sexta-feira, outubro 28, 2016

Deixa que eu falo, documentário de Eduardo Escorel sobre León Hirszman


Documentário apresenta a biografia do cineasta Leon Hirszman, diretor do Cinema Novo que realizou 11 curtas e cinco longa-metragens entre 1962 e 1986.


Lançado em 2007, Deixa que eu falo revê a trajetória de Leon Hirszman por meio de sua obra e imagens de arquivo. Os depoimentos do próprio homenageado conduzem o ritmo da produção, que traça a síntese das esperanças e das frustrações de toda uma geração.
Amigo e parceiro Hirszman, o diretor Eduardo Escorel montou três longas da importante filmografia deixada pelo cineasta: Nelson Cavaquinho, São Bernardo e Eles Não Usam Black Tie.
Inédito. 82 min
Classificação Indicativa: Livre
Ano: 2007
Gênero: documentário
Direção: Eduardo Escorel
Narração: Leon Hirszman

quinta-feira, outubro 27, 2016

Amor, orgulho e dignidade



O amor sempre terá um limite: a dignidade. Porque o respeito que cada um de nós temos por nós mesmos tem um preço muito alto e jamais irá aceitar cortes para saciar um amor que não é suficiente, que machuca e nos deixa vulneráveis.

Dizia Pablo Neruda que o amor é curto e o esquecimento é muito longo. Mas no entremeio sempre há aquela “luz de vagalume” que se acende de forma natural nas noites escuras para nos indicar onde é o limite, para nos lembrar que é melhor um esquecimento longo do que uma grande tormenta na qual acabamos vendendo a nossa dignidade.

Às vezes o melhor remédio é esquecer o que se sente para recordar o que valemos. Porque a dignidade não deve ser perdida por ninguém, porque o amor não se roga nem se suplica, e embora nunca se deva perder um amor por orgulho, também não se deve perder a dignidade por amor.

Acredite ou não, a dignidade é esse elo frágil e delicado que tantas vezes comprometemos, que pode romper e desfazer as ligações dos nossos relacionamentos amorosos. 

(...)

Muitas pessoas costumam dizer que o ego alimenta o orgulho e o espírito alimenta a dignidade. De qualquer forma, estas duas dimensões psicológicas são duas habitantes cotidianas das complexas ilhas de relacionamentos amorosos, que às vezes costumam ser confundidas.

Black Mirror


Série britânica de ficção científica extremamente elaborada, e por isso, com pouquíssimos episódios e apenas três temporadas. Na linha, além da imaginação, tem por diferencial tratar sempre de um futuro próximo (pensado para daqui a cinco ou dez anos), sempre paranóico, pessimista, mostrando o efeito da tecnologia da informação (a internet, a mídia, os aparatos móveis, a cultura dos realitys shows e das celebridades instantâneas) e do terrorismo nas sociedades atuais. O diagnóstico é que a tecnologia só faz recrudescer os instintos mais primitivos do homem, a tirania (com o hiper controle), a exclusão e o medo, fazendo tudo explodir em violência e brutalidade. Há algo mais que niilismo nas narrativas, o grotesco surge do entrecruzar do homem subjulgado e absorvido/mesmerizado pela tecnologia/máquinas/ciência. Cada episódio é um soco no estômago, e a terceira temporada, completa, uma obra-prima.

10 ENSAIOS SOBRE 10 CANÇOES, de Arthur Nestrovski



Organização de Arthur Nestrovski
Publifolha, SP, 2007.

Nesses dez ensaios sobre dez grandes canções da música popular brasileira compõe não só uma série de estudos detalhados sobre as canções, mas também, um fórum de discussão sobre a cultura brasileira da atualidade, comentada de ângulos bem diferentes. Toda uma gama de períodos e estilos aparece aqui, iluminada pelos comentários dos ensaístas. Organizado pelo músico e crítico musical Arthur Nestrovski, "Lendo Música" é de interesse para todos os que têm na canção popular uma fonte de conhecimento e prazer, além de uma referência sobre o que, como e por que se vive no Brasil. A canção é uma de nossas verdades, traduzindo de modo único as contradições e felicidades da cultura. Ou melhor: a canção são muitas verdades, prontas para serem sublinhadas, negadas ou celebradas por cada um de nós, lendo música. 

