quarta-feira, abril 12, 2017

Sobre um morador que pintou de cinza, o muro de sua cana, no Beco do Batman

O autor é Anderson França, e tirei do facebook. 

Anderson França
21 h
Aí a moçada tá chateada porque seu João pintou o muro da casa dele de cinza
no 
BECO
do
BATMAN

oceje: o mais novo lugar hype-cool dos publissa under 30 e dos esquerda Vila Madá.
Aliás, que fique nítido: 
Todo mundo tá linchando o coroa, nobody call for him and perguntou: Mano, kol foi?

Uma pessoa passou lá, viu o cara pintando, e, porra: QUE ÓTIMO MOMENTO PARA TRANSFORMAR A VIDA DO JOÃO NUM INFERNO MAIOR DO QUE O QUE ELE JÁ VIVE. VOU FILMAR E POSTAR NAS REDES:
THE MÔNIO VAI CABA CAZARTE.
"Vou ser a fodona do dia nas lutas sociais" deve ter pensado.
Seu João.
70 anos.
Setenta.

Tem uma casa ali naquele lugar. Vários grafiteiros hoje falaram em favor dele, porque ele sempre ajudou os caras, dava água, liberava a casa, o banheiro, pros cara mijar, matar a sede, cagar, descansar, maluco mó Zeca Pagodinho.
70 anos.
Aí os cara já grafita ali mais de 10 ano e diz que o coroa NUNCA embaçou. Aí vagabundo tá chamando o coroa de fascista. Aí o coroa disse que pintou mermo. Que tá vindo gente pra caralho, mó zuada, ninguém dorme. Bebe, fuma, xera, grita, dança, cipindura nas coisa, mó anarquia. 70 anos.
Vagabundo fica até virar a noite falando as merda que quer. E gargalha. E Fora Temer. E coral de Fora Temer. E fumacê. E mijo. 70 anos.
O coroa cansou. 
Quando foi morar ali, não queria ser ponto turístico. 
Não ganha nada com isso. Ajudou os cara que pinta. 70 anos. Não pediu um real. Vários dizem que seu João também é um patrimônio do Beco. O muro é. Mas seu João também.

Cansado das porra, pegou e comprou tinta fechada. Foi lá, no muro dele, xabláu. Cabo zuera na frente da minha casa. Zua no vizinho. Ali. Aqui, quero dormir. SETE. DEZENAS. DE. ANOS.
Aí veio a pessoa de luz, filma, lança premiére de esculacho, montão viraliza, Midia Ninja manda, NINGUÉM LIGA PRO CARA pra apurar, acata versão de UMA pessoa da internet, coroa, da noite pro dia,
é safado,
vagabundo,
opressor do caralho,
alá ele,
pisou nas flor.

Aí vem as pérolas do Direito Imobiliário e de Patrimônio:
"Mas o muro é público"
"Mas vamo fazer um processo pra proibir ele de pintar"
"Mas isso esfaqueia a arte"
"Mas ele deve ser avô do Anderson França"

Eu quando olho essa mocidade, fico pensando que tem tanta coisa pra se combater, como o fascismo real, o machismo real, o racismo real, a desigualdade real, as relações superficiais reais, a falta de esperança real, um governo golpista real, uma falta de unidade nacional real, um desprezo pelas vozes insurgentes real, uma criança morrendo real em cada morro de cada periferia do país real,
to vendo a hora de aparecer a mina do turbante de taubaté e dizer que vai ter grafite sim e vegano é vitimista sim, ela ca boka xei de friboi, brigadero de friboi, escorrendo pela boka,
enquanto isso um monte de muro no Jardim Ângela segue sem um grafite. Um monte de muro na Maré sem um grafite.
Pegue a visão.
Grafite é um negócio que demanda uma agulha. $$$$
Tem grafitero que consegue comprar seus material na funça, tem outros que porra, pra meter um jet leva meses, depois outro, depois a passagem de ônibus pra ir onde quer grafitar.
Os grafiteiros reconheceram a importância do seu João, como reconhecem, creio eu, a importância do grafite como criação artística do negro. O Bronx é a Nova Roma. De lá vieram as grandes culturas urbanas pro mundo nos últimos 40 anos. O negro fez o rap, o grafite, o break. As pessoas estão consumindo cultura originalmente negra há anos, e às vezes "esquecem" que foram eles que criaram.
Acho que os grafiteiros do Beco não são assim. Acho que respeitam isso. Quero crer. E acho que sabem que ficar criando caso com o seu João, 70 anos, ao invés de mandar um grafite no Pantanal, na Zona Leste, é melhor.
Sabe o que eu penso?
Não é a esquerda que tá errada não. São as pessoas. 
E geralmente, as pessoas de classe média e brancas que entraram pras lutas, pra agitar um pouco suas vidas meio paradas ouvindo Banda do Mar. Sei lá. Minha vida tá drenada de abundância. Uma porrada de privilégio branco e bandeja pra caralho de iogurte grego na gela. Vou causar. Impressionar meus pais. Sei lá. Não fui eu.

As pessoas tão linchando um morador que, no seu direito, decidiu apagar um grafite no seu muro, mesmo sabendo, como sabe, há mais de 10 anos, que perde um patrimônio imaterial inestimável, mas as pessoas, essas aí, não respeitam mais seu silêncio, sua família, sua casa, sua paz. Elas não querem ouvir barulho na frente da casa delas, e vão fazer na casa dele. E se ele reage, a gente mete uns discurso de DCE provocativo smells like a teen spirit, que tem gente que passa recibo pra isso direto.
Sejam menos desonestos.
Mesmo que ele apoiasse o regime militar, ele tem 70 anos.
Tem lei pra silêncio, tem lei pra idoso.
Ontem defendeu Sheherazade, hoje apedreja velho.

Qual é o foco?
Vamo pra perifa. Vamo pintar lá. Vamo socializar a arte.
Cês são igual o pessoal da São Salvador aqui no Rio, que se sentiu ~ferida~ depois que os moradores pediram pra festança deles ter hora pra acabar, porque nas TERÇAS FEIRAS os namastê vindo da Gávea bebia e dançava até 5 da manhã, e maluco trabalha. Ninguém é obrigado. Bora rever Marx. Bora rever que não é porque somos maneiros que podemos passar por cima dos que só querem tocar suas vida.
E mano: para. 
Hoje morreram bem uns 60 jovens negros. E vocês nem se ligaram.

Abraço aos artistas do Beco do Batman. Um beijo pro seu João. Que ele e sua família durmam bem. Eu sou da esquerda que te manda beijo e amor, João. E principalmente, de uma esquerda que tá em outras pautas. Mais urgentes. Máximo respeito pelos teus 70 anos. Máximo respeito.

Nenhum comentário: