sexta-feira, novembro 17, 2017

Linha de passe, de Walter Salles e Daniela Thomas



[Quando assisti, há anos, a este filme de Walter Salles e Daniela Thomas, fiquei profundamente irritado com a representação da periferia de São Paulo. Hoje, caí nesta pequena crítica sobre o filme, e me parece extremamente precisa, não resisti e colo aqui.]




Fabio Diaz Camarneiro

Linha de Passe está permeado pela idéia da maternidade. O cenário é uma São Paulo um tanto inóspita: o único espaço público de convivência é o estádio de futebol. O resto, um mar de concreto de onde o ônibus de Reginaldo parte sem destino, fugindo talvez em busca desse Brasil que ainda não nasceu. A barriga de gestante de Sandra Corveloni concentra a espera pelo que ainda não veio, pelo que ninguém sabe o que será. Essa espera, e a incerteza, são os problemas dos personagens: o filho que não nasceu, a espera pelo salário no fim do mês, a incerteza se o emprego vai durar até a semana seguinte... As formas circulares dominam o filme: a barriga da mãe, a bola de futebol, a roda da motocicleta, o volante do ônibus. Símbolos de caminhos que parecem não sair do lugar, mas que tentam escapar de seus destinos. Espécie de obsessão do cinema de Walter Salles, a procura do pai está lá. Como em Central do Brasil, há uma cena em que personagens “anônimos” dizem nome e sobrenome em voz alta (os remetentes das cartas em Central do Brasil, os candidatos à peneira de futebol em Linha de Passe). A importância do nome próprio tem paralelo com o batismo dos crentes: a esperança de que, encontrando-se um nome (e encontrando-se um pai), as dúvidas sobre o futuro desaparecerão e aquilo que está esperando para nascer poderá, finalmente, vir à luz.

sábado, novembro 11, 2017

Relatório do cidadão Eduardo


Hoje, sai para pagar as contas, todas as contas. Tomei café com o David e pessoal da imobiliária. Irmã baixou aqui de visita. Fiz compras no mercado, coca, frios. Pão quente para todos, para as visitas. Airton passou aqui, com roupas para bater na máquina. Big segue tendo que ser paparicado para comer. Assisto Stranger Things. Reouço aquele primeiro dvd de Maria Rita e canto junto. Anteontem limpeza geral da casa. Mauro. Tudo bem e tudo em ordem. Baixo milhoes de ebooks em formato .epub, .mobi e .pdf. Converto. Mensagens por whattsapp. Notícias trágicas na política, de afundamento pleno do país. Faço militância pró-esquerda até em caixa de supermercado. Cozinho para mim. Como demais. Depois reclamo. Dente dói, tomo antiflamatório e dipirona. Empurrar com a super barriga até quando? Dois cursos para faculdade de Direito aceitos para janeiro. Cursos no Maximize, no fim. Comprei livro de Jogo dos sete erros e dos Labirintos para meu pequeno sobrinho Vittorino. Baixei jogo sensacional, Cuphead e instalei, para jogar com Pedrerico. Converso com Lucas (tristonho) no Whatts. Leio Clarice Lispector, Alice Munro, Machado de Assis. Fui entrevistado pela Record para falar da redação do vestibular. Apaixonado por todos meus alunos. Gabriel vai bem, e sumiu de casa. Solange em viagem, fico com o dever de aguar as plantas. Converço com amigo, colegas de trabalhos, confraternizo e faço planos para o novo ano. O dente dói vezenquando. E abandonei a academia, que se vinga, cobrando em dobro as mensalidades. 

Gosto do silêncio da noite. Sentar e escrever. Escrever é pensar. Escrever é botar ordem, encontrar caminhos. O que um dia foi desenhar. Memórias diárias da mãe. Alguns pesadelos. As unhas roídas como sintoma de ansiedade. Recuso todos os conselhos. Minha irmã leva meu nome para benzer. Trocar fraldas, tosar o cão, limpar banheiro e fazer comprar. O banal da vida recobrindo grandes esperanças. Ao mesmo tempo, o clarão da militância, o aspiração/dever de mudar o pequeno círculo onde existo e exerço algum traço de liberdade. Quero fazer vídeos (já em processo de elaboração) e quero escrever livro didático de redação, além de curso para elaboração de tcc. O Natal chegou. Nada que devia ter resolvido o foi. Mas sigo vivo, e já pensando de mudar deste apartamento que amo, para outro que amarei mais ainda. 