Esquadros
por Noemi Jaffe
(Esquadros, de Adriana Calcanhotto)

Gua: um ideograma para ibualama
por Antonio risério
(Gua, de Caetano Veloso)

Cinema-canção
Francisco Bosco
(Em busca da batida perfeita, Marcelo D2)

C-I-D-A-D-E- D-E-D-E-U-S
Hermano Vianna
(C-D-D, de Cidinho e Doca)

Sala de Recepção
Maria Rita Kehl
(Sala de receção, de Cartola)

Aquarela do Brasil
Marcos Napolitano
(Aquarela do Brasil, de Ary Barroso)

Matita Perê
Celso Loureiro Chaves
(Matita Perê, de Tom Jobim)

O fruto do nosso amor
Samuel Araújo
(O fruto do nosso amor, de Amado Batista)

"Diário de um detento": uma interpretação
Walter Garcia
(DDD, de Racionais MC's)

Os sonhos dos outros
Lorenzo Mammi
(Sonhei, de Luiz Tatit)

A medida áurea ou fibonaci no caos do banal


Amigos vizinhos, vizinhos amigos


Airton veio me visitar e adorou meu prédio, meu apartamento. Disse que, embora concorrido, quando surgisse um vago avisaria a ele. Conversei com David na imobiliária, Airton e Clarissa fecharam acordo, e meu amigo Airton virou meu vizinho de porta, eu 78 ele 77. Algum tempo depois, Solange veio nos visitar, adorou o prédio, os apartamentos. Disse que quando surgisse um apartamento etc etc etc. Mora agora no quinto andar, apartamento 57. Desde então, guardamos as chaves uns dos outros, ele cuidou do meu cachorro quando eu viajei, e eu aguei as plantas de Solando, quando foi a Bahia. Airton e Clarisse são mestres em temakes, comida japonesa e guacamole. Por que me emprestavam a máquina de pão, acabei comprando a minha. Solange faz comidas apimentadas, carnes, massas. Uma maravilha. Eu faço bolos e pães, e levo para eles. E ambos organizam reuniões em casa, com amigos, para beber, comer e bater papos; e assim vamos ampliando os círculos de amizade. Se chego de madrugada faminto, há sempre algo a compartilhar, pois são tão notívagos quanto eu. Conversamos, trocamos figurinhas sobre filmes, livros, músicas, desenhos, artes, viagens, passeios. Falamos sobre a vida e jogamos papo fora. E assim, vamos formando uma comunidade que torna possível, no horror que o país se tornou pós-Golpe, o encontro, a troca e a fraterna amizade. São amizades de mais de vinte anos. Tenho amor por eles, e confesso que eles me fazem uma pessoa melhor e mais feliz. 



academia, suor eterno


Charge sobre o Brasil, 2016


A morte e a morte de Quincas Berro Dágua


Roubei postado do Facebook, parece tirado da novela de Jorge Amado, A morte e a morte de Quincas Berro Dágua.

Um post político


Ao Lucas, sempre


Amo meus sobrinhos. Com Lucas, que atualmente vive/estuda na Áustria, falo quase que diariamente. Dia desses ele fez aniversário, e recuperei aqui do revide esta postagem.

Imagens do inconsciente - Nise da Siveira e Leon Hirszman

Documentário genial de Leon Hirszman sobre Nise da Siveira, música de Jards Macalé, narração de Ferreira Gullar. Surpreendente como esmiúça o sentido da arte e sua conexão mais profunda com o inconsciente, com o mito, com teorias junguianas. Além de um mergulho no trabalho terapeutico singular de Nise da Silveira, uma aula sobre os sentidos da Arte.

