sábado, abril 22, 2017

Sobre ser professor no Brasil ou Da minha aversão ao coitadismo



SOBRE SER PROFESSOR. 
SOBRE TER CURSADO FACULDADE DE LETRAS. 
SOBRE DEPRECIAÇÃO DA PROFISSÃO DE PROFESSOR.

Um dia pretendo reunir todos meus ex-alunos que fizeram Letras, sentar e discutir longamente sobre algo que acho péssimo nesta PROFISSÃO.

Nenhum profissional de qualquer outra área se deprecia tanto quanto professores (ainda mais de Letras). Por mais canalhas que sejam, quaisquer profissionais com ensino superior não apenas se protegem, como jamais depreciam seu ofício. Nunca dão uma de coitados.

Já muitos professores fazem discursos chorosos em sala de aula, mostram holerites aos alunos e dizem ganhar uma miséria. Por que professores fazem isso? Por que depreciam a si próprios. Querem comover seus alunos? Levá-los às lágrimas. Conseguir atenção e respeito? Não percebem que o que ocorre é o contrário? Passam a ser visto por seus alunos como fracassados e indignos de respeito e atenção? Esses professores não têm consciência da sua função social? Não se acham dignos? Duvidam do seu próprio valor?

Não deve ser pelo que recebem, pois certamente, nem peões de obra se depreciam, ainda menos nenhuma outra área do ensino superior. Nunca vi minha mãe chorar pobreza por seu salário de enfermeira. Professores não entendem que ao se depreciarem (falar que ganham salários miseráveis etc) são vistos pela sociedade como "coitados", dignos de pena, de piedade. Ao se porem nesta condição, são assim vistos e tratados por todos, até pelo poder público, ou seja, como coitados.
Quantas vezes ao dizer que sou professor, ouvi em contrapartida: "é difícil, ganha um salário de miséria e não é respeitado pelos alunos". Sempre retruquei, pois para mim é um desprestígio horrível.
Reclamar do salário em aula ou com pais de alunos irá resultar em quê?

Para piorar, muitos professores incorporam o fracasso: começam a se vestir mal, se apresentar de modo relaxado, fazem aulas gambiarras, agem sem comprometimento e profissionalismo. E essa é a imagem que muitos consolidaram na profissão: de coitados, como se quisessem atrair a piedade.
Conseguem. Mas observe: recebem uma piedade falsa, pois em greves e manifestações, pais de alunos e praticamente toda sociedade ou ignoram suas manifestações/greves (que às vezes duram meses) ou se posicionam contra os professores. A mídia hipócrita, em casos de greve, jamais entrevista/ouve professores.

Um jovem que deseja ser professor é logo desmotivado por seus pais (eu também fui, e brinco com isto quando falo com meus alunos), porque ser professor é visto, em tese, como vocação abnegada e altruísta, na prática, como fracasso financeiro.

Eu JAMAIS me deprecio. A minha profissão me permite morar onde desejo, fazer ótimas viagens, ter uma vida interessantíssima, e contato com colegas e alunos ótimos. Sei exatamente o significado do que faço, como eu fui fundamental para mudança qualitativa de muitas pessoas. Se me oferecem menos do que mereço, digo não. E procuro trabalhar em lugares onde sou valorizado.
Acho fundamental que os professores - dignos já pela profissão escolhida - parem de fazer o discurso de coitadinhos, se mostrem como detentores de um saber a ser valorizado. Isto deve começar pela sala de aula, diante dos seus alunos. Quem entra numa rede pública sabe das condições, aceitou o ônus, não caiu de paraquedas. O governantes precarizaram a profissão, qual é o caminho? Se unam e se fortaleçam como classe profissional e lutem pela valorização (não apenas salarial) de seu ofício quando necessário.

É preciso entender que PROFESSOR é uma profissão, ele não é "colaborador", um "facilitador", um "intermediário entre aluno e conteúdo". Ele é um agente formador de pessoas; seu objetivo ultrapassa o conteúdo, cabe a ele torná-las mais lúcidas, conscientes e críticas. Para isso é fundamental que ele também saiba quem é.

E coitadinho, digno de piedade, é o que de pior se pode pensar de um Professor.

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