quarta-feira, abril 12, 2017

Sobre A felicidade ou sobre A fantástica fábrica de chocolate


Prestes a fazer aniversário de quarenta e tantos, encontrei a imagem do filme A fantástica fábrica de chocolate. Ela me remete à sessão da tarde, em minha casa, com meus irmãos em Mauá/Zaira, sentados vendo este filme que amo. Eu, Sérgio, Cinha, Elaine, Péricles, Lúcio. Depois Márcio e Marcinha. Não foi um tempo bom, as carências eram enormes. A mãe mal ficava em casa; e, se o pai estivesse, tudo se tornava pior, com seus gritos, desmandos e exigências de tudo. Mas havia esses respiros, esse momento que nós, diante de um televisor precário, víamos filmes como este. 

Era da tevê que vinha nosso entretenimento mais sofisticado. Havia um rádio, uma vitrola com poucos discos que giravam sempre as mesmas canções, uma estante mirrada de livros desinteressantes às crianças, um quintal, um cão e um gato. Mas junto com isso, tantos deveres e cobranças, que estávamos sempre em suspensão, prontos para a mais agressiva palavra que viria.

Da tevê vinham os desenhos da manhã enquanto nos aprontávamos para ir à escola, o Sítio do Pica-pau Amarelo, os heróis japoneses diariamente destruindo Tókio, Os Trapalhões aos domingos (competindo com o horário da missa), as séries e os filmes. A tentação da publicidade, a catarata de produtos e seus desejos mercantis eram realidades distantes: não nos fascinava. Simbad, o marujo me parecia mais acessível, O velocino de ouro, As sete faces do doutor Lao, O pássaro azul. São os filmes mais remotos, estão em mim, a nostalgia dos bolinhos de chuva, do chá de capim santo, a pipoca que a mãe tirava de um caneco preto de frituras, o pão com manteiga da tarde, o leite de saquinho que ao ferver inevitavelmente derramava no fogão, são meu dia-a-dia real mais remoto.

A infância não é um tempo, é um lugar. Ela se mantem ali, intocável, e não se acessa mais por fatos. Fotos em monóculos são retratos de um dia de exceção - aniversários, casamentos, batizados, formaturas. A vida real não tinha registro. Não tínhamos grana para viajar, não havia shoppings, passeios restringíam-se à casa de parentes, dos avós sempre queixosos de doenças crônicas, como a solidão. Domingo com roupa reservada para igreja. A rua em frente sendo todo o universo possível. Mas a vida real, ampla, de possibilidade maiores, expandidas, vinha pela televisão. A ilha da fantasia, A mulher maravilha, O homem de um milhão de dólares, As panteras, O incrível Hulk, Chips. A infancia é em grande parte a memória dessas fantasias a que assisti. 

A memória falseia o passado, eu não tenho qualquer precisão do fato, mas tenho o sentimento de estarmos todos juntos, e nos colocarmos (sem saber que o fazíamos) no lugar deste garoto. Por um breve momento ao vê-lo triunfar com sua honestidade e bondade éramos ele. Tudo começava num lance de sorte (achar o cupom), de escolha (não vender a entrada), de decisão ética (não trair o contrato do dono da fábrica, roubando algo de lá) e fantasia (ver os maus punidos) até herdar a fábrica e levar os seus avós e mãe para prosperidade. Éramos todos magros e cabíamos, expremidos no sofá. Sobre nós, um cobertor xadrez vermelho e preto, surradíssimo, nos aquecia. O Rinte aos nossos pés, a chuva a cair lá fora e, se não houvesse trovão, nós todos assistindo à Fantástica fábrica de chocolate.

A memória da felicidade é um filme, uma sala com pintura descascando, o quadro da Monalisa na parede, o televisor com caixa de madeira (o estabilizador em cima), eu, e meus irmãos. É o passado. Era uma vez. O tempo é inexorável. E mesmo não querendo nada de volta: tudo dói. 

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