sábado, abril 22, 2017

Sobre ser professor no Brasil ou Da minha aversão ao coitadismo



SOBRE SER PROFESSOR. 
SOBRE TER CURSADO FACULDADE DE LETRAS. 
SOBRE DEPRECIAÇÃO DA PROFISSÃO DE PROFESSOR.

Um dia pretendo reunir todos meus ex-alunos que fizeram Letras, sentar e discutir longamente sobre algo que acho péssimo nesta PROFISSÃO.
Nenhum profissional de qualquer outra área se deprecia tanto quanto professores (ainda mais de Letras). Por mais canalhas que sejam, quaisquer profissionais com ensino superior não apenas se protegem, como jamais depreciam seu ofício. Nunca dão uma de coitados.

Já muitos professores fazem discursos chorosos em sala de aula, mostram holerites aos alunos e dizem ganhar uma miséria. Por que professores fazem isso? Por que depreciam a si próprios. Querem comover seus alunos? Levá-los às lágrimas. Conseguir atenção e respeito? Não percebem que o que ocorre é o contrário? Passam a ser visto por seus alunos como fracassados e indignos de respeito e atenção? Esses professores não têm consciência da sua função social? Não se acham dignos? Duvidam do seu próprio valor?

Não deve ser pelo que recebem, pois certamente, nem piões de obra se depreciam, ainda menos nenhuma outra área do ensino superior. Nunca vi minha mãe chorar miséria por seu salário de enfermeira. Professores não entendem que ao se depreciarem (falar que ganham salários miseráveis etc) é assim que são vistos pela sociedade, como "coitados", dignos de pena, de piedade. Ao se pôr nesta condição, é assim visto e tratado por todos, até pelo poder público, como coitados.

Quantas vezes ao dizer que sou professor, ouvi em contrapartida: "é difícil, ganha um salário de miséria e não é respeitado pelos alunos". Sempre retruquei, pois para mim é um desprestígio horrível.
Para piorar, professores começam a se vestir mal, se apresentar de modo relaxado diante dos alunos, sem comprometimento, sem profissionalismo. E essa é a imagem que muitos profissionais consolidaram na profissão: de coitados, como se quisessem atrair a piedade.

Conseguem. Mas observe: recebem uma piedade falsa, pois em greves e manifestações, pais de alunos e praticamente toda sociedade ou ignoram suas manifestações/greves (que às vezes duram meses) ou se posicionam contra os professores.

Um jovem que deseja ser professor é logo desmotivado por seus pais (eu também fui, e brinco com isto quando falo com meu alunos), por que ser professor, muito além do próprio salário, tornou-se uma profissão de fracassados (financeiramente) com uma simpatia (falsa/artificial) por parte da população.

Eu JAMAIS me deprecio. Eu moro num lugar ótimo, faço ótimas viagens, tenho uma vida interessantíssima, contato com alunos maravilhosos e sei exatamente o significado do que faço, como fui fundamental para mudança qualitativa de vida de muitas pessoas. Se me oferecem como pagamento, menos do que mereço, digo não, para isso reduzi minhas aulas a um mínimo e me dou o direito de fazer o que desejo e quando sou valorizado.

Acho fundamental que os professores - dignos já pela profissão escolhida - parem de fazer o discurso de coitadinhos, se mostrem como detentores de um saber a ser valorizado. Isto deve começar pela sala de aula, diante dos seus alunos. Se unam e fortaleçam como classe profissional e lutem pela valorização (salarial) de seu ofício quando necessário.

Entendam que PROFESSOR é uma profissão, ele não é "colaborador", um "facilitador", um "entermediário entre aluno e conteúdo". Ele é um agente formador de pessoas; seu objetivo ultrapassa o conteúdo, é torná-las mais lúcidas, conscientes e lúcidas. Para isso é fundamental que ele também saiba quem é.

E coitadinho, digno de piedade, é o pior o que de pior se pode pensar de um Professor.

O melodrama em Nelson Rodrigues

No melodrama mais tradicional, valia a ação de vilões externos ao espaço doméstico, sedutores a assediar figuras da inocência desprotegida que encontravam sua salvação na figura do herói virtuoso. Não é o que acontece na dramaturgia de Nelson Rodrigues, em que a corrosão dos valores é um problema interno ao espaço doméstico e tem como centro a figura que deveria protegê-lo: o marido, o pai de família. O reconhecimento da corrosão interna do espaço da casa não elimina da dramaturgia a mesma demanda de pureza, mas essa tem de ser feita a partir de uma suspeita sistemática dirigida aos "motivos nobres". Resulta um teatro que não nos ilude com cenários de redenção. Em seu terreno minado por egoísmos delirantes predominam os disparates, as contradições e as vocações para o desastre, matéria que convida a uma leitura apoiada na psicanálise, embora a relação com ela se dê como que a contrapelo. 

p. 210

O olhar e a cena, de Ismail Xavier. 

quarta-feira, abril 19, 2017

Eu não sou um serial killer


John Cleaver (Max Records) é um jovem de 16 anos com impulsos psicopatas. Ele trabalha embalsamando corpos com a mãe e a tia, é obcecado por assassinos em série, mas não deseja se tornar um. Ele faz terapia e procura controlar seus impulsos, por isso, criou regas rígidas para o seu próprio bem e a segurança das pessoas ao redor. Quando um serial killer aparece na sua cidade, ele logo o descobre, mas fica seduzido pelas práticas do sujeito. Ele começa a liberar seus impulsos e começa a agir de modo tão perigoso quanto o mosntro que está tentando matar.



A relação familiar disfuncional, confusa e até inverossímil. Muitas coincidências e furos do roteiro compromentem ainda mais a trama, e o desfecho insólito/surrealista torna o filme ainda mais perdido. Achei chato. 