Estranhos e belos


Stranger things I e II


Quando estreou na Netflix esta série Stranger Things, confesso que assisti superficialmente, de modo muito desatento, saltando partes, "gostando", mas achando que nada trazia de novo. Identifiquei de imediato a nostalgia - a cara desta nossa década - em que, sem ser remake dos 80/90, trazia uma colagem de todos os filmes de Steven Spielberg e tramas de Stephen King. Tudo se mostrava tão familiar que não podia ser rejeitado por corações que viveram essas décadas e se apaixonaram por essas tramas cheias de suspense, fantasia sci-fiction e trama edificante que os filmes famílias propagavam nos tempos de então. O inimigo vinha de fora, invadia as pequenas cidades do interior, seus subúrbios, onde garotos digeriam vigorosamente uma cultura pop, deslizavam em magrelas e sofriam bullying dentro e fora da escola. Os adultos, pais displicentes, rigorosos, obtusos, autoritários (ou, em extremos: abusivos) eram tão vilões quanto os monstros alienígenas e agentes do governo. 


Tendo algum tempo, sentei e revi, episódio a episódio, para me deliciar com o carismas dos garotos apaixonados por RPG (do Dangeons Dragons), rock e cinema blockbuster. Fiquei instigado em entender como a série ressuscitava Winona Ryder, uma Star dos 80/90 e símbolo do próprio estilo de filmes de que Stranger Things é tributária. O filme "Super 8", de 2011, dirigido por J.J.Abrams (e produzido por Spielberg) já tratava de resgatar e reabilitar esta nostalgia, que Stranger Things trouxe sem pudor, em todo sua essencialidade para o tempo presente. Não só a época que se passa a trama é nos 80, mas os filtros e o estilo de filmagem emula todos os trejeitos/estratégias e ritmos tomados de Spielberg, Rob Reiner, Richard Donner, Chris Columbus, John Carpenter, Bryan Depalma e Tom Holland. 


Tudo competente, com personagens carismáticos (meninos feios), mães histéricas, namoradinhas recalcitantes e valentões covardes. O clima de conspiração, as florestas escuras e plantações interioranas invadidas por alienígenas e manifestações paranormais envolvendo crianças e aparelhos eletrônicos que permitem a comunicação em universos paralelos: puros 80.

Teminada a primeira temporada, certametne a questão essa, para onde ir. Resolveram então em apostar em mais do mesmo. E deu super certo.
 

Estou assistindo no momento a segunda temporada e, desde já, acho-a mais instigante, sofisticada e elaborada em peripécias e viradas, com belos achados que leva o espectador a um pleno engajamento emocional. As crianças começaram a crescer, e a trama ocupa mais espaço, com mais ação para o núcleo adolescente. 


Mas em termos de atuação, eu estou 100% vidrado na performance de Noah Schnapp, o garotinho raptado pelo Demogorgon e que tinha pouco tempo para brilhar. A atuação dele é tocante, emocional, aterrorizante, é espetacular. Faz Millie Bobby Brown (Eight) parecer apenas competente. Gaten Matarazzo (Dustin) ganhou dentes, mas segue sendo carismático até doer. Caleb MacLaughlin (Lucas), o mais irritante do grupo. Winona Ryder, transubstanciada, apaga qualquer traço de WR em Joyce, ela é aquela mãe maluca e histérica. Sean Austin entra na trama como Bob, namorado de Joyce, para lhe dar alguma alegria depois da primeira temporada, e para ser um contraponto feliz para sua família disfuncional.  Chefe Hopper se tornou um personagem ambíguo, misterioso, neurótico. Nancy, Jonathan e Steve seguem num triângulo fofo delicioso. Finn Wolfhard (Mike) perde em protagonismo, mas abunda em melancolia. Tudo funcionando que é uma beleza. 


A segunda temporada aprofunda em tensão, acrescentando mais horror à trama. Stranger Things está irresistível.

A morte te dá parabens



O filme consegue cruzar o terror slasher (tipo Pânico) e o filme "O feitiço do tempo", fazendo com que a protagonista, no dia do seu aniversário, morra assassinada e acorde sempre no mesmo ponto de partida. Não explica o porquê, mas sugere que esse ciclo de 16 mortes (ela desperta cada vez mais fraca), só terá fim ao descobrir a identidade real do seu assassino (aparentemente, por detrás da máscara), sua motivação, o enfrentamente de derrota do matador. 

De insuportavelmente cínica, a jovem universitária bela e loira desfila num campus e em fraternidades povoada de personagens que são puro estereótipos, ela própria encarando dos clichês de uma garota "vadia", de acordo com a moral burguesa yanke. É tolo, repetitivo, dilui os dois filmes aos quais faz referência, mas diverte com seu humor pobrinho. Baixei e vi. Lamento sempre quem pagou ingresso e foi ver tais genéricos na tela grande. 


Um capítulo de Dom Casmurro

CAPÍTULO LXXXIII - O RETRATO

Gurgel tornou à sala e disse a Capitu que a filha chamava por ela. Eu levantei-me depressa e não achei compostura; metia os olhos pelas cadeiras. Ao contrário, Capitu ergueu-se naturalmente e perguntou-lhe se a febre aumentara.

— Não, disse ele.

Nem sobressalto nem nada, nenhum ar de mistério da parte de Capitu; voltou-se para mim, e disse-me que levasse lembranças a minha mãe e a prima Justina, e que até breve; estendeu-me a mão e enfiou pelo corredor. Todas as minhas invejas foram com ela. Como era possível que Capitu se governasse tão facilmente e eu não?

— Está uma moça, observou Gurgel olhando também para ela.

Murmurei que sim. Na verdade, Capitu ia crescendo às carreiras, as formas arredondavam-se e avigoravam-se com grande intensidade; moralmente, a mesma coisa. Era mulher por dentro e por fora, mulher à direita e à esquerda, mulher por todos os lados, e desde os pés até à cabeça. Esse arvorecer era mais apressado, agora que eu a via de dias a dias; de cada vez que vinha a casa achava-a mais alta e mais cheia; os olhos pareciam ter outra reflexão, e a boca outro império. Gurgel, voltando-se para a parede da sala, onde pendia um retrato de moça, perguntou-me se Capitu era parecida com o retrato.

Um dos costumes da minha vida foi sempre concordar com a opinião provável do meu interlocutor, desde que a matéria não me agrava, aborrece ou impõe. Antes de examinar se efetivamente Capitu era parecida com o retrato, fui respondendo que sim. Então ele disse que era o retrato da mulher dele, e que as pessoas que a conheceram diziam a mesma coisa. Também achava que as feições eram semelhantes, a testa principalmente e os olhos. Quanto ao gênio, era um; pareciam irmãs.

— Finalmente, até a amizade que ela tem a Sanchinha; a mãe não era mais amiga dela... Na vida há dessas semelhanças assim esquisitas.


[Gosto bastante deste capítulo, e sempre que posso, eu o cito em sala de aula. Aparentemente, não diz nada, ou bem pouco, mas é daquelas estratégias inventivas engenhosamente machadianas. Grifei o ponto que me interessa, trata de apontar a semelhança que Gurgel, pai de Sancha (melhor amiga de Capitu, até então) reconhece entre a esposa falecida e Capitu, chega a destacar como similares  "feições, testa e olhos", além do temperamento, diz: "Quanto ao gênio, era um; pareciam irmãs". Este ponto é interessante, pois uma das "provas de acusação" que Bentinho destaca é justamente da semelhança entre o filho e o amigo falecido. Com isso, Machado desarma a "tal prova" indicando que duas pessoas, distantes no tempo e sem qualquer parentesco podem ser muito parecidas, inclusive no modo de agir.] 

sexta-feira, novembro 10, 2017

CONTRA A ONDA REACIONÁRIA

Meu povo do SoulArt







Acho que a gente tem que se reunir como grupo para falar de política, arte, projetos e pensar em medidas contra essa onda conservadora perversa que tomou o Brasil; e essa sequência de ações pós Golpe. Precisamos saber o que nós podemos e como podemos fazer. Se serão videos, se serao cursos, se palestras, se são ações, se serão o que lá quer que seja. Cada dia fico mais deprimido com essa onda de destruição, de intolerância, racismo, negação de fatos, fanatismo religioso, desprezo ao saber/conhecimento a seus instrumentos (livros etc) e agentes (pesquisadores, professores etc).

quinta-feira, outubro 26, 2017

Redação com alunos sobre LGBT's

Por razão do ENEM, e a pedido de alguns alunos, comecei a fazer redações coletivas (em sala de aula) de todos os temas para ENEM e FUVEST possíveis para "cair" em 2017. O primeiro que posto é este, sobre o tema A CRIMINALIZAÇÃO DA HOMOFOBIA NO BRASIL. Foi feito com a turma da tarde, do MAXIMIZE MAUÁ (extensivo tarde), enviado pela Larissa Lopes Santana.


Dia de fazer pão







Hoje dia de fazer pão, aproveitando que tenho uma manhã livre. Pão integral com chia, quinoa, semente de girassol, gergelim, aveia, farinha de maracujá e leite tipo A. Um luxo para tomar com café num dia frio, como o de hoje.











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quinta-feira, outubro 19, 2017

The good place, série da Netflix



Começa bobinho, mas depois da metade, fica mais que adorável. Amando cada segundo esta série de humor lançada pela Netflix.


quarta-feira, outubro 18, 2017

Ouija - a origem do mal.


Tão ruim que dói. E falaram que o primeiro era ainda pior. 


Meus 2 Centavos, de Tiago Belotti

Atualmente, na internet, não há ninguém melhor em termos de crítica cinematográfica inteligente e acessível do que Tiago Belotti. Sagaz, inteligente e nunca condescendente com os filmes. Meu programa preferido. Amo.

MEUS 2 CENTAVOS é o nome do canal. Clique AQUI.



sexta-feira, outubro 13, 2017

Blade Runner 2040, de Denis Villeneuve


Como fazer a continuação de um clássico insuperável numa época de cinema pipoca e telespectadores preguiçosos para filmes que se recusem a ser frenéticos e banais. Aqui, o universo de Philip K. Dick grita em cada frame. As ambiguidades, os paradoxos, o futuro as questões filosóficas sobre o homem e o sentido da vida, a memória (e a história, que nos faz humanos) os limites da criação. 







Pilip K. Dick's Electric Dreams - a série




Ninguém pensou o futuro como Philip K. Dick. Como Stephen King, ele está na moda, com a continuação de Blade Runner, a série O homem do castelo alto. Agora, ele virou uma série entitulada Electric Dreams, contos adaptados com histórias com começo, meio e fim num mundo distópico. Instigante. 



quinta-feira, outubro 12, 2017

Nova direita conservadora não é burra: ela ataca o legado iluminista e o cerne da modernidade

Em um artigo importante para entender a atual investida da extrema-direita neoconvervadora, a cientista social, antropóloga e professora do departamento de Desenvolvimento Internacional da Universidade de Oxford, Rosana Pinheiro-Machado (foto), defende que a inteligência e a artimanha da direita está sendo construída para redefinir a verdade histórica do processo civilizatório desde o iluminismo.

Para ela, é um erro achar que os neoconservadores que pedem “escola sem partido”, atacam obras de arte e outras agressões que beira à estupidez, sejam burros. “Os novos movimentos conservadores, com formação liberal, sabem muito bem que não havia nada de pedofilia nas exposições”, diz. Eles agem para destruir a democracia, para transformar a construção histórica e civilizatória. O artigo é longo, mas vale cada parágrafo.

A nova direita conservadora não despreza o conhecimento

.Por Rosana Pinheiro-Machado.

Os acontecimentos recentes nos museus de Porto Alegre e São Paulo mostraram como foi possível reduzir complexas formas de expressão a rótulos como o de pedofilia. Resta-nos a sensação de que estamos de um cenário empobrecedor e autoritário que comprime diversas camadas de significados em uma resolução encerrada aos gritos.

O populismo da nova direita conservadora se caracteriza pela privação de debates e promessas de soluções fáceis para problemas complexos. Tudo indicaria, portanto, que ela é contra o conhecimento, as artes e a ciência.

Mas não é: a nova direita não é anti-intelectual, mas anti-elite intelectual.

Para além do que aparece na superfície, os neoconservadores possuem um projeto intelectual claro que, por um lado, persegue um tipo de conhecimento e, por outro, procura redefinir uma nova direção para a sociedade global.

Em ambos os casos, o que está em jogo é a produção e a disputa de novos regimes de verdade sobre a humanidade.

Atualmente, há registros da perseguição ao conhecimento crítico e à memória de justiça histórica por todos os lados. Há o resgate de símbolos nazistas. Há a redução de disciplinas de carga horária das ciências humanas nos currículos de diversas grades escolares no mundo todo.

Isso se vincula diretamente a um fenômeno muito maior e estarrecedor: uma mudança de legitimação de retórica – aquilo que é historicamente autorizado a dizer.

Atingindo o coração do conhecimento humanista – tão duramente estabelecido ao longo do século passado – ataca-se o legado iluminista e o cerne dos princípios da modernidade, os quais, apesar de sua dimensão intervencionista, conseguiram criar certo senso de direitos humanos universais, civilização global e humanidade una.

O que os neoconservadores estão alegando é que esse projeto civilizacional não apenas ruiu, mas é o próprio produtor da desigualdade.

Escolas e Universidades

O Brasil está em posição particularmente retrógrada no ataque ao pensamento crítico e humanista. Lá em 2014, quando as faixas das manifestações verde-amarelas pediam menos Paulo Freire já estava claro que um impeachment não era apenas um impeachment: ele vinha acompanhado do espírito autoritário e anti-democrático.

De lá para cá, se a o projeto de lei Escola sem Partido irá ser aprovado, isso pouco importa a essas alturas: é sabido que a lei já é colocada em prática em sala de aula por meio dos estudantes-censores.

Professores estão amedrontados e muitos relatam que acabam não ministrando certos conteúdos para proteger sua integridade ou simplesmente para não se desgastar frente a jovens em alerta para atacar a suposta doutrinação.

Eu mesma vivi uma situação desse tipo. Passei um ano como professora visitante do exterior no Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP) e era parte de minhas obrigações incentivar a internacionalização do conhecimento.

Com esse objetivo em mente, ofereci aos alunos de pós-graduação a mesma disciplina que eu ministrava na Universidade de Oxford, onde lecionei por alguns anos.

A disciplina era sobre movimentos sociais, mas certo dia apareceu nos jornais, sites e redes sociais dos institutos ditos liberais como um curso em que uma colunista da CartaCapital ensinaria Protestos na USP com o dinheiro público.

A forma como esse tipo de notícia se espalha é sempre muito nefasta: usaram minha foto, foram-me dirigidas humilhações verbais nos comentários e, finalmente, muitas pessoas disseram que eu – uma terrorista – deveria morrer.

Eu precisei começar o primeiro dia de aula acionando a segurança da universidade – um cenário que já não se imagina mais ocorrer. Não foi a primeira vez que fui atacada, nem será a última, mas foi a primeira vez em que o problema não era “eu”, mas a produção de conhecimento em si.

Apesar do lado anedótico dessa interpretação que transforma um tema sociológico clássico em “uma aula de protestos”, partir do princípio de que a direita é burra, anti-intelectual e anti-ciência me parece uma aposta equivocada.

Os novos movimentos conservadores, com formação liberal, sabem muito bem que não havia nada de pedofilia nas exposições, da mesma maneira que muitas de suas lideranças jovens estavam cientes que minha disciplina não era para ensinar protestos.

Disputando regimes de verdade

O argumento de que a nova direita conservadora despreza o conhecimento apenas nos coloca na posição de vítimas da história em defesa do sagrado saber – e esse é exatamente o ponto que eles querem provar.

Os neoconservadores também constroem sua identidade a partir da posição de vítima de um tipo de conhecimento: vítima de certo establishment intelectual das universidades e da grande mídia, o qual – ao priorizar determinados grupos – teria virado as costas das pessoas comuns.

A própria democracia seria um projeto sustentado por uma elite intelectual, privilegiando poucos apenas.

A crise do neoliberalismo do século XXI, acirrada pelo desvelamento das relações promiscuas mantidas entre a política e o mercado no mundo todo, serviu como uma luva para fortalecer esse tipo de narrativa acerca da ameaça vermelha.

Embaraçosamente, o primeiro ponto a levantar quando falamos em políticas do conhecimento, é reconhecer que a nova direita se coloca como protetora dos interesses do povo, no momento em que ela associa conhecimento humanista com establishment, elites intelectuais e poder.

Este establishment é a geração 68 que teria vencido no campo intelectual e ajudado a formar certo consenso liberal democrático que conciliava capitalismo e avanço das pautas identitárias.

A disputa por agendas econômicas (neoliberais ou progressistas) do século XXI se constrói por meio de uma guerra que é fundamentalmente discursiva: por palavras, estátuas, símbolos.

É uma guerra pelo estabelecimento de novos discursos que, ao atacar certo projeto moderno, vem com uma agenda econômica embutida. Mas esse cenário de disputas discursivas é uma oportunidade para o campo progressista repensar – seriamente e autonomamente – os rumos da mundialização e que tipo democracia almejamos.

Nós não somos vítimas dessa batalha e o que está em jogo é uma disputa de projetos que lidam com concepções muito profundas sobre a sociedade global, a modernidade e seus impactos na desigualdade.

Entender o funcionamento intelectual dos neoconservadores é parte fundamental para reorganizar resistência. A base da nova direita segue seus próprios intelectuais.

O Manifesto da Nova Direita Francesa, escrito por Alain de Benoist e Charles Champetier se define como uma nova escola de pensamento que procura desenvolver uma “meta política”, disputando espaços revistas acadêmicas, colóquios e conferências.

A história, para eles, “é o resultado de ações e intenções humanas, dentro de enquadramentos de convicções, crenças e representações que providenciam significado e direção [tradução livre]”.

Na mesma direção, o livro Generation Identity, A Declaration of War Against the ‘68ers, escrito por Markus Willinger, outra referência da nova direita, também salienta importância de recuperar uma direção de/para a humanidade e, em sua tese, isso passa pelo retorno ao local, às identidades regionais e ao freio de processos migratórios.

A base da nova direita também não é anti-ciência (ela se coloca contra o dinheiro público investido na ciência, que apenas contentaria a uma elite intelectual), mas entende que é preciso disputar estrategicamente espaços legitimados.

A publicação de um artigo na revista Third World Quarterly, chocou a comunidade científica global ao que fazer elogios ao colonialismo, gerando protestos de acadêmicos do mundo todo.

Esse recente escândalo ocorreu em uma das mais prestigiosas revistas científicas do mundo, a deixando bastante claro que o que está em jogo hoje não é um desprezo ao conhecimento, mas antes uma luta por novas (ou bastante antigas, na verdade) fontes de conhecimento.

Deparamo-nos com a necessidade de voltar a defender o óbvio, ou melhor, aquilo que parecia óbvio, aquilo que acreditávamos que já havíamos superado. Mas não superamos.

Ignorar que o avanço conservador também está equipado intelectualmente é um erro estratégico primário.

Afinal, quando Michel Foucault mencionou que conhecimento é poder, ele estava se referindo à consolidação dos discursos de dominação. O colonialismo e a indústria do desenvolvimento não dominaram o mundo sem uma conhecer o Outro, sem uma parcela significativa de intelectuais e experts a seu dispor.

Se há algo positivo nisso tudo é não nos deixar esquecer conhecimento é poder, mas também é resistência: precisamos conhecer o outro lado e, principalmente, lembrar que o senso de humanidade una, justiça, direitos humanos e equidade é uma verdade que nunca foi totalmente construída e, portanto, ainda precisamos lutar criticamente por ela. (Da Carta Capital)

quarta-feira, outubro 04, 2017

Cuphead





Então consegui baixar finalmente o jogo CUPHEAD.

A Good Marriage, de Peter Askin (2014)


 Péssima adaptação de um conto excelente de Stephen King, péssima pois deturpa a história, distorce e erra feio esvaziando o suspense. Nem os bons atores salvam. 

segunda-feira, outubro 02, 2017

Nossas noites, da Netflix


Drama romântico. Robert Redford e Jane Fonda conta história de dois vizinhos viúvos que resolvem compartilhar a mesma cama para suprir a angústia da solidão. Sempre franco um com o outro, vão se aproximando cada vez mais e se apaixonando. 

Corrente do mal


Um grande filme de terror sobrenatural. Vi na Netflix. Tenso.

Jogo Perigoso, de Stephen King (da Netflix)


Uma adaptação do romance de King adaptado para Netflix. Um suspense inquietante.

Uma mulher fantástica, do chileno Sebastián Lelio



Assisti com Mauro ontem, 1.10.2017, no Reserva Cultural. Um grande filme.

Vittorino fez quatro anos


Como não amar essa pessoa?

quinta-feira, setembro 28, 2017

Krisha,



Drama pesadíssimo sobre família disfunsional, daqueles que o Selton Melo tenta alcançar e ainda não conseguiu. Depois de ano de ausente, Krisha (Krisha Fairchild) se reúne novamente com sua família nas férias. Ela percebe que diante dela está a oportunidade de consertar os erros do passado, cozinhar o peru para a família e provar para seus entes queridos que ela mudou para melhor. Porém, os delírios de Krisha conduzem o feriado para uma experiência atordoante que ninguém vai esquecer.


Angustiante, claustrofóbico, acompanha a insana Krisha, um ser bizarro e autodestrutivo que vem ver a família para destruir qualquer possibilidade real de conciliação. Drogada e alcóolotra, irritante delirante. A direção é engenhosa e brilhante. Muda o aspecto ratio da cena para indicar o desconforto e choque entre a visão de Krisha e o que ocorre em cena. 

Screen Prism

A ghost story



Minimalista. Estranho. Circular. Melancólico. Existencialista. Silencioso. Poético. Inquietante. Misterioso. Voyerista. Místico. Artístico. Niilista. Vida. Morte. Eternidade. Atemporalidade. 


JUDICIÁRIO libera ensino religioso unilateral

Por 6 votos a 5, o Supremo Tribunal Federal (STF), considerou constitucional o ensino público religioso confessional, ou seja, ligado a uma crença específica. Ministros rejeitaram a ação da Procuradoria Geral da República para que as aulas fossem genéricas e abordassem aspectos históricos e sociais das religiões. A partir do julgamento, a matéria confessional pode ser oferecida pelas escolas públicas de forma facultativa.

Votaram pela manutenção do ensino confessional os ministros Alexandre de Moraes, Luiz Edson Fachin, Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski e Cármen Lúcia, que desempatou o caso.

Os ministros Luís Roberto Barroso, Rosa Weber, Luiz Fux, Marco Aurélio, Celso de Mello votaram contra.

Apesar do placar apertado, a decisão causou espanto na comunidade jurídica. Para quem não entendeu a dimensão do que foi julgado, vale destacar que a corte autorizou que escolas públicas de todo o país instituam para seus alunos e alunas ensino religioso confessional – isto é, com crença religiosa. Logo, um ensino confessional teria oração, costumes e tudo o que está ligada à determinada religião. No Brasil, de imensa maioria cristã, é possível imaginar quais religiões serão professadas.

O Justificando conversou com diversos pensadores do Direito e de outras áreas do conhecimento, que rebateram a decisão sob o argumento da violação ao estado laico, das evidentes prioridades reacionárias da corte, e do “ingenuidade” da corte ao estabelecer a ideia de que o ensino será pluralista. As declarações sobre a decisão podem ser lidas abaixo:

Eloísa Machado, Doutora em Direito Constitucional e Coordenadora do curso de Direito da FGV-SP

“A decisão do STF é um grande retrocesso. Toda uma pauta liberal e progressista que vem sofrendo investidas conservadoras no legislativo e no executivo e que ainda aguarda posição do STF fica em suspenso: de código florestal a direito mudança de registro civil das trans.

Assumir a confessionalidade do ensino, além afetar profundamente a lógica do que deve ser a educação pública, laica e inclusiva, abre espaço para uma infinidade de outros problemas. É inadmissível, por exemplo, que os escassos recursos públicos sustentem a doutrinação religiosa nas escolas. Mas o STF não se pronunciou sobre isso”.

Joice Berth, Feminista negra: 

“Trevas. Essa decisão é mais uma assunção de racismo por parte do nosso sistema judiciário, pois sabemos que não será ensino religioso de maneira abrangente e democrática, será sim um esquema de doutrinação neopentecostal, uma imposição de pensamento evangélico, já que essa é uma bancada que só cresce dentro de todas as estruturas políticas. Lamentável e que os pais estejam atentos a essa agressão fascista a laicidade do estado brasileiro”.

Luis Felipe Miguel, Professor de ciência política na UnB: 

“O ensino religioso no Estado laico é uma excrescência. Se as famílias e as igrejas querem dar educação doutrinal às suas crianças, que o façam em seus próprios espaços. Ao interpretar a regra constitucional como sendo a necessidade de inculcação da “religiosidade”, o Supremo rasga a ideia da neutralidade estatal em relação aos diversos sistemas de crença”.

Márcio Sotelo Felippe, Procurador do Estado de São Paulo: 

“Não temos mais constituição. O STF julga ao sabor de injunções políticas ou para agradar setores da opinião pública. São tempos sombrios, uma reação termidoriana que enterra séculos de conquistas iluministas, de avanços no processo civilizatório. Este é um estado de exceção com sabor de fascismo. A inteligência está morta no Brasil”

Renan Quinalha, Doutor em Direito e Professor na Universidade Federal de São Paulo:

“A decisão do STF faz com que o Estado laico promova, nas escolas públicas, o ensino religioso confessional. Isso é um absurdo, pois se está permitindo que religiões se apropriem do espaço público da escola para propagar sua própria fé. Considerando o contexto atual, isso se torna ainda mais grave. Os discursos de “escola sem partido” e “combate à ideologia de gênero” poderão agora contar com o reforço do ensino religioso confessional nas escolas, minando o que restava de laicidade do Estado no sistema de ensino”.

Alexandre Melo Franco Bahia, Professor Doutor de Direito Constitucional na Universidade Federal de Ouro Preto: 

“A decisão do STF afirmando que o Estado Brasileiro deve custear um Ensino Religioso “Confessional Pluralista” ofende a tantas ordens diferentes do Direito que fica difícil definir por onde começar.

Como um Estado Laico pode atuar de forma Confessional? Em que mundo isso faz sentido? Ainda que a maioria queira dizer que esse ensino deve ser “pluralista”, ou eles são muito “inocentes” – e não sabem do que é o ensino religioso na maioria das escolas públicas do país, ou estão assumindo estarem prontos para receberem centenas de pedidos de Reclamação contra – o que acontece todos os dias e agora só vai piorar – o proselitismo fundamentalista e, claro, nada plural, que é feito em escolas públicas todos os dias”.












segunda-feira, setembro 25, 2017

12 Técnicas de oratória

1) Sempre dê algo para o público levar para a casa

2) Não se esquive de responder perguntas

3) Sempre repita as perguntas do público

4) Crie planos alternativos

5) Desenvolva uma rotina pré-apresentação

6) Conte histórias emocionantes

7) Nunca leia seus slides do PowerPoint

8) Não peça desculpas

9) Repita suas frases mais importantes

10) Compartilhe algo que ninguém sabe

11) Conquiste a atenção das pessoas

12) Menos é mais

Fonte AQUI

Análise do filme Ex maquina

Mother!, de Darren Aronofsky


Um casal vive em um imenso casarão no campo. Enquanto a jovem esposa (Jennifer Lawrence) passa os dias restaurando o lugar, afetado por um incêndio no passado, o marido mais velho (Javier Bardem) tenta desesperadamente recuperar a inspiração para voltar a escrever os poemas que o tornaram famoso. Os dias pacíficos se transformam com a chegada de uma série de visitantes que se impõem à rotina do casal e escondem suas verdadeiras intenções.




Assisti no Cine Belas Artes com Mauro, sábado, 23.9.17. Um filme perturbador, como se fosse a encenação de um pesadelo. Depois, encontrando análises interessantíssimas do conteúdo bíblico, entendi que se trata de uma alegoria da criação, da Gênesis ao Apocalipse.






sexta-feira, setembro 22, 2017

Reader's Digest, cantado por Tiago Nacarato e João Gusmão





Quero a vida pacata que acata o destino sem desatino
Sem birra nem mossa, que só coça quando lhe dá comichão
À frente uma estrada, não muito encurvada atrás a carroça
grande e grossa que eu possa arrastar sem fazer pó no chão
e já agora a gravata, com o nó que me ata bem o pescoço
para que o alvoroço, o tremoço e o almoço demorem a entrar
quero ter um sofá e no peito um crachá quero ser funcionário
com cargo honorário e carga de horário e um ponto a picar

Vou dizer que sim, ser assim assim, assinar a readers digest
haja este sonho que desde rebento acalento em mim
ter mulher fiel, filhos, fado, anel, e lua de mel em França
abrandando a dança, descansado até ao fim

Quero ter um t1, ter um cão e um gato e um fato escuro
barbear e rosto, pagar o imposto, disposto a tanto
quem sabe amiúde brindar à saúde com um copo de vinho,
saudar o vizinho, acender uma vela ao santo
Quero vida pacata, pataca, gravata, sapato barato
basta na boca uma sopa com pão, com cupão de desconto
emprego, sossego, renego o chamego e faço de conta
fato janota, quota na conta e a nota de conto

Vou dizer que sim ser assim assim assinar a readers digest
haja este sonho que desde rebento acalento em mim
ter mulher fiel, filhos, fado, anel, e lua de mel em França
abrandando a dança, descansado até ao fim

quinta-feira, setembro 21, 2017

Contratempo, de Oriol Paulo (2016)


Contratempo, suspense catalão de Oriol Paulo. Adrian desperta em um hotel, e encontra sua amante morta coberta de dinheiro. Ele recorre a melhor advogada de defesa, e eles tentam descobrir o que realmente aconteceu na noite anterior.

Maioria penal, uma charge


Sete irmãs



Sete irmãs, uma série da Netflix. Na distopia futurista em que toda família só pode ter um filho, nascem sete meninas. Cada uma ganha o nome de um dia da semana, e chegam a vida adulta compartilhando um nome oficial para viver no mundo exterior. Muitas possibilidade no enredo, e o excesso pirotécnico e o pior caminho para o filme. 



quarta-feira, setembro 20, 2017

PAC 2017


Estive nesta reunião do PAC/UFRJ, setembro de 2017.