sexta-feira, abril 14, 2017

Hidden Figures ou Estrelas Além do Tempo




No auge da corrida espacial travada entre Estados Unidos e Rússia durante a Guerra Fria, uma equipe de cientistas da NASA, formada exclusivamente por mulheres afro-americanas, provou ser o elemento crucial que faltava na equação para a vitória dos Estados Unidos, liderando uma das maiores operações tecnológicas registradas na história americana e se tornando verdadeiras heroínas da nação.

Estes dramas fundamentados em fatos reais funcionam como reparação. Hidden figures é daqueles filmes que não apenas botam o racismo no seu devido lugar: a lata de lixo da História, mas dissecam as pequenas perversidades, as estratégias indisfarsáveis, meandros do repúdio, tudo aquilo que é feio, sujo e oculta a face grotesca que é de todo preconceito, mas em particular, do ódio racial. 

Interessante pensar, e isto me veio após assistir ao filme, o fato do racismo não se circunscrever no corpo a corpo diário do assédio e da ameaça, ele se empenha na desvalorização a cada gesto do outro, a presença em si parece ser uma afronta. Mais feroz, ele busca o apagamento do outro, por isso o desejo de silenciar e ocultar o divergente/diferente, meter no gueto as minorias, segregar em periferias, ocultar no armário ou nas quatro paredes da moral, aprisionando o proprio desejo do outro, seus afetos. Ainda hoje, sua principal estratégia segue sendo a de condenar ao esquecimento atores fundamentais da luta pela igualdade, seres que integram a História, e mais que isto, a fazem/fizeram avançar. 

É impossível não se indignar com o tratamento dado aos cidadãos negros e, ainda pior, dado às mulheres negras num espaço que deveria ser de "ciência" (penso na etimologia do termo: saber/conhecimento), como era a NASA. A elas, embora exímias matemáticas, se impunha barreiras de crescimento profissional, num desistímulo e descrédito constantes, formas perversas de mantê-las numa posição de subalternidade, portanto, de submissão. Embora haja "explosões emocionais indignadas", as três mulheres optam pelo não enfrentamento, preferem encontrar brechas no sistema, compreender "o jogo", com sagacidade e persistência somadas ao talento extraordinário que possuem, com bravura e coragem chegam a vitória. Nisto o filme me atinge, pois me sinto aquém das lutas que deveria empreender para tornar o mundo, pelo menos esse microcosmo particular que chamamos nossa vida, algo melhor. 

Não há dúvida que Hidden Figures, assim como o livro no qual se baseou, se converte num filme-missão: mostrar ao século 21, que essas três mulheres existiram. Sendo um filme com um propósito preciso, - o de resgatar do limbo tais figuras, - busca transmitir seu enredo com a maior "clareza" possível. Por isso, o filme não tem, do ponto de vista estético, nada de inovador: ainda que aborde os anos 60, o ritmo é dinâmico, nada parecido com o ritmo dos filmes da época. A fotografia vibrante , dos anos dourados da era Kennedy, eterna nostalgia dos americanos wasps, tudo faz atraente e auxilia na fruição da narrativa. Se nada da arquitetura do filme sugere qualquer transgressão, não deixa de ser interessante o contraponto entre este cenário de sonhos, a ameaça paranóica da Guerra Fria, a crescente tensão dos brancos com esta "gente de cor" que começa a se apropriar de espaços, antes totalmente, a elas, afetados. 

Assim, o tratamento fílmico convencional faz Hidden Figures fluir azeitado e macio sem nunca descarrilar de sua marcha temporal linear, aquele primor de ocultação da carpintaria do filme, do qual os americanos são mestres absolutos. Nós espectadores esquecemos que há uma câmera, uma condução e um discurso a ser defendido quase como parábola. Nós nos entregamos à narrativa, a nos permitimos a empatia com essas mulheres, compreendemos o contexto do mundo onde transitaram, e a partir disso aderimos à sua causa. 

Envolvimento, é este o elemento chave do melodrama, e isto se concretiza quando o espectador se põe no lugar do outro. É desta quebra momentânea da distância eu-outro, a empatia, de onde o gênero extrai sua potência, fator que o fez triunfar - por incrível que possa parecer - como gênero da contemporaneidade. Ele não está alinhado aos grandes mitos e expressa o pensamento de uma coletividade (como a tragédia), nem se pretende uma alegoria que cifra em categorias tipos/arquétipos. O melodrama particulariza o indivíduo, egocentrado. Não encerra, em si, uma verdade universal. Por isso, é sempre um conflito eu vs. outro/mundo, onde polos opostos são bastante nítidos a plateia, mas devem ser sentido, e não raciocinado. Melodrama lida com as paixões e os sentimentos. É um gênero moral, por natureza.

A base moral, e não falo de razão ou ética ou de lei, a moral casada a um senso de justiça e respeito, que ainda em tempos espinhosos, todos nós privilegiamos (ainda mais se estiver casada aos afetos), é que leva o espectador pela emoção, viver a indignação ante o tratamento desigual dado a elas. Sentir-se na pele delas. E no seu empenho e resistência, elas alcançam o grau de heroinas, e mais que respeito, temos por elas admiração.

A dignidade torna-se força, a envergadura moral, a resistência brutal exige que o desfecho do filme seja a vitória, a gratificação do empenho. No caso, mais que as vidas que seguiram bem sucedidas narradas naqueles offs seguidos de frases que resumem o destino das três mulheres, a vitória está no resgate da história dessas figuras, e o reconhecimento, ainda que póstumo, das novas gerações, de seu valor.

A História, maiúscula, ainda mais em tempos de degradação moral e ascensão das velhas posturas reacionárias, conservadoras, preconceituosas e fascistas, é uma salutar fonte de conhecimento. Seu conhecimento desarma o processo de repetição, afasta-nos dos retrocessos que levam, inevitavelmente à barbárie.



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