Clarlie e a fábrica de chocolate, de Roald Dahl



Então no dia do meu aniversário, recebi uma ligação do Mauro (que eu não via há meses) e na saída do trabalho, lá na Padaria Bela Paulista recebi este livro de presente, uma barra de chocolate e uma dedicatória linda. Foi inesperado e fiquei realmente comovido, pois na prática, foi o único presente que recebi neste meu aniversário, e foi muito significativo depois do texto que tinha escrito sobre o livro. 

terça-feira, abril 18, 2017

Ruby Sparks: A Namorada Perfeita




Calvin é um jovem escritor que está com bloqueio de criação. Depois de muito esforço, ele escreve sobre a garota de seus sonhos, Ruby Sparks. Para a surpresa dele, Ruby aparece magicamente em sua casa, e os dois iniciam um relacionamento.



Um filme absolutamente delicioso. 



domingo, abril 16, 2017

Páscoa e comemoração ao meu aniversário



No Zaira, Mauá. Eterna casa. Com mãe, Valdeci, irmã, irmão, cunhada, Gabriel, Pedrão e Vittorino. Uma Páscoa e um aniversário bem familiar. 



sábado, abril 15, 2017

Cabaret, Bob Fosse

Quando o Gabriel vem aqui para casa, normalmente aos fins de semana, a gente bate papo demoradamente e senta para ver filmes clássicos. Desta vez, do nada, vimos Cabaret, de Bob Fosse, um filme de 1972.  Assisti no período cursava a Escola Livre de Cinema, mas só agora a atenção redobrada, ainda assim, sempre foi meu musical preferido. 



Na Berlim de 1933, uma cantora americana se transforma em atração no Kit Kat Club. Sua vida, carreira e amores se desenvolvem paralelamente à ascensão do nazismo, enquanto ela se envolve ao mesmo tempo com um professor de inglês e um nobre alemão



Há tantas coisas incríveis no filme. Os números musicais são surpreendentes, jocosos, irônicos, profundamente sexuais. Joel Grey faz um mestre de cerimônias que é praticamente um sátiro clássico com tudo aquilo que um sátiro tem de sexual, grotesco, sarcástico, safo. Liza Minnelli é um espetáculo à parte. Sua voz estava perfeita, cança como ninguém, e concedeu à ambiciosa Sally Bowles, cantora e atriz performática do Kit Kat Club, malícia e delicada vulnerabilidade. Sempre preterida pelo pai, ela desfila numa Berlim ainda gloriosa mas em plena ascensão do nazismo. Sonha em ser uma grande atriz de cinema, e embora se mostre extensivamente vulgar, arregimentando amantes de ocasião para tentar se promover, não passa de uma garota deslumbrada com as possibilidade do alcool e do sexo. Sally Bowles, mulher-menina volúvel e trágica, vive num mundo de fantasia e está condenada a um fim trágico, que o desfecho do filme escamoteia. Michael York é uma escada moral, sujeito tímido, gay recalcitante que por fim se entrega ao sedutor Helmut Grem, num treesome improvável.  O filme de 1972 bota no chinelo em ousadia aos filmes atuais, com seus travestis, gays, lésbicas, liberalidade sexual e do pensamento. Não bastassem os deliciosos números musicas e as canções, ele tratará da ascensão do Nazismo na Alemanha, a crescente perseguição aos judeus e aos artistas. 



A direção de Bob Fosse é outro show. A câmera dança em travellins com os atores, os inserts e ações paralelas complementam a trama. Um filme que parece não ter envelhecido um só dia. 


Almoço baiano na Sexta-feira Santa

Então minha amiga Solange me convidou para um almoço baiano na casa de amigos fantásticos, Caruru, Vatapá, Moqueca de Peixe, Mousse de maracujá e bolo de chocolate. Minha Gratidão para Felipe Leal, Ram Vani, Solange, Wendel e Fábio Freire. 



Almoço luxuoso na Vila Madalena com pessoas especiais. 

sexta-feira, abril 14, 2017

Hidden Figures ou Estrelas Além do Tempo




No auge da corrida espacial travada entre Estados Unidos e Rússia durante a Guerra Fria, uma equipe de cientistas da NASA, formada exclusivamente por mulheres afro-americanas, provou ser o elemento crucial que faltava na equação para a vitória dos Estados Unidos, liderando uma das maiores operações tecnológicas registradas na história americana e se tornando verdadeiras heroínas da nação.

Estes dramas fundamentados em fatos reais funcionam como reparação. Hidden figures é daqueles filmes que não apenas botam o racismo no seu devido lugar: a lata de lixo da História, mas dissecam as pequenas perversidades, as estratégias indisfarsáveis, meandros do repúdio, tudo aquilo que é feio, sujo e oculta a face grotesca que é de todo preconceito, mas em particular, do ódio racial. 

Interessante pensar, e isto me veio após assistir ao filme, o fato do racismo não se circunscrever no corpo a corpo diário do assédio e da ameaça, ele se empenha na desvalorização a cada gesto do outro, a presença em si parece ser uma afronta. Mais feroz, ele busca o apagamento do outro, por isso o desejo de silenciar e ocultar o divergente/diferente, meter no gueto as minorias, segregar em periferias, ocultar no armário ou nas quatro paredes da moral, aprisionando o proprio desejo do outro, seus afetos. Ainda hoje, sua principal estratégia segue sendo a de condenar ao esquecimento atores fundamentais da luta pela igualdade, seres que integram a História, e mais que isto, a fazem/fizeram avançar. 

É impossível não se indignar com o tratamento dado aos cidadãos negros e, ainda pior, dado às mulheres negras num espaço que deveria ser de "ciência" (penso na etimologia do termo: saber/conhecimento), como era a NASA. A elas, embora exímias matemáticas, se impunha barreiras de crescimento profissional, num desistímulo e descrédito constantes, formas perversas de mantê-las numa posição de subalternidade, portanto, de submissão. Embora haja "explosões emocionais indignadas", as três mulheres optam pelo não enfrentamento, preferem encontrar brechas no sistema, compreender "o jogo", com sagacidade e persistência somadas ao talento extraordinário que possuem, com bravura e coragem chegam a vitória. Nisto o filme me atinge, pois me sinto aquém das lutas que deveria empreender para tornar o mundo, pelo menos esse microcosmo particular que chamamos nossa vida, algo melhor. 

Não há dúvida que Hidden Figures, assim como o livro no qual se baseou, se converte num filme-missão: mostrar ao século 21, que essas três mulheres existiram. Sendo um filme com um propósito preciso, - o de resgatar do limbo tais figuras, - busca transmitir seu enredo com a maior "clareza" possível. Por isso, o filme não tem, do ponto de vista estético, nada de inovador: ainda que aborde os anos 60, o ritmo é dinâmico, nada parecido com o ritmo dos filmes da época. A fotografia vibrante , dos anos dourados da era Kennedy, eterna nostalgia dos americanos wasps, tudo faz atraente e auxilia na fruição da narrativa. Se nada da arquitetura do filme sugere qualquer transgressão, não deixa de ser interessante o contraponto entre este cenário de sonhos, a ameaça paranóica da Guerra Fria, a crescente tensão dos brancos com esta "gente de cor" que começa a se apropriar de espaços, antes totalmente, a elas, afetados. 

Assim, o tratamento fílmico convencional faz Hidden Figures fluir azeitado e macio sem nunca descarrilar de sua marcha temporal linear, aquele primor de ocultação da carpintaria do filme, do qual os americanos são mestres absolutos. Nós espectadores esquecemos que há uma câmera, uma condução e um discurso a ser defendido quase como parábola. Nós nos entregamos à narrativa, a nos permitimos a empatia com essas mulheres, compreendemos o contexto do mundo onde transitaram, e a partir disso aderimos à sua causa. 

Envolvimento, é este o elemento chave do melodrama, e isto se concretiza quando o espectador se põe no lugar do outro. É desta quebra momentânea da distância eu-outro, a empatia, de onde o gênero extrai sua potência, fator que o fez triunfar - por incrível que possa parecer - como gênero da contemporaneidade. Ele não está alinhado aos grandes mitos e expressa o pensamento de uma coletividade (como a tragédia), nem se pretende uma alegoria que cifra em categorias tipos/arquétipos. O melodrama particulariza o indivíduo, egocentrado. Não encerra, em si, uma verdade universal. Por isso, é sempre um conflito eu vs. outro/mundo, onde polos opostos são bastante nítidos a plateia, mas devem ser sentido, e não raciocinado. Melodrama lida com as paixões e os sentimentos. É um gênero moral, por natureza.

A base moral, e não falo de razão ou ética ou de lei, a moral casada a um senso de justiça e respeito, que ainda em tempos espinhosos, todos nós privilegiamos (ainda mais se estiver casada aos afetos), é que leva o espectador pela emoção, viver a indignação ante o tratamento desigual dado a elas. Sentir-se na pele delas. E no seu empenho e resistência, elas alcançam o grau de heroinas, e mais que respeito, temos por elas admiração.

A dignidade torna-se força, a envergadura moral, a resistência brutal exige que o desfecho do filme seja a vitória, a gratificação do empenho. No caso, mais que as vidas que seguiram bem sucedidas narradas naqueles offs seguidos de frases que resumem o destino das três mulheres, a vitória está no resgate da história dessas figuras, e o reconhecimento, ainda que póstumo, das novas gerações, de seu valor.

A História, maiúscula, ainda mais em tempos de degradação moral e ascensão das velhas posturas reacionárias, conservadoras, preconceituosas e fascistas, é uma salutar fonte de conhecimento. Seu conhecimento desarma o processo de repetição, afasta-nos dos retrocessos que levam, inevitavelmente à barbárie.



quarta-feira, abril 12, 2017

Arthur Nogueira, Presente (Antonio Cicero 70) / 2016



Ouço compulsivamente.

Mulholland Drive, David Lynch



Uma jovem atriz viaja para Hollywood e se vê emaranhada numa intriga secreta com uma mulher que escapou por pouco de ser assassinada, e que agora se encontra com amnésia devido a um acidente de carro. Seu mundo se torna um pesadelo e surreal.




Reassisti ao lado do Gabriel. Rever uma obra-prima é renovar a leitura. A cena do teste para o filme segue ontológica. As obsessões de Lynch seguem as mesmas, todo o universo noir dos filmes dos anos 50, todo o repertório musical dos anos 60 e o estilo, as figuras bizarras, grotescas. A hipérbole na expressão dos sentimentos, a passionalidade, a proliferação de fusões que sintetizam a projeção do real com o imaginado. O clima oníricos (ou de pesadelo) que prepondera. O humor estranho, um humor negro. A câmera flutuando em travellings pelos espaços. O cinema focando o próprio cinema. A exposição de um filme inicial (criado no imaginário da protagonista) como se este fosse a realidade, e a reversão, no meio do filme, para trama real. Muitos personagens entrando, muito mais para dispersar do tema fulcral: a história de amor degradada das duas mulheres. A presença de figuras fantasmagóricas, os sonhos premonitórios, as crises histéricas, o mistério, o salão, o palco circense/ou de cabaré, o anão; os números musicais. A trama policial com seus investigadores autistas, limítrofes, a presença de gangsters perversos, mórbidos, sádicos e truculentos. 

Em Mulholland Drive a verossimilhança é testada até o limite, já que ninguem age na previsibilidade psicológica. Rita/Camilla ao perder a memória se esconde na casa da desconhecida Betty/Diane que a recolhe em vez de expulsá-la, não procuram a polícia, fogem dela. São atraídas pelo perigo. O diretor de cinema quanto mais acuado, mais enfrenta os inimigos. Ao encontrar a esposa na cama com outro homem, é ela que o desafia e escorraça, para depois enfrentar capangas ferozes que invadem sua casa. 

Estranho. Um autor dos tempos atuais, quanto a religião virou mistificação e todas as coordenadas de verdade e certezas se esfacelaram. 

Alguns filmes vistos, dos quais não tive tempo (ou vontade) para comentar


Uma consultora corporativa de gestão de risco precisa investigar um acidente em uma instalação remota. Ela se questiona ao ter que decidir se um ser artificial vivo deve ou não ser sacrificado.

Ficção científica com confinamento, na mesma linha do Ex Machina, ideia roubada de Isaac Asimov de Eu, robo. Ou seja, um ser artificial que toma consciência de si. A maravilha de ver de novo a protagonista de A bruxa. Aqui ela é um ser construído geneticamente para ser uma máquina assassina. O problema é que não excluíram a capacidade de ser passional. Assim, num surto, ela é capaz de agir da forma mais violenta, cruel e desumana, assim como qualquer ser humano. Vale. 



Após uma viagem de férias para o Grand Canyon eventos estranhos começam a acontecer em uma família, como a mudança de comportamento de um dos filhos. Eles descobrem que algumas rochas levadas pelo filho são a causa. Aquelas bobagens que andam chamando de filme de terror, mas que sobrepõe cliches, e este é ainda pior, por que é tosco es todos os níveis. Dá aquela preguiça de resenhar. Fuja. 


ARQ, achei que era uma série e então descobri que é um filme. Uma espécie de O feitiço do tempo. Sujeito morre e acorda no mesmo ponto. Como num jogo de videogame, ele, protagonista, tem memória do vivido, e cada vez que desperta faz modificações. O mundo pós apocalipse comandado por ets/robos, sei lá. O fato é que ele roubou uma máquina do tempo que rebuta a cada dez minutos aproximadamente. Ele tem que impedir que assassinos invasores da sua casa roube seu dinheiro e se apoderem da máquina. As variações são excelentes, sem que o filme fique enfadonho. De repente, os que morreram também começam a se lembrar da vida pregressa, o que torna o xadrez mais complexo. O filme é curto, intermitente, um só cenário praticamente, o roteiro é muito bom, assim como as atuações. Para quem gosta de ficção inteligente. 

Ainda que baseada em fatos reais,  a trama é tola, inverossímil, sentimentalóide e irritante. Mocinha entra numa espécie de campo de concentração comandado por um lider religioso pedófilo e sádico. É um alemão mancomunado com um ditador e que submete presos políticos a sessões de tortura aos estilo de tratamento psiquiátrico. Choques elétricos, de insulina e afins. A mocinha tola, se infiltra, engambela todo mundo, arranja uns aliados e consegue tirar o mocinho, embarcar num avião, se libertar e denunciar o alemão. Aliás, nunca perde-se a aura de estar fazendo tudo em nome do amor. Uma morte terrível. 



Um Homem Chamado Ove. Um velho aposentado, viúvo e mal-humorado leva uma vida amargurada. Mas justo quando ele desiste de viver, novos vizinhos mudam para a casa da frente e surge uma amizade inesperada. É previsível e encantador. os vizinhos são estrangeiros, de uma cultura absolutamente distinta do compulsivo por organização Ove. O filme se narra em flashbacks de um Ove feliz com a terna esposa e um acidente horrível que a fez perder o filho e se tornou paraplégica. Oposta a Ove, a esposa era um ser solar e amada pelos alunos (era professora), no desfecho o nascimento de um bebê e o afeto a que Ove vai sendo exposto o livra do trauma. 


Hip-hop Evolution é um documentário da NetFlix sobre o surgimento do hip-hop nos EUA, até se converter em fenômeno e sucesso comercial (americanos focam sempre isso). São três episódios até então, e parece bastante complementar a The Get Down. Aliás, há muitas semelhanças do material de arquivo e até da edição que se assiste na série. Todo baseado em entrevistas aos precursores - vivos - do rap, com imagens de arquivos e detalhamento histórico. 


Amo filmes de época, Carey Mulligan é a rainha deles. Bathsheba Everdene é uma jovem em dificuldades financeiras que não deseja se casar, mesmo que seja para garantir seu sustento. Ela herda uma fazenda do tio e decide coordenar a fazenda, algo impensado para uma mulher na época. Logo, ela contrata Gabriel como seu capataz e passa a ser assediada por William Boldwood, um rico fazendeiro. Entretanto, quem a conquista de fato é o sargento Troy, um militar que carrega consigo um trauma amoroso do passado. 

Achei interessante a protagonista movida pelo desejo sexual a ponto de ceder a um canalha (Troy), e ser totamente dominada por ele. É um filme de paixões, de pequenas tragédias que modificam (para pior) a vida de todos personagens, indlusive do capataz bacana. No filme, não se verá a tal mulher emancipada e sim uma tolinha que teve que levar muita rasteira.






Aos 11 anos, Li Cunxin saiu de uma pobre aldeia chinesa para estudar balé em Pequim e, por meio de um intercâmbio cultural, ingressou numa companhia de balé americana. Em busca de liberdade e uma vida nova, ele luta para ficar nos Estados Unidos.

Filme pendente há anos. Liguei a televisão e estava passando na Globo (!!!!), comecei e fui até o fim, pois pobreza, balé, choque cultural e emancipação pelo talento são assuntos que sempre me interessam. Trata-se de uma cinebiografia, o que tem tudo para ser um fiasco, mas o filme é bonito, tem conteúdo e enternece. 


Christopher McCandless, filho de pais ricos, se forma na universidade de Emory como um dos melhores estudantes e atletas. Porém, em vez de em embarcar em uma carreira prestigiosa e lucrativa, ele escolhe doar suas economias para caridade, livrar-se de seus pertences e viajar pelo Alasca.

Visto há muitos anos, sentei e assisti ao final junto com Gabriel. Não é um roadmovie, é um filme mochilão, com um protagonista lindo, carismático, corajoso e hippão que sai pelo mundo para ter experiência não banais, ou seja: físicas (contato com a natureza), sexuais, transcendentes e filosóficas. Faz um diário e bota todas essas impressões sobre o que vive, sobre tais experiências na viagem. No caminho encontra violência, truculencia, mas também grandes afetos, como o velho que deseja adota-lo. Impossível não se emocionar. Tudo no filme é amplo, profundo, mira o sagrado que está em viver. A mensagem do filme é de como precisamos de pouco e como a vida pode ser mais. Um filme humanista. Mas a natureza não é um playground, ela é cruel, e vai ser a imprudência que levará o rapaz à desgraça, e não um inimigo humano. O diretor não se furtou ao efeito titanic, ou seja, dar uma saída "espiritual"/simbólica ao que é uma tragédia, mas apesar da melancolia do desfecho, a beleza do filme reside na entrega à vida efetuada de forma tão plena por Christopher. Sean Penn dirige tão bem que surpreende ser uma cinebiografia. 



Rosamund Pike agora só faz filmes em que é ambigua e pode se vingar de homens abusivos. Este é isso, e até a capa do filme entrega o fim. Uma enfermeira de uma cidade pequena vai a um encontro às escuras com um misterioso homem, que não é necessariamente quem diz ser, a estupra sem piedade. Nick Nolte faz o pai, e impressiona o tanto que o alcool o envelheceu. Shiloh faz um personagem abjeto, e é só isso. 

Meu coração viajando muito


Sobre A felicidade ou sobre A fantástica fábrica de chocolate


Prestes a fazer aniversário de quarenta e tantos, encontrei a imagem do filme A fantástica fábrica de chocolate. Ela me remete à sessão da tarde, em minha casa, com meus irmãos em Mauá/Zaira, sentados vendo este filme que amo. Eu, Sérgio, Cinha, Elaine, Péricles, Lúcio. Depois Márcio e Marcinha. Não foi um tempo bom, as carências eram enormes. A mãe mal ficava em casa; e, se o pai estivesse, tudo se tornava pior, com seus gritos, desmandos e exigências de tudo. Mas havia esses respiros, esse momento que nós, diante de um televisor precário, víamos filmes como este. 

Era da tevê que vinha nosso entretenimento mais sofisticado. Havia um rádio, uma vitrola com poucos discos que giravam sempre as mesmas canções, uma estante mirrada de livros desinteressantes às crianças, um quintal, um cão e um gato. Mas junto com isso, tantos deveres e cobranças, que estávamos sempre em suspensão, prontos para a mais agressiva palavra que viria.

Da tevê vinham os desenhos da manhã enquanto nos aprontávamos para ir à escola, o Sítio do Pica-pau Amarelo, os heróis japoneses diariamente destruindo Tókio, Os Trapalhões aos domingos (competindo com o horário da missa), as séries e os filmes. A tentação da publicidade, a catarata de produtos e seus desejos mercantis eram realidades distantes: não nos fascinava. Simbad, o marujo me parecia mais acessível, O velocino de ouro, As sete faces do doutor Lao, O pássaro azul. São os filmes mais remotos, estão em mim, a nostalgia dos bolinhos de chuva, do chá de capim santo, a pipoca que a mãe tirava de um caneco preto de frituras, o pão com manteiga da tarde, o leite de saquinho que ao ferver inevitavelmente derramava no fogão, são meu dia-a-dia real mais remoto.

A infância não é um tempo, é um lugar. Ela se mantem ali, intocável, e não se acessa mais por fatos. Fotos em monóculos são retratos de um dia de exceção - aniversários, casamentos, batizados, formaturas. A vida real não tinha registro. Não tínhamos grana para viajar, não havia shoppings, passeios restringíam-se à casa de parentes, dos avós sempre queixosos de doenças crônicas, como a solidão. Domingo com roupa reservada para igreja. A rua em frente sendo todo o universo possível. Mas a vida real, ampla, de possibilidade maiores, expandidas, vinha pela televisão. A ilha da fantasia, A mulher maravilha, O homem de um milhão de dólares, As panteras, O incrível Hulk, Chips. A infancia é em grande parte a memória dessas fantasias a que assisti. 

A memória falseia o passado, eu não tenho qualquer precisão do fato, mas tenho o sentimento de estarmos todos juntos, e nos colocarmos (sem saber que o fazíamos) no lugar deste garoto. Por um breve momento ao vê-lo triunfar com sua honestidade e bondade éramos ele. Tudo começava num lance de sorte (achar o cupom), de escolha (não vender a entrada), de decisão ética (não trair o contrato do dono da fábrica, roubando algo de lá) e fantasia (ver os maus punidos) até herdar a fábrica e levar os seus avós e mãe para prosperidade. Éramos todos magros e cabíamos, expremidos no sofá. Sobre nós, um cobertor xadrez vermelho e preto, surradíssimo, nos aquecia. O Rinte aos nossos pés, a chuva a cair lá fora e, se não houvesse trovão, nós todos assistindo à Fantástica fábrica de chocolate.

A memória da felicidade é um filme, uma sala com pintura descascando, o quadro da Monalisa na parede, o televisor com caixa de madeira (o estabilizador em cima), eu, e meus irmãos. É o passado. Era uma vez. O tempo é inexorável. E mesmo não querendo nada de volta: tudo dói. 

Sobre um morador que pintou de cinza, o muro de sua cana, no Beco do Batman

O autor é Anderson França, e tirei do facebook. 

Anderson França
21 h
Aí a moçada tá chateada porque seu João pintou o muro da casa dele de cinza
no 
BECO
do
BATMAN

oceje: o mais novo lugar hype-cool dos publissa under 30 e dos esquerda Vila Madá.
Aliás, que fique nítido: 
Todo mundo tá linchando o coroa, nobody call for him and perguntou: Mano, kol foi?

Uma pessoa passou lá, viu o cara pintando, e, porra: QUE ÓTIMO MOMENTO PARA TRANSFORMAR A VIDA DO JOÃO NUM INFERNO MAIOR DO QUE O QUE ELE JÁ VIVE. VOU FILMAR E POSTAR NAS REDES:
THE MÔNIO VAI CABA CAZARTE.
"Vou ser a fodona do dia nas lutas sociais" deve ter pensado.
Seu João.
70 anos.
Setenta.

Tem uma casa ali naquele lugar. Vários grafiteiros hoje falaram em favor dele, porque ele sempre ajudou os caras, dava água, liberava a casa, o banheiro, pros cara mijar, matar a sede, cagar, descansar, maluco mó Zeca Pagodinho.
70 anos.
Aí os cara já grafita ali mais de 10 ano e diz que o coroa NUNCA embaçou. Aí vagabundo tá chamando o coroa de fascista. Aí o coroa disse que pintou mermo. Que tá vindo gente pra caralho, mó zuada, ninguém dorme. Bebe, fuma, xera, grita, dança, cipindura nas coisa, mó anarquia. 70 anos.
Vagabundo fica até virar a noite falando as merda que quer. E gargalha. E Fora Temer. E coral de Fora Temer. E fumacê. E mijo. 70 anos.
O coroa cansou. 
Quando foi morar ali, não queria ser ponto turístico. 
Não ganha nada com isso. Ajudou os cara que pinta. 70 anos. Não pediu um real. Vários dizem que seu João também é um patrimônio do Beco. O muro é. Mas seu João também.

Cansado das porra, pegou e comprou tinta fechada. Foi lá, no muro dele, xabláu. Cabo zuera na frente da minha casa. Zua no vizinho. Ali. Aqui, quero dormir. SETE. DEZENAS. DE. ANOS.
Aí veio a pessoa de luz, filma, lança premiére de esculacho, montão viraliza, Midia Ninja manda, NINGUÉM LIGA PRO CARA pra apurar, acata versão de UMA pessoa da internet, coroa, da noite pro dia,
é safado,
vagabundo,
opressor do caralho,
alá ele,
pisou nas flor.

Aí vem as pérolas do Direito Imobiliário e de Patrimônio:
"Mas o muro é público"
"Mas vamo fazer um processo pra proibir ele de pintar"
"Mas isso esfaqueia a arte"
"Mas ele deve ser avô do Anderson França"

Eu quando olho essa mocidade, fico pensando que tem tanta coisa pra se combater, como o fascismo real, o machismo real, o racismo real, a desigualdade real, as relações superficiais reais, a falta de esperança real, um governo golpista real, uma falta de unidade nacional real, um desprezo pelas vozes insurgentes real, uma criança morrendo real em cada morro de cada periferia do país real,
to vendo a hora de aparecer a mina do turbante de taubaté e dizer que vai ter grafite sim e vegano é vitimista sim, ela ca boka xei de friboi, brigadero de friboi, escorrendo pela boka,
enquanto isso um monte de muro no Jardim Ângela segue sem um grafite. Um monte de muro na Maré sem um grafite.
Pegue a visão.
Grafite é um negócio que demanda uma agulha. $$$$
Tem grafitero que consegue comprar seus material na funça, tem outros que porra, pra meter um jet leva meses, depois outro, depois a passagem de ônibus pra ir onde quer grafitar.
Os grafiteiros reconheceram a importância do seu João, como reconhecem, creio eu, a importância do grafite como criação artística do negro. O Bronx é a Nova Roma. De lá vieram as grandes culturas urbanas pro mundo nos últimos 40 anos. O negro fez o rap, o grafite, o break. As pessoas estão consumindo cultura originalmente negra há anos, e às vezes "esquecem" que foram eles que criaram.
Acho que os grafiteiros do Beco não são assim. Acho que respeitam isso. Quero crer. E acho que sabem que ficar criando caso com o seu João, 70 anos, ao invés de mandar um grafite no Pantanal, na Zona Leste, é melhor.
Sabe o que eu penso?
Não é a esquerda que tá errada não. São as pessoas. 
E geralmente, as pessoas de classe média e brancas que entraram pras lutas, pra agitar um pouco suas vidas meio paradas ouvindo Banda do Mar. Sei lá. Minha vida tá drenada de abundância. Uma porrada de privilégio branco e bandeja pra caralho de iogurte grego na gela. Vou causar. Impressionar meus pais. Sei lá. Não fui eu.

As pessoas tão linchando um morador que, no seu direito, decidiu apagar um grafite no seu muro, mesmo sabendo, como sabe, há mais de 10 anos, que perde um patrimônio imaterial inestimável, mas as pessoas, essas aí, não respeitam mais seu silêncio, sua família, sua casa, sua paz. Elas não querem ouvir barulho na frente da casa delas, e vão fazer na casa dele. E se ele reage, a gente mete uns discurso de DCE provocativo smells like a teen spirit, que tem gente que passa recibo pra isso direto.
Sejam menos desonestos.
Mesmo que ele apoiasse o regime militar, ele tem 70 anos.
Tem lei pra silêncio, tem lei pra idoso.
Ontem defendeu Sheherazade, hoje apedreja velho.

Qual é o foco?
Vamo pra perifa. Vamo pintar lá. Vamo socializar a arte.
Cês são igual o pessoal da São Salvador aqui no Rio, que se sentiu ~ferida~ depois que os moradores pediram pra festança deles ter hora pra acabar, porque nas TERÇAS FEIRAS os namastê vindo da Gávea bebia e dançava até 5 da manhã, e maluco trabalha. Ninguém é obrigado. Bora rever Marx. Bora rever que não é porque somos maneiros que podemos passar por cima dos que só querem tocar suas vida.
E mano: para. 
Hoje morreram bem uns 60 jovens negros. E vocês nem se ligaram.

Abraço aos artistas do Beco do Batman. Um beijo pro seu João. Que ele e sua família durmam bem. Eu sou da esquerda que te manda beijo e amor, João. E principalmente, de uma esquerda que tá em outras pautas. Mais urgentes. Máximo respeito pelos teus 70 anos. Máximo respeito.

seriestorrent.tv

Então achei o melhor site do mundo para baixar filmes e séries com legendas via torrent


Clique


domingo, abril 09, 2017

Caetano Veloso, 2017


Uma foto de Rodrigo Sombra.

entrevista

Paris, Texas, de Wim Wenders




Há tantas belezas neste filme de Wim Wenders, que será preciso sentar e escrever longamente a respeito. Reassisti hoje (9.4.17), via Netflix com Gabriel. Frame a frame, Paris, Texas é puro deslumbramento em luz, intenção, ritmo, sentido. A emoção contida em diálogos mínimos, a amplidão dos espaços, das cidades, os grandes silêncios. Natasha Kinski divinal. 

Sobre a série The Getdown, de Baz Luhrmann para Netflix




Ambientada em Nova York durante o ano de 1977, The Get Down conta a história de como, à beira das ruínas e da falência, a grande metrópole deu origem a um novo movimento musical no Bronx, focado nos jovens negros e de minorias que são marginalizados. Entre a ascenção do hip-hop e os últimos dias da Disco Music, a história se costura ao redor das vidas dos moradores do Bronx e de sua relação com arte, música, dança, latas de spray, política e Manhattan. 


Agora em abril, a Netflix lançou a segunda temporada de The Get Down. O diretor/criador da série, o australiano Baz Luhrmann (o mesmo de Romeu+Julieta e Moulin Rouge) voltou a exibir seu estilo exuberante - para não dizer excessivo. Com montagem frenética, cores hiper saturadas, ritmo clipado, inserts musicais, colagens mil de referências pop, a série mostra o processo de evolução do gênero, glamorizando a periferia pobre e exaltando a cultura das ruas. Estão lá as imagens de arquivos da época, para a pau com sua reinvenção de Luhrmann. Para ele interessa o mito, a hipérbole do real, figuras sínteses, alegorias de um tempo. Po isso em The Get Down, não faltam personagens estravagantes coladas à personagens reais, ídolos do final década de setenta. 

The Get Down conta de um modo muito particular o surgimento do movimento hiphop, dos MC's, DJ's, da breakdance e do grafite urbano. Aliás, cada um destes elementos que configuram o hiphop é representado por um personagem. Apesar do clima barra pesada do Bronx do fim dos anos 70, com incêncios periódicos, gangues, e avanço do narcotráfico e de drogas como o crack, Baz Luhrmann faz com que vejamos toda a história do hiphop por meio da tragetória de adolescentes, o que nos faz lembrar aqueles adolescentes de Cidade de Deus, a sintetizar vários aspectos históricos do Brasil contemporâneo..

As discotecas, a comunidade negra e latina, os cultos gospels, a efervecencia da cultura pop e seu amor pela violência, a ascensão da música negra, as relações com o mercado fonográfico e a televisão, assim como as mudanças comportamentais, o racismo e a difícil relação com guetos e criminalidade costuram os seis episódios que configura também a segunda temporada. 


Um dos maiores investimentos da Netflix em termos de orçamento, percebe-se a contenção de gastos imposta à segunda temporada, principalmente nos inserts (que deveriam ser filmados), e que acabam substituídos por desenhos no estilo dos quadrinhos/grafites. Duelos musicais pontuam a trama, com incríveis espetáculos de raps e breakdance lindamente coreografados. A edição é um espetáculo a parte, ricas são as fusões de planos temporais distintos, num ritmo quebraso/clipado em samples visuais. A sensualidade/sexualidade é outro ponto forte da série, que ao tratar de adolescentes não escamoteia nem mesmo o uso de drogas (e da violência que muitas vezes glamouriza), à maneira do realizado em Romeu+Julieta. 

A realidade só interessa a Baz Luhrmann como ponto de partida para a fantasia e para sonho. Suas tramas abraçam o nonsense, o delírio. Ele busca o êxtase, o deslumbramento, e quase sempre alcança, embora seu estilo não seja para todos. 

Mas o grande elogio que The Get Down faz, é à grandeza da cultura negra: na moda, no comportamento, no estilo e na arte. Seus personagens são o ponto forte, pois têm personalidades bem demarcadas e bastante consistentes, embora sirvam de alegoria de uma época. Defendido por atores talentosos e em total entrega, o grupo "The Get Down" é liderado pelo "dono da batida", o sujeito que controla as picapes, mentor intelectual da "aventura": o misterioso Shaolin Fantastic. Os integrantes são: órfão Ezekiel e três irmãos; Ra-ra, Boo-boo e Marcus. 


Ezekiel (Justice Smith) é a palavra, o poeta. Protagonista da série, é da sua perspectiva que a narrativa se conta; a série sempre inicia, num palco onde ele, já adulto, discursa e se narra à plateia à sua frente. São dele as letras profundas feitas para batidas nas picapes. Seus raps iniciam tratando do drama pessoal da orfandade, da perda de pais para drogas, de sua origem multirracial (negra e latina), depois tratam da valorização da comunidade, da alegria dos encontros, evoluindo na sequência para o texto político, as mazelas (pobreza, racismo, tráfico, violência), os dilemas da comunidade negro/latina do Bronx, as aspirações da juventude pobre, preta e periférica.



Ra-ra (Skylan Brooks) é o cérebro, aquele que elabora estratégias para viabilizar os projetos, a mente empresarial que enxerga no movimento a grandeza de uma cultura que se constrói. É empolgado, engraçado, indagativo. Sempre propositivo e sagaz, é quem traz a solução para todas as questões práticas que se apresentam ao grupo.



Boo-boo (Tremaine Brown Jr.) é o caçula, é o corpo, por isso ele representa o desenvolvimento da breakdance. Canaliza os desejos - se envolve com o tráfico, vira vapor para bancar uma garota ordinária que só se interessa por dinheiro e drogas. É símbolo da ingenuidade, da tentação da grana fácil, das carências saciadas, da grana/ostentação, por isso deseja abandonar os estudos e ser o "cara das ruas". É a face da vulnerabilidade dos garotos nascidos no gueto. 



Marcus 'Dizzee' Kipling (Jaden Smith) é o artista por excelência, artista do traço, do desenho, por isso é o cara da pixação dos trens e do grafite. Tem consciência do poder da criação e deseja deixar sua marca no mundo, nem que para isso tenha que se arriscar numa postura poética e política. É o menos desenvolvido como personagem, com pouca presença e número reduzido de falas. Marcus é explorado as cenas mais delirantes, gráficas, visuais. Seus desenhos cobrem as lacunas da história, sintetizam trechos da ação. É também o personagem sexualmente divergente, atraído por um outro pixador louro. A homoafetividade e união inter-racial é pouco desenvolvida na trama (sempre num tom muito poético e quase nunca carnal), no caso de Marcus, este "pudor" resida no fato de o ator ser filho do astro Will Smith. 



Shaolin Fantastic (Shameik Moor) é o cara das ruas, órfão a serviço do tráfico, amante (à contragosto) da voraz, feroz e "incestuosa" Mama. Shaolin se inspira em Bruce Lee, é um herói falível, quase um anti-herói. Começa a trama como homem-mistério do grafite, arte que abandona ao dominar a discotecagem, mostrada na primeira temporada como se fosse uma iniciação mística. É extraordinário no break e streetdance, mas tudo fica em segundo plano quando passa a comandar as picapes, samplear. Sempre dividido entre a música e o tráfico, do qual tenta se dissociar, sempre é levado - pela necessidade de sobrevivência - à criminalidade. É solitário, amargurado, nem sempre confiável, contudo, acredita no dom de sua arte, o que o torna não apenas narcisista, muitas vezes tolo e egoísta.




Completam o quadro representativo, Mylene Cruz, cantora gospel negro-latina, filha do Pastor Ramon Cruz, conservador, ex-alcoolatra, bastante controlador e egoísta. Ela busca uma carreira entre as divas da Soul Music, ser uma nova Donna Summer, rainha da Disco. Tem como parceiras as back vocals Yolanda e Regina, suas confidentes e amigas inseparáveis. É ambiciosa, sexy e apaixonada pelo protagonista Ezekiel. Representa a mulher negra e seu caminho para independência feminina. 



Cadillac (Yahya Abdul-Mateen II) é o vilão, inimigo de Shaolin fantástico com quem divide a "preferência" da mama Fat Annie, sua mãe dominadora e assassina. Ele é um narcotraficante sempre envolvido em negócios ilícitos diversos. Administra a discoteca Inferno e uma gravadora de Soul, Disco, blackmusic. É vaidoso, veste-se de modo extravagante, sexy, um predador sexual. Sempre impulsivo, ele é o representante da dança e do gênero Disco, que defende contra os avanços do hiphop. 


Mr. Gunns (Michel Gil) é um político oportunista, ligado ao mercado imobiliário e envolvido com interesses escusos. Demagogo e mal intencionado em relação às necessidades da população do Bronx, ele se tornará mentor de Ezekiel com o intuito de levá-lo à universidade. Estratégia usada pelo diretor para mostrar o que sucede neste momento na camada social rica, branca e poderosa e como esta corrobora para desigualdade e miséria nos guetos. Mr. Gunns tem uma aliança  Francisco 'Papa Fuerte' Cruz (Jimmy Smits), empresário de grande influência política na comunidade latina, empreendedor de imóveis, está igualmente ligado a ações nada lícitas, embora tenha, sim, um grande sentimento de pertencimento ao Bronx. É amante da esposa do Pastor Ramon, seu irmão, e pai verdadeiro de Mylene Cruz, a quem apoia e gerencia a carreira em ascensão. 



Há uma profusão de personagens e peripécias que vão pontuando a trajetória da "banda" em paralelo a mudanças históricas no Bronx/Nova Iorque/EUA. Para além das fronteiras, ele trata da ascensão de um gênero musical - o rap - que nos EUA se tornaria hegemônico, indissociável da própria música e cultura atual.

Embora The Get Down seja articulada em torno de uma trama de amor romântico entre Ezekiel e Mylene, assim como as relações de amizade entre os membros da banda, o diretor Baz Luhrmann criou uma série que - mais que entreter, - conta com desenvoltura, inteligência e estilo o fenômeno do hiphop, seu poder de denúncia de mazelas sociais, dar visibilidade aos marginalizados, de conscientizar e e enaltecimento o cidadão negro e/ou excluído. The Get Down nos fala, portanto, da grandeza da periferia negra e sua importância para Arte do século 21.