sábado, abril 29, 2017

De repente, saio para dançar no Pilantragi






Serenata, poema de Adélia Prado

A SERENATA
 
Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mãos incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobro
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
— só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?        
                                                                           
Adélia Prado

terça-feira, abril 25, 2017

Personal Shopper, de Olivier Assayas


Um filme elegante, frio, distante, instigante, inteligente mas vazio. A questão sobrenatural tem pouca relevância, mas as peripécias da protagonista em busca de roupas são estéreis de significação. Não fica bem claro a exata relação que tinha com o irmão. Mesmo a aversão em relação à super modelo para que trabalha não tem consistência. O que sente pelo namorado em outro país, o porquê de embarcar numa troca de mensagens com um desconhecido. Nada parece muito convincente. O tédio e a apatia de Maureen que vive a vida como que burocraticamente, necessitando encontrar algum sentido na espera de que o irmão morto se comunique me parece um drama existencial restrito demais para uma signicação maior do que o particularismo. Assistimos toda uma peripécia de Maureen pela cidade, a pé e de moto, entrando e saindo de lojas, sempre sem tesão, sem desejar as roupas e joias que apanha para outra. O final toma um rumo estranho e interessante, a cena do copo que cai, e a resposta na batida na parede a revelar todo tempo, que o fantasma que a perseguia, era ela própria. Uma única cena para valer o filme. 




Kristen Stewart interpreta Maureen, uma jovem norte-americana morando em Paris pouco depois da morte de seu irmão gêmeo, decorrente de um problema cardíaco. Ela também é portadora dessa mesma condição, e poderá morrer de forma inesperada em breve, ou viver até chegar à velhice.
É um mistério, assim como a capacidade mediúnica da personagem. Ela e seu irmão, Lewis, fizeram um pacto no qual quem morresse primeiro faria um contato com o outro. Então, ela o aguarda.

Enquanto isso, Maureen trabalha para uma supermodelo, Kyra (Nora von Waldstätten), para quem vai buscar roupas, acessórios e joias caras. Quando o apartamento da chefe está vazio --o que acontece muito, já que a mulher vive num tour constante pelo circuito da moda europeia--, a protagonista aproveita para assaltar a geladeira e experimentar as peças que não está autorizada a usar.

Um dia, no entanto, encontra Ingo (Lars Eidinger), o namorado de Kyra, que revela ter sido dispensado, e acaba travando com ele um diálogo significativo.

Assayas começa seu filme como uma crônica do mundo contemporâneo dividido entre aparência e essência. Maureen compra, mas não é para ela. Maureen se comunica, mas raramente com alguém que está à sua frente. Quase nunca vê Kyra, e conversa por skype com um amigo que está no Oriente Médio. Seu único laço de amizade mais forte e sincero é com a namorada do irmão (Sigrid Bouaziz). Fantasmas e mais fantasmas a cercam.


Alysson Oliveira,


segunda-feira, abril 24, 2017

Ma ma, de Julio Medem


Após ser diagnosticada com câncer de mama, Magda tem que saber lidar com o casamento fracassado e com um filho obcecado por futebol. A partir de um acidente, conhece um olheiro de futebol com quem se apaixona após uma tragédia. Seu câncer torna a se manifestar e ela descobre-se grávida, tem que contar com o apoio de seu novo companheiro e do filho, ela acredita no poder de cura da menina que espera.


Muitas viradas, homens arrependidos e lágrimas incessantes. Um melodrama carregado e levado ao brega com intensão de comever, pensemos na cena do uncologista cantando no karaoke, e na cena final em que parecer formar um casal "gay" em torno da bebê. 

Chocolat, de Roschdy Zem


Rafael Padilha nasceu em Cuba em 1868 e foi vendido quando ainda era criança. Anos depois ele consegue fugir e é encontrado nas docas por um palhaço que o coloca nas suas apresentações. Em seguida, Padilha passa a ser conhecido como Chocolate, tornando-se o primeiro artista circense negro na França, um grande sucesso no final do século XIX.


Visualmente belo e grandioso, mas Chocolat é um personagem absolutamente insuportável, irresponsável, temperamental, viciado no jogo e alcóolatra. Difícil aderir empaticamente a ele. Então, para mim, apesar de reconstituir a vida do artista de circo, mambembe e a relação tensa com a sociedade branca, o filme não me satisfez nem do nível intelectual o emocional. 

domingo, abril 23, 2017

GUILLERMO ARRIAGA




Guillermo Arriaga, o escritor mexicano que busca na questão da morte elementos para compreensão da vida. Ele veio lançar seu ultimo livro no Brasil e participar dos debates da Festa Literária Internacional de Parati (FLIP). A tragetória do romancista Guillerme Arriaga vai da literatura ao cinema. Ele é autor de roteiros de repercussão internacional, tem uma coletênea de contos e três romances, do qual só publicou dois. O último, lançado no Brasil, aqui na FLIP, Um doce aroma da morte, já traz na capa o tema preferido peloo autor, o título estampa a curiosidade e o vínculo que o autor tem com a morte desde criança. Ele avisa que não se trata de morbidez, mas a percepção de que a vida exige a experiência da finitude, de que é preciso entender a morte para compreender e respeitar a vida. Assim como no romance O búfalo da noite, traduzido no Brasil, em 2002. Guillermo Arriga permeia a sua obra falando da morte para chamar a atenção para vida e para formas de amor, incluindo aquela que nasce da perda. Guillermo Arriaga cresceu num bairro pobre e violento da cidade do México e fraturou o nariz nove vezes em brigas de rua a ponto de perder o olfato. Formou-se em Comunicação e História depois de tentar a carreira de pugilista e de jogador de futebol. Aos 49 anos é tido como nome obrigatório da nova literatura mexicana. Faz parte de uma geração escritores latino-americanos que buscam na vida turbulenta das metrópoles personagens e conflitos que a mistura de culturas e as contradições sociais criam banalizando a violência e a morte.

Oral, poema de Paulo Soares


ORAL

Antes
Do coito,
Do gozo
Da consoante com a vogal.

Verdade seja dita!

O prazer da transa escrita
Passa primeiro pela linguagem oral.

Paulo Soares

O chamado 3



Adoro o primeiro, mal me lembro do segundo e este terceiro quero esquecer. Tão ruim que dá vergonha de ter assistido. 


The daughter, de Simon Stone (a partir de uma peça de Ibsen)



Longe de casa há mais de dez anos, Christian (Paul Schneider) retorna à cidade em que cresceu para o casamento do pai (Geoffrey Rush), com quem tem uma relação complicada, desde que sua mãe se suicidou. Ele aguarda a chegada de sua esposa, que abandonou a casa enquanto ele tentava se livrar do alcoolismo. Neste retorno, encontra decadente a cidade de deixou, já que a madereira do pai faliu, obrigando seus funcionários a partirem em busca de oportunidades em outras cidades e estados. Enquanto luta contra a tentação do vício,  ele se reconecta com o amigo de infância Oliver (Ewen Leslie), ex-funcionário da madereiro, agora casado com a antiga governanta do pai, a família composta por uma filha adolescente que ele idolatra, e o velho pai, ex-presidiário, um homem sábio mas com princípio de alzheimer. Christian descobre por acaso um segredo de família há muito tempo enterrado, obsecado por restituir a verdade (por frustração e/ou vingança), trará dor e desgraça a todos a sua volta. 

The dauthter é uma livre adaptação da peça de 1884 - The wild duck de Ibsen, de Henrik Ibsen. É um drama enxuto duríssimo, quase uma tragédia. A questão da verdade, das relações familiares e do desejo permanecem os temas centrais nesta adaptação para terras australianas. Lindamente filmado, com grande precisão, uso inteligente da standycam e do som. Um grande filme.   Austrália, 2015, Cores, 96 min.


sábado, abril 22, 2017

Sobre ser professor no Brasil ou Da minha aversão ao coitadismo



SOBRE SER PROFESSOR. 
SOBRE TER CURSADO FACULDADE DE LETRAS. 
SOBRE DEPRECIAÇÃO DA PROFISSÃO DE PROFESSOR.

Um dia pretendo reunir todos meus ex-alunos que fizeram Letras, sentar e discutir longamente sobre algo que acho péssimo nesta PROFISSÃO.

Nenhum profissional de qualquer outra área se deprecia tanto quanto professores (ainda mais de Letras). Por mais canalhas que sejam, quaisquer profissionais com ensino superior não apenas se protegem, como jamais depreciam seu ofício. Nunca dão uma de coitados.

Já muitos professores fazem discursos chorosos em sala de aula, mostram holerites aos alunos e dizem ganhar uma miséria. Por que professores fazem isso? Por que depreciam a si próprios. Querem comover seus alunos? Levá-los às lágrimas. Conseguir atenção e respeito? Não percebem que o que ocorre é o contrário? Passam a ser visto por seus alunos como fracassados e indignos de respeito e atenção? Esses professores não têm consciência da sua função social? Não se acham dignos? Duvidam do seu próprio valor?

Não deve ser pelo que recebem, pois certamente, nem peões de obra se depreciam, ainda menos nenhuma outra área do ensino superior. Nunca vi minha mãe chorar pobreza por seu salário de enfermeira. Professores não entendem que ao se depreciarem (falar que ganham salários miseráveis etc) são vistos pela sociedade como "coitados", dignos de pena, de piedade. Ao se porem nesta condição, são assim vistos e tratados por todos, até pelo poder público, ou seja, como coitados.
Quantas vezes ao dizer que sou professor, ouvi em contrapartida: "é difícil, ganha um salário de miséria e não é respeitado pelos alunos". Sempre retruquei, pois para mim é um desprestígio horrível.
Reclamar do salário em aula ou com pais de alunos irá resultar em quê?

Para piorar, muitos professores incorporam o fracasso: começam a se vestir mal, se apresentar de modo relaxado, fazem aulas gambiarras, agem sem comprometimento e profissionalismo. E essa é a imagem que muitos consolidaram na profissão: de coitados, como se quisessem atrair a piedade.
Conseguem. Mas observe: recebem uma piedade falsa, pois em greves e manifestações, pais de alunos e praticamente toda sociedade ou ignoram suas manifestações/greves (que às vezes duram meses) ou se posicionam contra os professores. A mídia hipócrita, em casos de greve, jamais entrevista/ouve professores.

Um jovem que deseja ser professor é logo desmotivado por seus pais (eu também fui, e brinco com isto quando falo com meus alunos), porque ser professor é visto, em tese, como vocação abnegada e altruísta, na prática, como fracasso financeiro.

Eu JAMAIS me deprecio. A minha profissão me permite morar onde desejo, fazer ótimas viagens, ter uma vida interessantíssima, e contato com colegas e alunos ótimos. Sei exatamente o significado do que faço, como eu fui fundamental para mudança qualitativa de muitas pessoas. Se me oferecem menos do que mereço, digo não. E procuro trabalhar em lugares onde sou valorizado.
Acho fundamental que os professores - dignos já pela profissão escolhida - parem de fazer o discurso de coitadinhos, se mostrem como detentores de um saber a ser valorizado. Isto deve começar pela sala de aula, diante dos seus alunos. Quem entra numa rede pública sabe das condições, aceitou o ônus, não caiu de paraquedas. O governantes precarizaram a profissão, qual é o caminho? Se unam e se fortaleçam como classe profissional e lutem pela valorização (não apenas salarial) de seu ofício quando necessário.

É preciso entender que PROFESSOR é uma profissão, ele não é "colaborador", um "facilitador", um "intermediário entre aluno e conteúdo". Ele é um agente formador de pessoas; seu objetivo ultrapassa o conteúdo, cabe a ele torná-las mais lúcidas, conscientes e críticas. Para isso é fundamental que ele também saiba quem é.

E coitadinho, digno de piedade, é o que de pior se pode pensar de um Professor.

O melodrama em Nelson Rodrigues

No melodrama mais tradicional, valia a ação de vilões externos ao espaço doméstico, sedutores a assediar figuras da inocência desprotegida que encontravam sua salvação na figura do herói virtuoso. Não é o que acontece na dramaturgia de Nelson Rodrigues, em que a corrosão dos valores é um problema interno ao espaço doméstico e tem como centro a figura que deveria protegê-lo: o marido, o pai de família. O reconhecimento da corrosão interna do espaço da casa não elimina da dramaturgia a mesma demanda de pureza, mas essa tem de ser feita a partir de uma suspeita sistemática dirigida aos "motivos nobres". Resulta um teatro que não nos ilude com cenários de redenção. Em seu terreno minado por egoísmos delirantes predominam os disparates, as contradições e as vocações para o desastre, matéria que convida a uma leitura apoiada na psicanálise, embora a relação com ela se dê como que a contrapelo. 

p. 210

O olhar e a cena, de Ismail Xavier. 

quarta-feira, abril 19, 2017

Eu não sou um serial killer


John Cleaver (Max Records) é um jovem de 16 anos com impulsos psicopatas. Ele trabalha embalsamando corpos com a mãe e a tia, é obcecado por assassinos em série, mas não deseja se tornar um. Ele faz terapia e procura controlar seus impulsos, por isso, criou regas rígidas para o seu próprio bem e a segurança das pessoas ao redor. Quando um serial killer aparece na sua cidade, ele logo o descobre, mas fica seduzido pelas práticas do sujeito. Ele começa a liberar seus impulsos e começa a agir de modo tão perigoso quanto o mosntro que está tentando matar.



A relação familiar disfuncional, confusa e até inverossímil. Muitas coincidências e furos do roteiro compromentem ainda mais a trama, e o desfecho insólito/surrealista torna o filme ainda mais perdido. Achei chato. 

Clarlie e a fábrica de chocolate, de Roald Dahl



Então no dia do meu aniversário, recebi uma ligação do Mauro (que eu não via há meses) e na saída do trabalho, lá na Padaria Bela Paulista recebi este livro de presente, uma barra de chocolate e uma dedicatória linda. Foi inesperado e fiquei realmente comovido, pois na prática, foi o único presente que recebi neste meu aniversário, e foi muito significativo depois do texto que tinha escrito sobre o livro. 

terça-feira, abril 18, 2017

Ruby Sparks: A Namorada Perfeita




Calvin é um jovem escritor que está com bloqueio de criação. Depois de muito esforço, ele escreve sobre a garota de seus sonhos, Ruby Sparks. Para a surpresa dele, Ruby aparece magicamente em sua casa, e os dois iniciam um relacionamento.



Um filme absolutamente delicioso. 



domingo, abril 16, 2017

Páscoa e comemoração ao meu aniversário



No Zaira, Mauá. Eterna casa. Com mãe, Valdeci, irmã, irmão, cunhada, Gabriel, Pedrão e Vittorino. Uma Páscoa e um aniversário bem familiar. 



sábado, abril 15, 2017

Cabaret, Bob Fosse

Quando o Gabriel vem aqui para casa, normalmente aos fins de semana, a gente bate papo demoradamente e senta para ver filmes clássicos. Desta vez, do nada, vimos Cabaret, de Bob Fosse, um filme de 1972.  Assisti no período cursava a Escola Livre de Cinema, mas só agora a atenção redobrada, ainda assim, sempre foi meu musical preferido. 



Na Berlim de 1933, uma cantora americana se transforma em atração no Kit Kat Club. Sua vida, carreira e amores se desenvolvem paralelamente à ascensão do nazismo, enquanto ela se envolve ao mesmo tempo com um professor de inglês e um nobre alemão



Há tantas coisas incríveis no filme. Os números musicais são surpreendentes, jocosos, irônicos, profundamente sexuais. Joel Grey faz um mestre de cerimônias que é praticamente um sátiro clássico com tudo aquilo que um sátiro tem de sexual, grotesco, sarcástico, safo. Liza Minnelli é um espetáculo à parte. Sua voz estava perfeita, cança como ninguém, e concedeu à ambiciosa Sally Bowles, cantora e atriz performática do Kit Kat Club, malícia e delicada vulnerabilidade. Sempre preterida pelo pai, ela desfila numa Berlim ainda gloriosa mas em plena ascensão do nazismo. Sonha em ser uma grande atriz de cinema, e embora se mostre extensivamente vulgar, arregimentando amantes de ocasião para tentar se promover, não passa de uma garota deslumbrada com as possibilidade do alcool e do sexo. Sally Bowles, mulher-menina volúvel e trágica, vive num mundo de fantasia e está condenada a um fim trágico, que o desfecho do filme escamoteia. Michael York é uma escada moral, sujeito tímido, gay recalcitante que por fim se entrega ao sedutor Helmut Grem, num treesome improvável.  O filme de 1972 bota no chinelo em ousadia aos filmes atuais, com seus travestis, gays, lésbicas, liberalidade sexual e do pensamento. Não bastassem os deliciosos números musicas e as canções, ele tratará da ascensão do Nazismo na Alemanha, a crescente perseguição aos judeus e aos artistas. 



A direção de Bob Fosse é outro show. A câmera dança em travellins com os atores, os inserts e ações paralelas complementam a trama. Um filme que parece não ter envelhecido um só dia. 


Almoço baiano na Sexta-feira Santa

Então minha amiga Solange me convidou para um almoço baiano na casa de amigos fantásticos, Caruru, Vatapá, Moqueca de Peixe, Mousse de maracujá e bolo de chocolate. Minha Gratidão para Felipe Leal, Ram Vani, Solange, Wendel e Fábio Freire. 



Almoço luxuoso na Vila Madalena com pessoas especiais. 

sexta-feira, abril 14, 2017

Hidden Figures ou Estrelas Além do Tempo




No auge da corrida espacial travada entre Estados Unidos e Rússia durante a Guerra Fria, uma equipe de cientistas da NASA, formada exclusivamente por mulheres afro-americanas, provou ser o elemento crucial que faltava na equação para a vitória dos Estados Unidos, liderando uma das maiores operações tecnológicas registradas na história americana e se tornando verdadeiras heroínas da nação.

Estes dramas fundamentados em fatos reais funcionam como reparação. Hidden figures é daqueles filmes que não apenas botam o racismo no seu devido lugar: a lata de lixo da História, mas dissecam as pequenas perversidades, as estratégias indisfarsáveis, meandros do repúdio, tudo aquilo que é feio, sujo e oculta a face grotesca que é de todo preconceito, mas em particular, do ódio racial. 

Interessante pensar, e isto me veio após assistir ao filme, o fato do racismo não se circunscrever no corpo a corpo diário do assédio e da ameaça, ele se empenha na desvalorização a cada gesto do outro, a presença em si parece ser uma afronta. Mais feroz, ele busca o apagamento do outro, por isso o desejo de silenciar e ocultar o divergente/diferente, meter no gueto as minorias, segregar em periferias, ocultar no armário ou nas quatro paredes da moral, aprisionando o proprio desejo do outro, seus afetos. Ainda hoje, sua principal estratégia segue sendo a de condenar ao esquecimento atores fundamentais da luta pela igualdade, seres que integram a História, e mais que isto, a fazem/fizeram avançar. 

É impossível não se indignar com o tratamento dado aos cidadãos negros e, ainda pior, dado às mulheres negras num espaço que deveria ser de "ciência" (penso na etimologia do termo: saber/conhecimento), como era a NASA. A elas, embora exímias matemáticas, se impunha barreiras de crescimento profissional, num desistímulo e descrédito constantes, formas perversas de mantê-las numa posição de subalternidade, portanto, de submissão. Embora haja "explosões emocionais indignadas", as três mulheres optam pelo não enfrentamento, preferem encontrar brechas no sistema, compreender "o jogo", com sagacidade e persistência somadas ao talento extraordinário que possuem, com bravura e coragem chegam a vitória. Nisto o filme me atinge, pois me sinto aquém das lutas que deveria empreender para tornar o mundo, pelo menos esse microcosmo particular que chamamos nossa vida, algo melhor. 

Não há dúvida que Hidden Figures, assim como o livro no qual se baseou, se converte num filme-missão: mostrar ao século 21, que essas três mulheres existiram. Sendo um filme com um propósito preciso, - o de resgatar do limbo tais figuras, - busca transmitir seu enredo com a maior "clareza" possível. Por isso, o filme não tem, do ponto de vista estético, nada de inovador: ainda que aborde os anos 60, o ritmo é dinâmico, nada parecido com o ritmo dos filmes da época. A fotografia vibrante , dos anos dourados da era Kennedy, eterna nostalgia dos americanos wasps, tudo faz atraente e auxilia na fruição da narrativa. Se nada da arquitetura do filme sugere qualquer transgressão, não deixa de ser interessante o contraponto entre este cenário de sonhos, a ameaça paranóica da Guerra Fria, a crescente tensão dos brancos com esta "gente de cor" que começa a se apropriar de espaços, antes totalmente, a elas, afetados. 

Assim, o tratamento fílmico convencional faz Hidden Figures fluir azeitado e macio sem nunca descarrilar de sua marcha temporal linear, aquele primor de ocultação da carpintaria do filme, do qual os americanos são mestres absolutos. Nós espectadores esquecemos que há uma câmera, uma condução e um discurso a ser defendido quase como parábola. Nós nos entregamos à narrativa, a nos permitimos a empatia com essas mulheres, compreendemos o contexto do mundo onde transitaram, e a partir disso aderimos à sua causa. 

Envolvimento, é este o elemento chave do melodrama, e isto se concretiza quando o espectador se põe no lugar do outro. É desta quebra momentânea da distância eu-outro, a empatia, de onde o gênero extrai sua potência, fator que o fez triunfar - por incrível que possa parecer - como gênero da contemporaneidade. Ele não está alinhado aos grandes mitos e expressa o pensamento de uma coletividade (como a tragédia), nem se pretende uma alegoria que cifra em categorias tipos/arquétipos. O melodrama particulariza o indivíduo, egocentrado. Não encerra, em si, uma verdade universal. Por isso, é sempre um conflito eu vs. outro/mundo, onde polos opostos são bastante nítidos a plateia, mas devem ser sentido, e não raciocinado. Melodrama lida com as paixões e os sentimentos. É um gênero moral, por natureza.

A base moral, e não falo de razão ou ética ou de lei, a moral casada a um senso de justiça e respeito, que ainda em tempos espinhosos, todos nós privilegiamos (ainda mais se estiver casada aos afetos), é que leva o espectador pela emoção, viver a indignação ante o tratamento desigual dado a elas. Sentir-se na pele delas. E no seu empenho e resistência, elas alcançam o grau de heroinas, e mais que respeito, temos por elas admiração.

A dignidade torna-se força, a envergadura moral, a resistência brutal exige que o desfecho do filme seja a vitória, a gratificação do empenho. No caso, mais que as vidas que seguiram bem sucedidas narradas naqueles offs seguidos de frases que resumem o destino das três mulheres, a vitória está no resgate da história dessas figuras, e o reconhecimento, ainda que póstumo, das novas gerações, de seu valor.

A História, maiúscula, ainda mais em tempos de degradação moral e ascensão das velhas posturas reacionárias, conservadoras, preconceituosas e fascistas, é uma salutar fonte de conhecimento. Seu conhecimento desarma o processo de repetição, afasta-nos dos retrocessos que levam, inevitavelmente à barbárie.



quarta-feira, abril 12, 2017

Arthur Nogueira, Presente (Antonio Cicero 70) / 2016



Ouço compulsivamente.

Mulholland Drive, David Lynch



Uma jovem atriz viaja para Hollywood e se vê emaranhada numa intriga secreta com uma mulher que escapou por pouco de ser assassinada, e que agora se encontra com amnésia devido a um acidente de carro. Seu mundo se torna um pesadelo e surreal.




Reassisti ao lado do Gabriel. Rever uma obra-prima é renovar a leitura. A cena do teste para o filme segue ontológica. As obsessões de Lynch seguem as mesmas, todo o universo noir dos filmes dos anos 50, todo o repertório musical dos anos 60 e o estilo, as figuras bizarras, grotescas. A hipérbole na expressão dos sentimentos, a passionalidade, a proliferação de fusões que sintetizam a projeção do real com o imaginado. O clima oníricos (ou de pesadelo) que prepondera. O humor estranho, um humor negro. A câmera flutuando em travellings pelos espaços. O cinema focando o próprio cinema. A exposição de um filme inicial (criado no imaginário da protagonista) como se este fosse a realidade, e a reversão, no meio do filme, para trama real. Muitos personagens entrando, muito mais para dispersar do tema fulcral: a história de amor degradada das duas mulheres. A presença de figuras fantasmagóricas, os sonhos premonitórios, as crises histéricas, o mistério, o salão, o palco circense/ou de cabaré, o anão; os números musicais. A trama policial com seus investigadores autistas, limítrofes, a presença de gangsters perversos, mórbidos, sádicos e truculentos. 

Em Mulholland Drive a verossimilhança é testada até o limite, já que ninguem age na previsibilidade psicológica. Rita/Camilla ao perder a memória se esconde na casa da desconhecida Betty/Diane que a recolhe em vez de expulsá-la, não procuram a polícia, fogem dela. São atraídas pelo perigo. O diretor de cinema quanto mais acuado, mais enfrenta os inimigos. Ao encontrar a esposa na cama com outro homem, é ela que o desafia e escorraça, para depois enfrentar capangas ferozes que invadem sua casa. 

Estranho. Um autor dos tempos atuais, quanto a religião virou mistificação e todas as coordenadas de verdade e certezas se esfacelaram. 

Alguns filmes vistos, dos quais não tive tempo (ou vontade) para comentar


Uma consultora corporativa de gestão de risco precisa investigar um acidente em uma instalação remota. Ela se questiona ao ter que decidir se um ser artificial vivo deve ou não ser sacrificado.

Ficção científica com confinamento, na mesma linha do Ex Machina, ideia roubada de Isaac Asimov de Eu, robo. Ou seja, um ser artificial que toma consciência de si. A maravilha de ver de novo a protagonista de A bruxa. Aqui ela é um ser construído geneticamente para ser uma máquina assassina. O problema é que não excluíram a capacidade de ser passional. Assim, num surto, ela é capaz de agir da forma mais violenta, cruel e desumana, assim como qualquer ser humano. Vale. 



Após uma viagem de férias para o Grand Canyon eventos estranhos começam a acontecer em uma família, como a mudança de comportamento de um dos filhos. Eles descobrem que algumas rochas levadas pelo filho são a causa. Aquelas bobagens que andam chamando de filme de terror, mas que sobrepõe cliches, e este é ainda pior, por que é tosco es todos os níveis. Dá aquela preguiça de resenhar. Fuja. 


ARQ, achei que era uma série e então descobri que é um filme. Uma espécie de O feitiço do tempo. Sujeito morre e acorda no mesmo ponto. Como num jogo de videogame, ele, protagonista, tem memória do vivido, e cada vez que desperta faz modificações. O mundo pós apocalipse comandado por ets/robos, sei lá. O fato é que ele roubou uma máquina do tempo que rebuta a cada dez minutos aproximadamente. Ele tem que impedir que assassinos invasores da sua casa roube seu dinheiro e se apoderem da máquina. As variações são excelentes, sem que o filme fique enfadonho. De repente, os que morreram também começam a se lembrar da vida pregressa, o que torna o xadrez mais complexo. O filme é curto, intermitente, um só cenário praticamente, o roteiro é muito bom, assim como as atuações. Para quem gosta de ficção inteligente. 

Ainda que baseada em fatos reais,  a trama é tola, inverossímil, sentimentalóide e irritante. Mocinha entra numa espécie de campo de concentração comandado por um lider religioso pedófilo e sádico. É um alemão mancomunado com um ditador e que submete presos políticos a sessões de tortura aos estilo de tratamento psiquiátrico. Choques elétricos, de insulina e afins. A mocinha tola, se infiltra, engambela todo mundo, arranja uns aliados e consegue tirar o mocinho, embarcar num avião, se libertar e denunciar o alemão. Aliás, nunca perde-se a aura de estar fazendo tudo em nome do amor. Uma morte terrível. 



Um Homem Chamado Ove. Um velho aposentado, viúvo e mal-humorado leva uma vida amargurada. Mas justo quando ele desiste de viver, novos vizinhos mudam para a casa da frente e surge uma amizade inesperada. É previsível e encantador. os vizinhos são estrangeiros, de uma cultura absolutamente distinta do compulsivo por organização Ove. O filme se narra em flashbacks de um Ove feliz com a terna esposa e um acidente horrível que a fez perder o filho e se tornou paraplégica. Oposta a Ove, a esposa era um ser solar e amada pelos alunos (era professora), no desfecho o nascimento de um bebê e o afeto a que Ove vai sendo exposto o livra do trauma. 


Hip-hop Evolution é um documentário da NetFlix sobre o surgimento do hip-hop nos EUA, até se converter em fenômeno e sucesso comercial (americanos focam sempre isso). São três episódios até então, e parece bastante complementar a The Get Down. Aliás, há muitas semelhanças do material de arquivo e até da edição que se assiste na série. Todo baseado em entrevistas aos precursores - vivos - do rap, com imagens de arquivos e detalhamento histórico. 


Amo filmes de época, Carey Mulligan é a rainha deles. Bathsheba Everdene é uma jovem em dificuldades financeiras que não deseja se casar, mesmo que seja para garantir seu sustento. Ela herda uma fazenda do tio e decide coordenar a fazenda, algo impensado para uma mulher na época. Logo, ela contrata Gabriel como seu capataz e passa a ser assediada por William Boldwood, um rico fazendeiro. Entretanto, quem a conquista de fato é o sargento Troy, um militar que carrega consigo um trauma amoroso do passado. 

Achei interessante a protagonista movida pelo desejo sexual a ponto de ceder a um canalha (Troy), e ser totamente dominada por ele. É um filme de paixões, de pequenas tragédias que modificam (para pior) a vida de todos personagens, indlusive do capataz bacana. No filme, não se verá a tal mulher emancipada e sim uma tolinha que teve que levar muita rasteira.






Aos 11 anos, Li Cunxin saiu de uma pobre aldeia chinesa para estudar balé em Pequim e, por meio de um intercâmbio cultural, ingressou numa companhia de balé americana. Em busca de liberdade e uma vida nova, ele luta para ficar nos Estados Unidos.

Filme pendente há anos. Liguei a televisão e estava passando na Globo (!!!!), comecei e fui até o fim, pois pobreza, balé, choque cultural e emancipação pelo talento são assuntos que sempre me interessam. Trata-se de uma cinebiografia, o que tem tudo para ser um fiasco, mas o filme é bonito, tem conteúdo e enternece. 


Christopher McCandless, filho de pais ricos, se forma na universidade de Emory como um dos melhores estudantes e atletas. Porém, em vez de em embarcar em uma carreira prestigiosa e lucrativa, ele escolhe doar suas economias para caridade, livrar-se de seus pertences e viajar pelo Alasca.

Visto há muitos anos, sentei e assisti ao final junto com Gabriel. Não é um roadmovie, é um filme mochilão, com um protagonista lindo, carismático, corajoso e hippão que sai pelo mundo para ter experiência não banais, ou seja: físicas (contato com a natureza), sexuais, transcendentes e filosóficas. Faz um diário e bota todas essas impressões sobre o que vive, sobre tais experiências na viagem. No caminho encontra violência, truculencia, mas também grandes afetos, como o velho que deseja adota-lo. Impossível não se emocionar. Tudo no filme é amplo, profundo, mira o sagrado que está em viver. A mensagem do filme é de como precisamos de pouco e como a vida pode ser mais. Um filme humanista. Mas a natureza não é um playground, ela é cruel, e vai ser a imprudência que levará o rapaz à desgraça, e não um inimigo humano. O diretor não se furtou ao efeito titanic, ou seja, dar uma saída "espiritual"/simbólica ao que é uma tragédia, mas apesar da melancolia do desfecho, a beleza do filme reside na entrega à vida efetuada de forma tão plena por Christopher. Sean Penn dirige tão bem que surpreende ser uma cinebiografia. 



Rosamund Pike agora só faz filmes em que é ambigua e pode se vingar de homens abusivos. Este é isso, e até a capa do filme entrega o fim. Uma enfermeira de uma cidade pequena vai a um encontro às escuras com um misterioso homem, que não é necessariamente quem diz ser, a estupra sem piedade. Nick Nolte faz o pai, e impressiona o tanto que o alcool o envelheceu. Shiloh faz um personagem abjeto, e é só isso. 

Meu coração viajando muito


Sobre A felicidade ou sobre A fantástica fábrica de chocolate


Prestes a fazer aniversário de quarenta e tantos, encontrei a imagem do filme A fantástica fábrica de chocolate. Ela me remete à sessão da tarde, em minha casa, com meus irmãos em Mauá/Zaira, sentados vendo este filme que amo. Eu, Sérgio, Cinha, Elaine, Péricles, Lúcio. Depois Márcio e Marcinha. Não foi um tempo bom, as carências eram enormes. A mãe mal ficava em casa; e, se o pai estivesse, tudo se tornava pior, com seus gritos, desmandos e exigências de tudo. Mas havia esses respiros, esse momento que nós, diante de um televisor precário, víamos filmes como este. 

Era da tevê que vinha nosso entretenimento mais sofisticado. Havia um rádio, uma vitrola com poucos discos que giravam sempre as mesmas canções, uma estante mirrada de livros desinteressantes às crianças, um quintal, um cão e um gato. Mas junto com isso, tantos deveres e cobranças, que estávamos sempre em suspensão, prontos para a mais agressiva palavra que viria.

Da tevê vinham os desenhos da manhã enquanto nos aprontávamos para ir à escola, o Sítio do Pica-pau Amarelo, os heróis japoneses diariamente destruindo Tókio, Os Trapalhões aos domingos (competindo com o horário da missa), as séries e os filmes. A tentação da publicidade, a catarata de produtos e seus desejos mercantis eram realidades distantes: não nos fascinava. Simbad, o marujo me parecia mais acessível, O velocino de ouro, As sete faces do doutor Lao, O pássaro azul. São os filmes mais remotos, estão em mim, a nostalgia dos bolinhos de chuva, do chá de capim santo, a pipoca que a mãe tirava de um caneco preto de frituras, o pão com manteiga da tarde, o leite de saquinho que ao ferver inevitavelmente derramava no fogão, são meu dia-a-dia real mais remoto.

A infância não é um tempo, é um lugar. Ela se mantem ali, intocável, e não se acessa mais por fatos. Fotos em monóculos são retratos de um dia de exceção - aniversários, casamentos, batizados, formaturas. A vida real não tinha registro. Não tínhamos grana para viajar, não havia shoppings, passeios restringíam-se à casa de parentes, dos avós sempre queixosos de doenças crônicas, como a solidão. Domingo com roupa reservada para igreja. A rua em frente sendo todo o universo possível. Mas a vida real, ampla, de possibilidade maiores, expandidas, vinha pela televisão. A ilha da fantasia, A mulher maravilha, O homem de um milhão de dólares, As panteras, O incrível Hulk, Chips. A infancia é em grande parte a memória dessas fantasias a que assisti. 

A memória falseia o passado, eu não tenho qualquer precisão do fato, mas tenho o sentimento de estarmos todos juntos, e nos colocarmos (sem saber que o fazíamos) no lugar deste garoto. Por um breve momento ao vê-lo triunfar com sua honestidade e bondade éramos ele. Tudo começava num lance de sorte (achar o cupom), de escolha (não vender a entrada), de decisão ética (não trair o contrato do dono da fábrica, roubando algo de lá) e fantasia (ver os maus punidos) até herdar a fábrica e levar os seus avós e mãe para prosperidade. Éramos todos magros e cabíamos, expremidos no sofá. Sobre nós, um cobertor xadrez vermelho e preto, surradíssimo, nos aquecia. O Rinte aos nossos pés, a chuva a cair lá fora e, se não houvesse trovão, nós todos assistindo à Fantástica fábrica de chocolate.

A memória da felicidade é um filme, uma sala com pintura descascando, o quadro da Monalisa na parede, o televisor com caixa de madeira (o estabilizador em cima), eu, e meus irmãos. É o passado. Era uma vez. O tempo é inexorável. E mesmo não querendo nada de volta: tudo dói.