terça-feira, fevereiro 14, 2017

A monster calls ou Sete minutos depois da meia-noite


Vi o trailer e não levei muito a sério, ontem sentei à meia-noite e assisti estarrecido. Quase um anti-conto-de-fadas em que os pesadelos do menino se misturam com sua realidade, esta a pior fase de sua vida. Sua mãe está com câncer, a doença só evolui, o pai ausente em outro país passa para uma visita rápida, e a expectativa de ter que viver com a avó o apavora. 




Da janela do quarto uma árvore, um teixo ancestral, ganha vida e, como um mostro gigante e violento, abandonará sua montanha à beira de um cemitério e irá ao encontro do menino sem sucessivas noites, sempre no mesmo horário: sete minutos depois da meia-noite. As conversas pouco têm de autoajuda, são agressivas, duras, graves. O teixo não veio trazer soluções, propõe apenas contar-lhe três histórias, no final da última, o menino deve contar-lhe uma história completa e verdadeira. Toda a angústia, dor, impotência do menino se converte num desejo de autopunição e violência, que os colegas que lhe infligem bullying na escola vão cumprir ritualisticamente num pátio deserto. 


O encontro com a árvore-teixo é sempre tensa e também permeada de violência, que o garoto materializa quebrando objetos, reflexo da fúria diante da possibilidade da morte iminente da mãe. O desfecho parece se alongar mais que o devido, para garantir ao espectador um respiro, mas o fim vem antes. 


Uma narrativa toda calcada na psicanálise dos contos de fadas, sua capacidade de materializar no plano do subconsciente os conflitos humanos indevassáveis. Lembra o filme  Baabadok, mas se neste o foco era a mãe incapaz de vencer o trauma da morte do marido, A monster calls trata fundamentalmente do menino, a aceitação e a palavra que precisa ser dita para seguir vivendo. 


Elenco famoso, efeitos de primeira, direção segura. Chorei horrores. Uma obra-prima, por isso, irretocável e necessária. 







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