segunda-feira, fevereiro 13, 2017

Moana, um mar de aventuras, Disney


Baixei, assisti com certo tédio inicial. Acho meio tola essa onda de princesas empoderadas, e Moama, desde a capa, posta à frente, com postura combativa com o remo à mão (apesar dos animais fofos em volta), já antecipa o fato de que ela conduz a história. Moana é, provavelmente, a personagem mais "feminista" da Disney, mais que Mulan, já que dispensa a necessidade de um par romântico e, por hereditariedade, está destinada a ser a líder/comandante de sua ilha.

A comprovação de que não há mais espaço para "princesinhas" frágeis à espera do príncipe-herói está no fato de a todo tempo reafirmar, diante do semi-deus Maui, seu próprio nome. E quando ele a chama de princesa (até por ter animais fofinhos em torno de si), ela recusa a denominação, é tão somente Moana, filha do chefe.

O trickster Maui, apesar de apresentar todos os clichês do que é a masculinidade, com um machismo explícito, permite-se comandar por ela, treinando-a e modificando seu entendimento sobre as mulheres.

Moama é, aliás, um filme povoado por femininas arquetípicas: a grande-mãe natureza violada, a avó/xamã, propagadora de lendas e guardiã da memória da ilha; a mãe aparentemente submissa, mas encorajadora da libertação da filha, e Moana, donzela-guerreira que dispensa o disfarse masculino. Daí surge aquilo que acho o mais interessante no filme. Desde a primeira cena, Moana é um elogio explícito ao MITO, à lenda, à tradição oral. É o Mito que consagra e torna mais real a existência, ele pontua a origem, estabelece ritos, hábitos, comportamentos; portanto, a própria Cultura. O mito da memória chega à História, mas nunca se desfaz numa objetivação simples da realidade, segue determinando o presente e estabelece rumos para o futuro. Claro que possui sua face perversa, quando intolerantes justificam com "narrativas bíblicas" por que gays e transexuais não devem existir, já que na origem só havia Adão e Eva. Para os que não sabem "ler" o mito o que advém é a "obscuridade", mas não culpemos o Mito o que cabe aos homens. Moana é, deste modo, uma aula.


[Abri no acaso aqui em casa, um dia depois, um livro sobre mitos e olha o que encontro: "Os malandros (triksters) conferem aos mitos imprevisibilidade, caos e humor. Quase todos são metamorfos habilidosos. (...) A cultura iorubá inclui o deus malandro-mensageiro Exu (que, como Hermes, é o deus dos limites). (...) O malandro Maui é uma divindade polinésia popular, encontrado em todos os lugares, do Havaí à Nova Zelândia. Ele usou a mandíbula da sua avó para retardar o Sol e ajustar a duração do dia, além de presentar a humanidade com o fogo.]

Nenhum comentário: