.



O terror é um dos meus gêneros preferidos, pela capacidade de provocar emoções e reações físicas e imediatas no espectador. Mas prefiro o terror psicológico entremeado de suspense, nunca o físico, de serial killer perseguidores e serras elétricas. Um filme com dois atores que admiro me pareceu interessante, e é. A figura enigmática e sinistra da moça exposta na mesa e o suspense provocado pela dissecação do cadável, surgindo no corpo provas de um ritual estranho, antigo e bizarro prende atenção para além da premissa. O clima é tenso e construído com rigor e inteligência pelo diretor norueguês André Øvredal. O problema é que a trama não evolui, o desfecho é frustrante e mal solucionado, pois a "bruxa", como a garota de O chamado, é vítima e vilã e essas pontas tornam a solução impossível. Trata-se novamente de um filme de confinamento, mas traz tantas boas ideias, que compensa assistir.

Pixinguinha, Caymmi, Vinícius e Baden


Jobim, por tabela.

Que beleza de imagem.

Negócio das Arábias ou A Hologram for the King, de Tom Tykwer


Durante a recessão nos Estados Unidos, um homem de negócios falido viaja para a Arábia Saudita para vender uma ideia a um monarca que está construindo um enorme complexo no meio do deserto. A ideia é uma projeção holográfica para se fazer teleconferência, neste processo ele entra em choque cultural com a lentidão do sistema, o modo distinto de como se manifestam os afetos, e todas as contradições do rigor árabe e os excessos dos estrangeiros em festas nas embaixadas regadas a alcool e coca. O filme, contudo, nada tem de realismo. Aposta num humor leve, do choque do sujeito com a burocracia e procrastinação árabe. Este humor está calcado no seu guia (vivido por Alexander Black), um taxista mulçumano que viveu nos EUA, apaixonado por uma mulher casada, e sempre tenso achando que instalaram uma bomba no seu veículo. O executivo de Hanks é um homem em crise consigo mesmo, sem energia, saído de um divórcio e falido para custear a faculdade da filha que ama. Hanks, com a competência costumeira, dá carisma e consistência a um personagem de pouca envergadura psicológica.  Um cisto nas costas com células pré-cancerígenas o leva a conhecer uma médica árabe, pela qual constitui ao longo do filme uma relação amorosa.



Tom Tykwer é um diretor que me interessa desde Corra, Lola, corra!, mas é irregular, ainda mais com filmes que lhe são encomendas. Este de Tom Hanks é interessante e sem brilho; poesia mesmo, só nas cenas finais, graças à encantadora Sarita Choudhury. Aliás, o encontro amoroso no desfecho do filme, da troca de emails, ao taxi apanhado no hotel e o mergulho no mar são o que o filme traz de melhor.



sexta-feira, maio 12, 2017

E hoje morreu Antonio Candido




ANTONIO CANDIDO (1918-2017)

"O socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo. E não é paradoxo. O que é o socialismo? É o irmão-gêmeo do capitalismo, nasceram juntos, na revolução industrial. É indescritível o que era a indústria no começo. Os operários ingleses dormiam debaixo da máquina e eram acordados de madrugada com o chicote do contramestre. Isso era a indústria. Aí começou a aparecer o socialismo. Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele é o criador de riquezas e não pode ser explorado. Comunismo, socialismo democrático, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo… tudo isso. Esse pessoal começou a lutar, para o operário não ser mais chicoteado, depois para não trabalhar mais que doze horas, depois para não trabalhar mais que dez, oito; para a mulher grávida não ter que trabalhar, para os trabalhadores terem férias, para ter escola para as crianças. Coisas que hoje são banais. Conversando com um antigo aluno meu, que é um rapaz rico, industrial, ele disse: 'o senhor não pode negar que o capitalismo tem uma face humana'. O capitalismo não tem face humana nenhuma. O capitalismo é baseado na mais-valia e no exército de reserva, como Marx definiu. É preciso ter sempre miseráveis para tirar o excesso que o capital precisar. E a mais-valia não tem limite. Marx diz na 'Ideologia alemã': as necessidades humanas são cumulativas e irreversíveis. Quando você anda descalço, você anda descalço. Quando você descobre a sandália, não quer mais andar descalço. Quando descobre o sapato, não quer mais a sandália. Quando descobre a meia, quer sapato com meia e por aí não tem mais fim. E o capitalismo está baseado nisso. O que se pensa que é face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele com suor, lágrimas e sangue. Hoje é normal o operário trabalhar oito horas, ter férias… tudo é conquista do socialismo."

Antonio Candido, em entrevista ao jornal Brasil de Fato, 8 de agosto de 2011, "O socialismo é uma doutrina triunfante", por Joana Tavares.

terça-feira, maio 09, 2017

Constatação via celular


Entre 3 e 7 de maio estive no Rio

Fui para o PACC, levar o equipamento de filmagem. Revi amigos. Participei da reunião com debates incríveis sobre celular, sons de uma cidade, literatura gaúcha e grafismo feito em películas. Ótimos encontros, excelentes discussões. Fui e voltei de ônibus, viagem tranquila. E seguimos.

8bit Photo Lab, outro app de celular que adoro



8bit Photo Lab



FACEAPP, um aplicativo para celular




No celular, eu me divirto fieot louco, mudanço as faces com o aplicativo FaceApp.

Dois poemas de Ana Cristina César


Recuperação da adolescência 

É sempre mais difícil ancorar um navio no espaço. 






Cartilha de Cura

As mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios.

O linho e a linha

É a sua vida que eu quero bordar na minha
Como se eu fosse o pano e você fosse a linha
E a agulha do real nas mãos da fantasia
Fosse bordando ponto a ponto nosso dia-a-dia.

E fosse aparecendo aos poucos nosso amor
Os nossos sentimentos loucos, nosso amor

O zig-zag do tormento, as cores da alegria
A curva generosa da compreensão
Formando a pétala da rosa da paixão
sua vida o meu caminho, nosso amor
Você a linha e eu o linho, nosso amor.

Nossa colcha de cama,
nossa toalha de mesa
Reproduzidos no bordado
A casa, a estrada, a correnteza
O sol, a ave, a árvore, o ninho da beleza.

Gilberto Gil

[Leio, ouço - a versão de Lenine é belíssima. Não me canso. O amor me interessa, sempre, mesmo com sua difícil ausência].

Reflexão do ex aluno Gabriel Lima sobre polarização e facebook


A descontextualização é o sintoma mais marcante da imbecilidade dos radicais, é a mesma coisa dos religiosos que usam textos "sagrados" fora de contexto, só que ainda pior, neste caso, se utilizam do aparato da razão. Como diria um amigo: será que não é exagero resumir tudo a uma foto, uma curtida, ou a 140 caracteres? Essa coisa das redes, apesar de ser muito útil, criou na gente o hábito horrível de sentenciar tudo pela superfície e quase nunca enxergamos no fundo, perdeu-se literalmente a capacidade de se ponderar, de medir...é sempre oito ou oitocentos, isso ou aquilo, assim ou assado, para cada ato um julgamento, uma retaliação, um linchamento, como se a vida não fosse em contínuo e sim em atos, como na dramaturgia, neste caso, vida não imita arte e nem o contrário, a vida é, para além de qualquer peça dirigida, o inesperado, o acaso e sobretudo a mutação dinâmica e pouco previsível das coisas, qualquer forma de classificar tudo isso sem se aprofundar em questões estruturais é burra, viciada e patológica. Não me atento nem sobre as questões políticas que envolvem a foto de Carina Vitral e José Serra, que ao meu ver também não tem nada demais, uma vez que o diálogo entre diferentes é, senão a mais importante, uma das ferramentas mais valiosas da democracia, falo apenas sobre como ficamos menos inteligentes, menos criativos e com uma capacidade cada vez mais reduzida de argumentação e ponderação, tenho a impressão que simplesmente paramos de pensar.
Tenho em minha cabeça, a partir de uma tentativa de avaliação serena (não sei se sou capaz), que a comunicação é a força motriz da humanidade, ela viabiliza o trabalho, a economia, a política e etc...é o que nos diferencia de bestas e outros seres vivos do reino animal, mas parece que estamos ao pouco perdendo essa capacidade, não sei se em um processo de decadência linear, mas talvez em um processo pendular, que nesse momento guina bruscamente para a crise da linguagem, da economia, da democracia, da civilização.
Disse aqui uma vez, e ai assumo a responsabilidade do erro de não contextualizar, que um turbante talvez fosse apenas um turbante, e daí sofri a "devida" retaliação pelo equívoco de pensar diferente de algumas pessoas que estão aqui nas redes comigo, apaguei o comentário para parar de receber notificações agressivas, e o pior, em tom professoral e pedante de acadêmico que não pode ver filho de pobre que quer revelar a ele os mistérios do mundo, bom mas isso é outro assunto, mas só pra concluir, as vezes uma foto com o José Serra representa apenas uma foto com o José Serra, talvez não esteja na foto as questões estruturais da sociedade, talvez estamos dando muita importância pra uma coisa pequena demais, inútil demais perto dos problemas urgentes que precisamos solucionar.