quarta-feira, janeiro 11, 2017

Sobre Facebook e seus usos


As notícias sobre política nos deprimem. Os comentários perversos de gente de bem para questões complexas abordadas com soluções tiradas do senso comum ou pautada por uma mídia (sim, terceirizamos nossa visão de mundo, nossa opinião), nos estarrece.

O imenso manancial de ignorância, preconceito ou ódio mesmo, parece indicar um Brasil sem saída, sem solução, onde nossas ações se revelam inúteis, e nos deixa de certo modo prostrados no não, na descrença, no desamparo pleno.

Há os que recorram a Deus e à bíblia, mas é um Deus das folhinhas, imaterial, ideal, e por que belo, fácil de amar se ignoramos o "amai ao próximo como a si mesmo" ou "atire a primeira pedra quem nunca errou". Amar o Deus utilitário, provedor, branco, pai, agenciado por padres e pastores é investimento, pouco tem de fé, pouco ajuda no enfrentamento das grandes questões do homem: a dor, a solidão, o amor, a morte, o vazio de propósito, a frustração ante a injustiça, o desespero. Transcendência não é produto comercial.

Multiplicam-se nessas redes, discussões em que nenhum argumento, por mais arguto, é capaz de gerar consciência ou mudança. As contradições passam por "opinião", tudo sem esteio de qualquer filtro crítico, racionalidade, bom senso. Deformam-se os dados estatísticos, os fatos, a História, para reafirmar uma perspectiva obtusa de cor, credo, classe. Tudo é o coração, as paixões, o que emociona.

A sensação de vertigem, de galopante desmantelo sociopolitico entre trivialidades cotidianas: reclamações sobre a chuva, o calor, ou postagens cobrando atenção a postagens, correntes; e no meio de tudo anúncios onde o Facebook perscruta e expõe em catálogo nossas aspirações materiais.

Eu que sou pré-facebook-tudo-isso fico pensando como era antes disto, como lidávamos com o enorme vazio existencial e necessidade de premente comunicação e de exposição do que sentimos: passeios, comida, dor de amor alardeada, flertes/xavecagem, propagação de bandeiras, selfie narcísicos, congratulações e condolências.

A resposta a que atinjo é de que o Facebook e outras redes sociais são uma excelente distração existencial, servem a esse momento quando estamos inundados num trabalho que não amamos, frustrados em nossos afetos, ou tomados desse tempo de ócio em que parece que nada acontece, e o silêncio irrompe em nós fazendo a vida parecer fazer bem pouco sentido.

Assim: ver, assistir, e acrescentar linhas "críticas" ao espetáculo da vida que parede descer no parassempre da timeline, dá em nós a ilusão de que estamos atuando, agindo, e por isso estamos, de algum modo, mais vivos, ou melhor, vivendo; (ou) de que a vida passa sem estarmos, de fato, fora dela; (ou) de que somos, ao final, engrenagens dispensaveis dentro de uma engrenagem maior que nos ignora ou nos consome.

Tais redes sociais existem pois, não existindo mais prática cotidiana comunitária que nos ocupe do vazio existencial, a recriamos na forma "virtual" a fim de gritarmos cotidianamente nossa existência e relevância. O paradoxo é usarmos também as redes para denuncia-las como janelas deste vazio, vácuos de uma rede, que nos enreda.

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