quinta-feira, setembro 21, 2017

Maioria penal, uma charge


Sete irmãs



Sete irmãs, uma série da Netflix. Na distopia futurista em que toda família só pode ter um filho, nascem sete meninas. Cada uma ganha o nome de um dia da semana, e chegam a vida adulta compartilhando um nome oficial para viver no mundo exterior. Muitas possibilidade no enredo, e o excesso pirotécnico e o pior caminho para o filme. 



quarta-feira, setembro 20, 2017

PAC 2017


Estive nesta reunião do PAC/UFRJ, setembro de 2017.

Uma foto do casamento de Janete


Estávamos lindos: Jocelene, João, Janete e eu.

Filme e grandes performances

http://www.cinefiliaincandescente.com/2017/03/top10-dez-filmes-com-atuacoes.html

Um post no facebook 20.9.17

Não vou fazer post ou alimentar a polêmica da semana.Façam vocês, leio, aprovo. Mas Isso tudo é muito cansativo. A cada semana, nova pauta: esporradores de ônibus, o fechamento da exposição, a ausência da Lady Gaga, a venda da Amazônia para mineradores, a terra voltando a ser plana, a desilusão com Games of Thrones, o direito ou não a ser palmiteiro, a apropriação com ou sem turbante africano. Pautas se sucedendo incessantemente e que acabam perdidas na profusão do nada, sem desenvolvimento, sem conclusão, provocando mais angústia e desilusão acerca do indigência intelectual de muitos brasileiros; tudo cheirando a oportunismo, sadismo, a cafajestagem geral. Tou fora desta hoje.

Moralismo e ciência


Buster Keaton


A beleza numa imagem.

Escritos à margem (a presença de autores de periferia na cena literária brasileira), de Paulo Roberto Tonani do Patrocínio


Escritos à margem (a presença de autores de periferia na cena literária brasileira), de Paulo Roberto Tonani do Patrocínio

segunda-feira, setembro 18, 2017

No Rio

Fui ao Rio dia 13.9, quinta, a meia noite  e estava de volta dia 16.9 para dar aula de redação no Tatuapé. Conversa com Jô com direito a jantar na rua Lapa e encontro/jantar no dia seguinte com a gravidíssima Janete. Ótimos debates no PACC na quinta. Encontrei no shopping Leblon moça para prestação de contas da FAPERJ. Susto. Esbarrei por acidente duas vezes com Tiago. Fazia sol, o dia estava lindo, mas eu não estava no clima de Rio. 

Exposição Tropicália, CCBB-Rio


De passagem rápida no Rio, fui ao CCBB ver essa exposição lindamente cenografada sobre a Tropicália. Imperdível.

Love, Marilyn (2012)


Belo documentário para buscar entender a grande criação de Marilyn Monroe: a si mesma.

Quanto mais quente melhor, de Billy Wilder


Assistido em parte com Gabriel. Sempre bom rever Marylin.

It, a coisa, de Stephen King


Romance de Stephen King finalmente adaptado com qualidade para o cinema (em duas partes, lançada até o momento a primeira), faz juz ao univeso de King. A cidadezinha interiorana revista com nostalgia (por que a trama se passa nos anos 80) onde o sobrenatural se instaura é de novo foco do autor. Agora é uma criatura perversa que sequestra e mata crianças e jovens que precisa ser descoberta e enfretada por um grupos de crianças pré-adolescentes. A trama de amizade entre meninos, a descoberta dos afetos e da sexualidade, o clima de violência generalizado com adultos mais perversos do que a criatura que se personifica no palhaço Pennywise. 

A janela secreta, de David Koepp


Baseado num conto de Stephen King - Janela secreta, jardim secreto. Passou batido e não tinha assistido até este ano. Um suspense com poucos personagens mas muito king, com um escritor isolado numa casa, com bloqueio criativo, em crise com a ex-esposa (com desejo de morte e vingança) que começa ser perseguido/ameaçado por um desconhecido, num crescendo paranóico em que a razão e a insanidade começam a se sobrepor. Fraco, mas interessante. 

Instinto Selvagem, Paul Verhoeven


Reassisti para confirmar o quão hitchcoquiano é este filme de Paul Verhoeven. Mostra que o cinemão pode ser profundo, chegar longe no examente do desejo, trabalhando com metalinguagem e repensando a mudança da mulher na sociedade/tempo. Um suspense pautado num erotismo feroz, violento, trangressor, pop e polêmico, ou seja, bastante Paul Verhoeven. A mulher fatal e o investigador engendrado numa trama construída para enreda-lo. Exemplo das infinitas possibilidade de reinvenção do noir. 

Party girl


Party girl é um grande filme. Uma striper chegada já à velhice recebe proposta de casamento, mas a sua incapacidade de abandonar o universo em que sempre viveu e de reconhecer a passagem do tempo faz naufragar um destino mais estável.

Conta Comigo, Bob Reiner


Sentei para rever essa adaptação do conto O corpo, de Stephen King (presente no livro As quatro estações). Filme que vi em video cassete, filme da infância, cheio de belezas e memórias.



À espera de um milagre, de Frank Darabont


Reassisti essa adaptação de um conto de Stephen King, mais uma de Frank Darabont, que já havia feito Um sonho de Liberdade e depois faria A névoa. Excelente diretor atento para precisão do estilo clássico de direção, mas permeado de delicadeza. . 

Victor ou Victória, de Blake Edwards.


Reassisti em casa com Gabriel. Bela comédia musical de Blake Edwards. 


A visita da velha senhora, Teatro Popular do SESI



Fui ao Teatro Popular do SESI e assisti com Gabriel e Mauro A visita da velha senhora, texto de Friedrich Durrenmatt, direção de Luiz Villaça. Fábula interessante sobre a hipocrisia e maleabilidade da Moral e da Justiça ante os interesses econômicos. dinâmica mas perdida entre ser brechtiana e superprodução, achata o texto com o excesso de pirotecnia. 


quarta-feira, setembro 06, 2017

Sobre Stephen King e Escuridão Total, sem estrelas


Retomei a leitura do conto que não havia lido, "1922". Escuridão total sem estrelas, de Stephen King traz quatro narrativas longas, uma melhor que o outra e numa linguagem excelente, o que é raro, já que King é um escritor desleixado e prolixo.

Cada conto sai pronto para uma adaptação cinematográfica. King não é um estilista, a linguagem não lhe interessa, mas a fábula/enredo, a caracterização e complexidade psicológica dos personagens. Para ele, os diálogos tem que ser fiéis ao universo cultural dos personagens e ao narrador trata uma contenção distanciada, embora frequentemente, por trabalhar com narrativas em primeira pessoas, embaralham-se esses dois elementos. 

Mas o que Stephen King é de fato, é um escritor épico, no sentido de que enfatiza as ações. É por meio delas que o leitor chega à psicologia do personagem, suas motivações etc. A interação com o entorno e outros personagens em vez de longas digressões ou firulas são marcas do seu estilo, quase sempre direto, limpo, convencional e objetivo. Isso nos bons livros, já que em muitos ele se perde no grotesco e na escatologia (sendo ou não a narrativa calcada no terror físico, psicológico ou sobrenatural). Há algo de inegavelmente tosco, vulgar, prosaico em King. Ele recusa a natureza intelectual que frequentemente envolve o campo das letras, para ele um bom escritor tem que ser um contador de histórias, envolver o leitor, suscitar emoções, instigar, entreter. Não lhe interessa camadas profundas de significação, embora frequentemente coloque autoria, escrita e bloqueio como elemento central de suas tramas, uma forma de trazer para o plano do concreto questões mais profundas da criação narrativa. Um bom exemplo disto é Misery/Louca obsessão, uma alegoria do alcool e das drogas e da angústia da criação. 



O campo dos Estudos Literários ignora e despreza Stephen King, talvez por que para esse o enredo/fábula é uma vulgaridade. E eu acho isso estranho, já que autores como Jorge Luís Borges  a defendeu como fundamental, destacando grandes criadores de enredo como o próprio Cervantes. Mas não podem negar que King domina o métier. Seu livro Sobre a escrita, a arte em memórias, trata justamente do seu processo de construção da narrativa, da dita "inspiração" ao processo prático de composição de romances e contos. Tem uma visão nada acadêmica, em muitos pontos questionáveis do fazer literário, mas instigante, já que ele é um dos criadores mais inventivos, produtivos e bem sucedido comercialmente. É possível odiar odiar suas tramas de suspense, terror e ficção, mas o século XX e XXI não seria o mesmo sem filmes como O iluminado, de Stanley Kubrick; Carrie, de Bryan Depalma; A hora da zona morta, de David Cronemberg; Conta comigo e Louca obsessão, de Rob Reiner; Um sonho de liberdade e À espera de um milagre, de Frank Darabont. Sem falar de tantos outros filmes extraordinários que surgiram de sua imaginação. 



Stephen King, com o tempo começou a fazer livros extensos demais, com narrativas que poderiam ocupar um terço do tamanho. King é produtivo, mas extremamente irregular na qualidade do que produz, por isso também prefiro ler seus contos. O conto exige uma contensão/síntese e uma precisão que lhe faz bem. Ele é um excelente contista, tanto na short story quanto no conto mais longo e na novela. Discipulo de Poe, ele busca o efeito da surpresa final e escreve já de olho no desfecho; sabe como e quando fisgar o leitor. Por isso aconselho sempre seus livros de contos, que trazem muitas narrativas - várias delas foram adaptadas e viraram filmes, curtas (episódios em séries televisivas) e seriados. 



Recentemente a editora SUMA adquiriu os direitos de King passou a publicá-lo em edições muito bem cuidadas, da tradução ao design do livro. Escuridão total, sem estrelas é o melhor exemplo: a capa, as fontes do título e as laterais das páginas são negras, só há o branco na lombada, tudo em consonância com o título, configurando-se sim um "objeto-livro".

Dos livros de contos, eu recomendo: Sombras da noite (o primeiro que li, e cheio de obras-primas do conto), Pesadelos e paisagens noturnas I e II (dois volumes independentes), Quatro estações, Tripulação de esqueletos, O bazar dos sonhos ruins e Ao cair da noite. Muitos desses livros trazem, anteposto ao conto, um comentário de King sobre o contexto e/ou a motivação do conto, onde foi publicado e por que lhe interessou a temática. Ou seja, um plus, uma espécie de making off da narrativa, o que é raro entre escritores. 





Escuridão total, sem estrelas traz quatro contos:

1922
Preste a ocorrer a Grande Depressão, Esposa é assassinada pelo marido e pelo filho que pretendem ficar com as terras herdadas por ela. 

Gigante do volante
Escritora é estuprada e começa a investigar o autor do crime para vingar-se. 

Extensão justa
Um sujeito com câncer faz um pacto com o diabo para extender seu tempo de vida, sacrificando com isso a vida do melhor amigo.

Um bom casamento
Esposa descobre que seu marido é um serial killer e elabora um modo de fazê-lo pagar por seus crimes. 

Não há propriamente terror, mas as tramas são engendradas de modo inteligente e o suspense é mantido da primeira a última linha. Brilhante. 

Alfredo Chamal, hiper realismo com caneta Bic








Polaroides de Andrei Tarkovski












O INSTAGRAM DA CINDY SHERMAN #VIVIEUVI

https://youtu.be/957ZVnTvDRA

sábado, setembro 02, 2017

Nuno Ramos faz impeachment ser narrado em bossa nova no 'JN'


SILAS MARTÍ
DE SÃO PAULO

31/08/2017  23h06

Na bancada do "Jornal Nacional", William Bonner e Renata Vasconcellos viraram os improváveis intérpretes de uma robótica canção de protesto. Os âncoras do noticiário da Globo tiveram suas falas sampleadas, processadas e remixadas até parecerem cantarolar "Lígia", clássico da bossa nova de Tom Jobim.

Nuno Ramos é o autor desse bizarro ato de sabotagem. E não usou qualquer fala dos jornalistas. Os sons picotados foram pinçados pelo artista plástico de duas edições específicas do programa –os dias 16 de março e 31 de agosto do ano passado.

Na primeira data, o telejornal noticiava o vazamento da gravação de um telefonema entre Lula e a então presidente Dilma Rousseff sobre a ida de seu padrinho político para o ministério, marco importante na escalada da turbulência política que levaria mais tarde ao impeachment.

Em seguida, vem a edição que abriu com o saldo da votação no Senado que encerrou o mandato da primeira presidente mulher do país.

Na canção de Jobim, escrita em 1972, no auge da ditadura militar, e gravada depois por João Gilberto, Gal Costa e Chico Buarque, entre outros, Lígia é a mulher de olhos castanhos "que metem mais medo que um raio de sol" no eu lírico, que declara nunca poder se apaixonar por ela –seria um enorme sofrimento.

Ramos parece contrastar nesse trabalho dois tempos conturbados da história do país. A ditadura embalada por uma bossa nova mergulhada no escapismo, de belas mulheres desfilando nas areias de Ipanema, ao momento em que uma controversa decisão política entendida como golpe de Estado por parte significativa do eleitorado afundou o Brasil num mar turvo de instabilidade.

Nesses dois momentos de desilusão e incerteza, as notícias já chegavam às massas direto da bancada do "Jornal Nacional", noticiário de maior audiência do país. Na superfície o artista parece atacar a chamada "mídia golpista" –sendo a TV Globo um alvo constante dos protestos que tomaram as ruas.

Sua maneira de dar uma versão alternativa dos fatos respeita também o mesmo mecanismo. "Lígia", o vídeo, vai ao ar on-line ao longo deste mês no site Aarea.co nos mesmos horários que o telejornal, tendo o sinal cortado nos intervalos comerciais.

É algo quase retrô num mundo tomado por canais de vídeo sob demanda, em que tudo pode ser visto em qualquer lugar a qualquer hora via streaming. Ramos subverte e questiona, nesse sentido, a ideia de amálgama entre passado, presente e futuro que nasceu com a internet.

E escolhe a bossa nova como trilha sonora de um pesadelo. Existe um humor involuntário na seriedade dos âncoras que roça a melancólica letra de entardeceres solitários à beira do Atlântico.

Também chega a ser exaustivo, lembrando outras obras de pegada política mais explícita do artista, como a leitura dos nomes dos 111 mortos no massacre do Carandiru ao longo de 24 horas ininterruptas.

Ramos agora funde a notícia à música para forjar uma ópera-bufa, um lamento por dias que nunca chegarão embora já venham emoldurados pela parafernália visual de um plantão de notícias -as novidades amargas a inundar este país anestesiado.

FONTE AQUI

terça-feira, agosto 29, 2017

Super interessante, Sapiens


Das coisas que leio.

Paladas de Alexandria, tradução de José Paulo Paes

1.

Acaso estamos mortos e só aparentamos
Estar vivos, nós gregos caídos em desgraça,
Que imaginamos a vida semelhante a um sonho,
Ou estamos vivos e foi a vida que morreu?



2.

Um palco, a vida, e uma comédia; ou aprendes a dançar, deixando
A sisudez de lado, ou lhe aguentarás as dores.



3.

Só isso, a vida: um instante de prazer. Para longe, mágoas.
Se é tão breve a existência dos homens, que venha Baco
Com suas danças, coroas de flores, mulheres.
Hoje quero ser feliz – ninguém sabe nada do amanhã.











[Paladas foi um epigramista do século IV d.C.]

Sapiens: Uma Breve História da Humanidade



Sapiens: Uma Breve História da Humanidade é um livro de Yuval Harari publicado primeiramente em 2014, embora tenha sido lançado originalmente em Israel em 2011, com o título Uma Breve História do Gênero Humano. Harari cita o livro Armas, Germes e Aço, do autor Jared Diamond Como uma das maiores inspirações para o livro, mostrando que ele era possível "fazer muitas grandes perguntas e respondê-las cientificamente". Diamond caracterizou o livro como uma obra que "Ilumina as grandes questões da história e do mundo moderno"


[Comprei na Livraria Cultura, através do aluno Eduardo Seiji (paguei R$ 37,00). É o livro da moda, me pareceu interessante pela abordagem que populariza o discurso científico para as grandes massas, tipo Mundo de Sofia. Pode ser interessante.]

segunda-feira, agosto 28, 2017

Bingo, o rei das manhas, de Daniel Resende



Começa bem, diverte depois vai entendiando e termina insuportavelmente como um filme moral. 

Não aprecio cinebiografias, não esperava nada de Vladimir Brichta que é um ator limitadíssimo - se comparado aos amigos Vagner Moura e Lázaro Ramos - por ser incapaz de compor um personagem indistinto de qualquer outro que já fez. Mas Bingo é o Bozo, e tinha uma série de elementos interessantes da biografia do ator Arlindo Barreto para acrescentar ao personagem, ao mesmo tempo que mostraria os bastidores dos programas de tevê dos anos 80, quando não havia patrulhamento politicamente correto, e valia tudo pela audiência. 

A encenação da trajetória de um ator de parcos recursos na pele do palhaço Bingo/Bozo poderia render mais. Temos no filme o tom jogoso que se espalha entre todos os personagem, todos com máscaras, todos caricaturas, sem densidade, reiterando cacos/gags. A mãe de Bingo é uma atriz veterana com postura de diva; a ex-esposa é uma estrela caricata de novela de tevê; o filho é o menino carente sempre chateado com a ausência do pai; os donos de emissoras são os velhos capitalistas visando ao lucro e apostando no quanto pior melhor; o gringo americano - dono da marca Bingo - é tão somente um gringo tolo e manipulável; a diretora do programa é uma evangélica durona que não cede a tentações e investidas do ator; o camera-man é um malandro cínico que vai contribuir para "levar" Bingo para o "mau caminho". Se reproduzem a história real e pessoas reais (alguns nomes trocados, para evitar processo?), espanta que o mundo produza tanta gente que corresponda a todos os clichês presentes num melodrama. Digo isto, pois todos me parecem previsíveis, cumprem um script sem curva, presos a figuras planas que são, sem um traço de variação e complexidade. Se Arlindo Barreto, o ator que interpretou o Bozo, era um canastração de pornochanchada, o papel do palhaço lhe assentará como uma luva, já que Bingo nada mais é que um pseudo palhaço, canastrão e politicamente incorreto. A conversão final, na igreja, em nada destoa, portanto, de uma parábola clichê de redenção.





Há um fetiche de mostrar Vladimir Brichta de cuecas em cenas forçadas e gratuitas, fetiche de flagrá-lo cheirando cocaina ou bêbado, fetiche de mostrá-lo transando com uma galeria de dançarinas sem nome, identidade etc. A câmera parece se deliciar com seus vícios, tudo se contraponto ao pai amoroso que sempre foi, mas que ao virar o Bingo, começa a naufragar. Vício e virtude, sexo e ternura, devassidão e amor à família, o maniqueísmo do melodrama já aponta para derrocada e para urgente necessidade de redenção apontada na figura feminina santinha que não se permite corromper. 

Mesmo assim, Bingo/Bozo nunca deixa de nos ser simpático, nunca parece realmente em perigo real, sua piores falhas sendo a vaidade ou as omissões em relação ao filho (do tipo: faltar aos encontros, às festinhas de aniversário, esquecê-lo na porta da escola etc). O pecado supremo: não permitir, por força do contrato com a emissora, que ele revele aos "amiguinhos" ser o pai o homem por trás da máscara de palhaço. Aliás, o anonimato para o ator de Bingo é seu maior sofrimento.





O filme Bingo então começa a se arrastar. Vira só um dramalhão sobre um cara que torra toda a grana em pó, desfila de cuecas e brada algumas obscenidades fora do ar, um cara omisso em relação a família. Em síntese é isso. Ter sucesso para ele é uma forma de vingança contra os que não reconheceram seu "talento". Não há nenhum outro aspecto a ser explorado para além deste de estar decepcionando o filho.



Quando tudo desaba, perde a mãe, se fere dando porrada na tevê, caindo drogado e bêbado. O desfecho só pode ser a conversão em cristão e palestrante em igrejas. Redimido, pode se casar com a virginal balzaquiana produtora do programa. Perdido o papel de Bingo e já distante da corrupção da fama e do dinheiro advindo da televisão, só lhe resta tornar a ser: ex-ator pornô, ex-palhaço, ex-tudo.

Seriam as grandes emissoras as vilãs da história ou o vício? Não, a televisão está poupada, ela só é impecilho para que Bingo se revele em todo seu explendor. Não há um Silvio Santos na jogada, e os diretores da emissora concorrente enfatizam a caricatura. A mãe de Bingo, no ostracismo, ressentida e infeliz, morrerá deprimida ao perder o papel numa novela. Bingo se rebela no enterro, deixando entender que a televisão seria responsável por "sugar" o talento do artista, não valorizá-lo e por fim descartá-lo.


Talvez o problema não seja o filme, mas a mim, como espectador/crítico. A boa crítica deve se fundamentar no que o filme é e não naquilo que ele deveria ser.

Dito isto, para mim (e isto é bastante pessoal), focar o filme só no protagonista me parece insuficiente. Mostrar como os anos 90 foram politicamente incorretos, com suas canções de sentido sexual, com a vulgaridade das atrações, sem mirar o quadro todo, do país, do tempo, fixando-se tão somente no drama individual, me pareceu empobrecedor. Neste sentido, nem sempre (quase nunca) uma vida "dá um filme". Por isso, os melhores filmes biográficos são aqueles em que a vida surja reinventada livremente, menos fiel ao biografado, mas usando-o de trampolim para além do homem. Penso em Cidadão Kane, penso em Piaf, nos documentários de Nina Simone e de Susan Sontag.[ Ok, documentário é outra coisa]. Mas estou eu já, querendo demais da Globofilmes e do Daniel Resende. 



Tecnicamente o filme é ótimo. A cenografia é de primeira, os atores não tem bilho mas estão ok. A fotografia é vibrante, bela, mas a direção não se empenha em fazer cinema, narra ilustrando, sem criatividade nos planos e movimentos de câmera, sem deixar lacuna, nada a preencher ou apontar para outros sentidos. Filme acessível, fácil, para o publicão, sem pleitear ser arte, sem risco, todo televisivo, com muito cuidado para não ferir susceptibilidades, chocar demais (apesar do tema, mas até a cocaina e o sexo no filme é soft), entretenimento feito parábola moral.

O jogo sujo prevalece mais que nunca nas redes de tevê, a manipulação do espectador, o cinismo, a falta de ética, o talento para vender o pior dentro de um "padrão de qualidade" sem olho para inteligência não mudou. Mas isso é bem tangencial.

O filme Bingo não se distingue de um telefilme, é competente e sem brilho. Brichta segue sendo Brichta. Terminado o filme, nada fica, a não ser aquele discurso moral que aponta para o novo caminho da tevê e do cinema: conquistar o público evangélico, neste objetivo, resgatar valores cristãos, a moral, a família. Subversões possíveis devem ser purgadas, os pecados puníveis: arrependimento e conversão. A velha vida em preto e branco.