Imagens do Inconsciente, de Leon Hirszman, produzido entre 1983 e 1985, surgiu de um grande trabalho de cooperação entre Leon Hirszman e a psicanalista junguiana Nise da Silveira.



Questionário de uma aluna, que postei no Facebook



Uma aluna do Cursinho me mandou umas perguntas sobre o que fazer às vésperas do ENEM/VESTIBULAR. Está ai abaixo minha resposta. É textão, mas é para interessados, os demais, ignorem, como costumam fazer quando o tema não é banal.

A) Quando vc fez vestibular, qual foi sua maior dificuldade? E como superou?
A única dificuldade do Vestibular foi escolher a área, a prova fiz bastante descomprometido na FSA. Não fiz cursinho e fui aprovado na primeira chamada. Sempre me sobressai em Redação e foi o que me garantiu uma boa classificação no cômputo geral. Minha dica sempre: invista em Redação.

01) Como devo me preparar, agora que falta três semanas para a prova?
Deve-se preparar aos estudos -- se sua formação foi "fraca"/deficitária -- dentro de um prazo mais longo, um ano, no mínimo. Três meses é pouco para "correr atrás do prejuízo". Mas o que se pode fazer com o prazo que tem, pelo menos na área de Língua Portuguesa, é assistir a aulas de Gramática (via Youtube ) do conteúdo que seu professor indicou com maior probabilidade (porque mais recorrente) de "cair na prova": crase, voz ativa/passiva, colocação pronominal, figuras de linguagem, uso do verbo haver, uso dos pronomes relativos, conjugação de verbo, acentuação e o fundamental de análise sintática (concordância e regência), entre outros pontos.
2) E na véspera da prova, como me preparar?
Na véspera da prova você precisa dormir bem, acordar cedo e chegar sem pressa no local da prova. Não esqueça a identidade. Leve água, chocolate e balas açucaradas. Não há outra coisa a fazer.

3) Em sua opinião, qual é o maior empecilho para que muitos vestibulando tenham certa dificuldade na sua frente?
Ansiedade. Depositar todas as espectativas numa prova. Quanto menor a ansiedade, melhor a performance do candidato. Lembrar-se de que é só um teste, de que pode acontecer milhões de imprevistos e que, diante da prova, você deve fazer o melhor possível sem se desesperar. Normalmente, alunos que fazem o vestibular pela segunda fez são mais bem sucedidos.

4) Como administrar meu tempo no dia da redação?
Faça primeiro as questões alternativas da prova e deixe a redação para segunda metade (divida as horas totais por dois). Muitas vezes a prova fornece boas informações/argumentos para você aplicar ao seu texto. Treine antes a redação e veja quanto tempo leva para fazer sua dissertação; quanto mais treino, melhor a velocidade e qualidade do texto. Não esqueça de "passar a limpo" com cuidado para a letra ficar bem legível (não a faça pequena demais). Se quem ler sua redação não entender o que escreveu, certamente lhe dará a pior nota.

5) O que deve evitar na redação?

Texto em prosa tem que ter parágrafo, então fique atento para deixar um espaço de parágrafo bem demarcado. Não faça texto blocão (a redação inteira em um ou dois parágrafos sem ponto final). É fundamental entender que é preciso colocar ponto final e continuar na mesma linha. Aliás, alterne no período frases mais curtas e mais longas, isso dá ritmo ao texto, facilita a leitura e minimiza erros de concordância. Lembre-se de que a redação é um texto formal e tem que obedecer à norma padrão, ou seja, as palavras precisam ter sentido denotativo (o sentido do dicionário, lógico, racional, conciso e objetivo). Nunca escreva "coisas"(sic) como: "o governo pisa no povo" (prefera: os governantes exploram a população; etc), não use palavras como coisa, tipo, etc. Evite a todo curto repetições, rimas, verbos duplicados (vai ajudar = ajudará, iriam descobrir = descobririam); elimine gerúndios (verbos que terminam em -NDO) sempre que puder. Mas o principal é lembrar a necessidade de articular as frases com as conjunções obrigatórias para formulação de um texto argumentativo: MAS/PORÉM/ENTRETANTO/CONTUDO/TODAVIA/NO ENTANTO; SE/CASO, JÁ QUE/VISTO QUE/POSTO QUE/DEVIDO A, EMBORA, AINDA QUE, PORTANTO, LOGO, etc. Não precisa colocar TODAS, mas é necessário usar esses elementos de articulação de forma correta, pois assim a redação será argumentativa. Não se esqueça principalmente de, no parágrafo final, fazer um resumo/recapitulação do que disse e propôr uma solução para o tema/problema debatido.

6) Um palpite do tema da redação?
Para este ano? O ódio nas redes sociais; A intolerância religiosa e de gênero; Os limites da Justiça; A imagem do Brasil; O direito à livre manifestação; A mídia como elemento de controle e manipulação político-ideológica das massas; A demonização da política.

7) Quais assuntos críticos tenho que revisar agora nessa etapa final?
Não sei, cada caso é um caso, seria preciso saber como está o seu nível de conhecimento atualmente, e não sei.

8) Em Linguagens e Códigos, existe algum macete, um jeito para economizar o tempo e eliminar pegadinhas?
Ler com atenção a pergunta e assinalar a alternativa quando souber, se tiver dúvidas, pule, e siga lendo e respondendo todas as que souber até o final. Quando chegar ao fim e tiver que voltar para primeira, responda todas as que ficaram pendentes, mesmo se tiver dúvida. Escolha uma alternativa e siga adiante (não há como parar e ficar elocubrando em torno de uma resposta, pois o tempo é curto). Esse retorno para responder é o definitivo! Quanto a pegadinhas, isso é imprevisível, a dica é: leia com atenção e vá por eliminação, indecisa entre duas respostas a serem assinaladas é melhor do que entre quatro, já que você terá duas possíveis corretas; portanto, com 50% de chances de acertar.

Boa sorte.

sábado, outubro 22, 2016

A vida secreta dos pets, 2016


Cores, inspiração visual e andamento narrativo que o torna parente próximo das comédias românticas dos anos 50. O charme irresistivel do pets. Vilões fofinhos e ritmo insandecido de jogos de engano e redenção final. Lindo. 
  




Love & friendship


Baseado num romance de Jane Austen, um filme enfadonho e cansativo, talvez pela opção narrativa e a antipática e cínica protagonista. Produção requintada mas cansativa.

Ligths out



Versão diluída de um filme que já era ruim, Mama. Fantasma de menina orfã persegue mãe excêntricas e só aparece na escuridão para matar seus maridos. Nada salva. Uma grande bobagem.



Elle, de paul Verhoeven


 Uma produtora de jogos violentos de videogame é estuprada em sua casa, mas não chama a polícia. Recusa-se a se apresentar como vítima, mesmo quando começa a receber no celular mensagens obscenas do seu estuprador. Arma-se, investiga, anuncia ao ex marido e amigos próximos o ocorrido durante um jantar, mas segue inflexível. Cercada por todos lados por pessoas que a desprezam, - a mãe e seu noivo michê, a nora, os funcionários no trabalho, o próprio amante (casado com a melhor amiga) - o mistério se instaura na investigação do criminoso, mas mesmo quando é novamente atacada e reage não compreendemos suas motivações. Assim o filme segue no desconcerto pois nenhuma reação é previsível.

Um filme estranhíssimo, ou seja, um filme à lá Isabelle Huppert, mas dirigido por Paul Verhoeven sem qualquer cacoete pop de sua produção hollywoodiana. O que se vê são as obsessões do diretor: sexo, violência, desejo e frieza, tramas de suspense em que ninguém é o que parece ser. Huppert entra para a galeria de suas femmes potentes sado-masoquistas, predadoras sem culpa e controladoras. As pervesões levadas a um limite incomum, e nenhum empenho de converter a protagonista em heroína, aliás, uma galeria de suas indiossincracias, mau-humor e cinismo: a antieronina total. Por isso o incômodo que se estabelece da primeira a última cena.  Perturbador.

Alice através do espelho, Disney


Um filme que não é para criança, não é para adulto e que não tem nada a ver com o romance de Lewis Carroll. Herda tão somente a beleza visual concebida por Tim Burton, mas como no primeiro filme, é um escândalo visual que logo cansa e não empolga. Fora que o enrado é uma bobagem que nem a beleza visual sustenta. Esquecivel. 


Hoje, lendo os artigos potentes de Susan Sontag


Como ela escreve lindamente sobre cinema.

Médecin de Campagne, de Thomas Lilti


Diagnosticado com câncer cerebral um médico de família que atende pacientes em casa no interior da França, precisa aceitar uma médica substituta. O filme vai delineando suas relações com a comunidade, o conflito que se estabelece com a novata e toda a angústia da doença que o debilita mais e mais. Filme lindo, edificante e sobre a nostalgia de uma profissão e um tempo que se esvai. E eu cada vez mais apaixonado pelos filmes humanistas franceses.

Não conte a ninguém (Ne le dis a personne), de Canet


Suspense francês que prende do inicio ao fim. Um médico vai com a esposa a um lago distante nadar. A noite a esposa é brutalmente assassinada e ele se torna suspeito. 8 anos depois, recebe um vídeo pelo computador onde reconhece a esposa. A partir daí sua vida fica insana, revelações e conspirações são deflagradas. Delicioso, apesar do desfecho bobinho.

Nise, O coração da loucura. Cinebiografia de Roverto Berliner


Um filme muitas vezes aquém da biografada; apesar da bela presença de Glória Pires a atuação iluminada de vários atores brasileiros. Para emocionar, o filme fica razo, com os médicos maus e a heroína divinizada e pouco espaço para ir além de um resumo biografado sem inventividade alguma. Nise e nós sempre mereceremos mais.

A Comunidade (The Kollektivet), de Thomas Vinterberg


Começa lindo, nostalgico, cheio de alegria e brilho e vai sendo reduzido a um drama banal de traição quando a esposa é trocada por uma mulher mais nova e se desintegra junto com a família. Os atores são magníficos, mas ha pouco espaço para que a maioria brilhe. 



Palmas para Trine Dyrholm: melhor atriz em Berlim. Tão linda, tão comovente em sua dor.


Mas minha paixão no filme foi pela pequena Freja (pronuncia-se Fraia), sua descoberta do amor e da dor.

sexta-feira, outubro 21, 2016

Hoje foi aniversário de 21 anos do lucas



Liguei no Messenger para ele e conversamos horas, manhã e depois mais no fim da tarde. Sempre conversas sobre a vida, passagem do tempo, espectivas e relações amorosas. E eu tirei essa foto bonita do Lucas e da Nicole do Facebook, para deixar o Revide mais bonito.

segunda-feira, outubro 17, 2016

No dia que fui mais feliz



Como é possível, passado tanto tempo, e este tipo de sentimento perdurar a ponto de doer?

sábado, outubro 15, 2016

Quem é essa Mulher? (Artigo escrito por Larissa Moreira - jan 11, 2016)

Quem é essa Mulher?

Nasce “Mulher”, do grupo As Bahias e a Cozinha Mineira, disco gestado durante os anos da faculdade de História na USP, de raiz meio baiana, meio mineira e também paulistana. As Bahias, apelido das vocalistas e que deu nome ao grupo, são duas mulheres trans. Raquel Vírgina, negra paulistana, é visceral em suas composições e no palco surge estarrecedora e fascinante como a uma queda d’água. Já Assucena, baiana e afrodescendente de uma família judia sefaradita que têm suas raízes na África do Norte, é aquela correnteza aparentemente mansa, que nos enfeitiça aos poucos e nos enreda em seu lirismo. Na sonoridade, a Cozinha Mineira recria o tradicional com a ousadia dos arranjos do mineiro Rafael Acerbi, a ponto de ser improvável dissociar o grupo de importantes movimentos predecessores da música popular brasileira como a Tropicália e o Clube da Esquina. 

Não à toa, comparei as duas vocalistas ao movimento das águas. A simbologia da água em amálgama com a figura da mulher é um dos eixos centrais da narrativa estética do disco “Mulher”, assim como a analogia à lógica da vida como processo de devir, de tornar a ser. 

A perspectiva de tempo, bem como de espaço, são carros-chefes para se pensar a narrativa que nos conta “Mulher”. A primeira canção, Apologia às Virgens Mães, nos remonta às origens míticas judaico-cristãs da opressão de gênero. “Oh Mães de Jesus, oh virgens, todas virgens/Já choraram teu choro, prantos correm na História/Feito rio que erode do espaço às margens: Trajetória.” Madalenas, Evas, Liliths, mulheres bíblicas arrodeadas pelo peso do pecado e o tabu do sexo. Maria, a mulher do “gozo pré-extinto”, representa a mulher destinada a gerar sem o “pecado” do prazer sexual e a fazer beber aos filhos do seio o “sulco sem dó de seus zelos”. “Quanto tempo tem”, exclama a estrofe final no ritmo de samba, e “não tem eira, nem beira”. 

A arte é de protesto, e a figura desta “Mulher” vai se costurando como a um cordão de miçangas ao longo das treze faixas que compõem o disco. 

“Quantos tempos teceram teus vestidos de lã?/Quantas tranças os tempos fizeram traçar teus cabelos?” Das tranças de Maria Madalena, Medusas, Dandaras, Helenas, Nzingas, Aqualtunes, Marias da Silva, Marias dos Santos, Marias das Dores, Marias, surge na segunda faixa Josefa Maria, da “terceira década do século 20”. 

Em 1930 a industrialização tomava impulso no sudeste brasileiro, receptáculo de um intenso fluxo de imigração nordestina, especialmente em São Paulo, que em analogia com a mítica Belém da bíblia, é para onde migra a nordestina obrigada pela diáspora da seca e impulsionada pelo milagre da metrópole.  “Viu o pé de jaca que plantou no seu quintal crescer”. O universo mítico feminino aí se revela novamente. A figura do pé de jaca remete ao poder genital da mulher na mitologia iorubana, no qual a árvore jaqueira é domínio sagrado das Iya Mi, as grandes senhoras feiticeiras. Já no ritmo, o funk coroa a presença periférica e pobre dessa mulher que “de pele tão branquinha, sois nega”, onde há um ponto nodal que a aproxima das opressões sofridas pela mulher negra. 

A água e a seca são elementos centrais que conduzem a narrativa dessa Mulher. As faixas “Lata d’água na cabeça” e “Lavadeira Água” carregam uma imagem compartilhada entre a mulher pobre nordestina e a mulher negra paulistana: a luta pela água na seca do sertão e, na metrópole, a figura das lavadeiras negras no centro de São Paulo que foram riscadas e apagadas como o rio Tamanduateí da memória seletiva de uma história bandeirante. A letra de “Lavadeira Água”, por sua vez, nos traz a ideia da simbiose cosmológica entre a figura da mulher e da água. A Mulher é a própria água em diversas mitologias. Na mesma canção, a Virgem reaparece, desta vez na figura da gruta da anunciação aonde veio anjo Gabriel lhe comunicar que seria ela, Maria, a mãe do filho de Deus, “gruta bruta, coração, Virgem Maria”. Na mística judaico-cristã, a gruta aparece como instrumento de comunicação entre céu e terra. “Olhos nos olhos de Santa Luzia”, a santa que simboliza os olhos, a luz e a visão, é a figura feminina que permitiria ao eu-lírico da canção “olhar pela fechadura a abertura do céu” num ato de pecado e de libertação. 

Em “Esperança no Cafundó”, a seca por sua vez vem carregada de lirismo. O determinismo poético, onde “o sol marca sua escrita tão dura na pele e no chão” dá o tom, e o ser se mescla ao ambiente. A prosopopeia traz vida à flor inanimada da seca enquanto o cancioneiro canta e conta onde o verde se trancou: “nos pau d’umbuzeiro”, lá onde reside a dialética da vida e morte no sertão.
“Ó Lua”, um agradável samba-canção, remonta o clássico diálogo romântico da Lua e a mulher, ao passo que também desmonta famosos clichês dessa inspiração. “Dos teus sopros esbanjar meus cabelos. Sou mirrado flor e germino pétalas no asfalto”. O astro que está cosmologicamente imbricado no mecanismo do corpo da mulher mobilizando seus hormônios tanto quanto as marés, é em algumas tradições matrifocais seculares a personificação do divino feminino. 

Em seguida, somos presenteados com uma ladainha de berimbau e não a toa é o instrumento tradicional afro-brasileiro de forma fálica que abre a música. Em contraponto ao principio feminino da Lua, adentra a narrativa o seu oposto masculino Sol. “A estrela sobe e faz vida aqui na terra”. Na faixa “Comida Forte”, a imagem do homem se delineia na referência histórica das migrações desta vez para Brasília, anos 50, no advento da modernidade expresso na construção da capital do Brasil. A figura do sertanejo, o candango – termo de origem no quimbundo que significa “ordinário, desprezível” -, desbravando o ermo e fecundando o moderno no coração do país, alimentando a esperança tirar a família da miséria, de conquistar a ascensão social. 

Já as músicas “Foi” e “Uma canção pra você (Jaqueta Amarela)” trazem o dilema da ausência do amor. Na segunda e hit do disco, somos transportados para um ambiente de um quarto onde repousa uma “Jaqueta Amarela” sobre a cama. Como se a mulher tivesse despertado do passado, de um sonho carregado em trajetória de todas as gerações de mulheres que a precederam, o rádio a desperta para o presente onde a voz locutora introduz uma canção de amor. Não é mais o chão seco do nordeste, nem a margem do rio da lavadeira. É sobre a “cama que não me ama” que irrompe a catarse entre as quatro paredes de um quarto pintado à natureza morta, donde objetos ganham vida e compartilham, num entendimento secreto, da dor de quem canta. “Cada barro de pele num jarro de flor”. Em “Jaqueta Amarela” canta um corpo “desigual/igual” que nos apresenta o duro dilema afetivo no universo transexual.  “Quem nos media dia-a-dia?/O nosso sexo, amor?/O anexo?/ O nexo?/O x da nossa dor?” O x da questão é o duplo cromossomo que identifica biologicamente uma mulher. Mas, o que é uma mulher? É a pergunta que permeia semanticamente as cartas sobre a mesa. “No baralho, jogo os Ais/Te embaralho, sou dama de paus, caralho!” 

“Melancolia” é um samba-canção, ou samba de fossa, daquele nascido no seio da boemia, no moderno samba urbano.  A profundidade poética da letra no movimento em que as sílabas descolam das palavras formando outras faz com o que a própria melancolia ganhe um referencial imagético, o corpo e a forma plasmática que “mima e mela feito cola colando a tristeza em meu corpo”. A habilidade de personificação que as Bahias alcançam em suas composições é impressionante. Não posso ouvir essa décima faixa sem que meu inconsciente encontre numa reminiscência a imagem daquela lágrima doída que mela o rosto, da tristeza que custa a soltar a alma. É, sobretudo, o samba que canta a solidão afetiva socialmente marcada na pele negra pelo “insulto” do branqueamento, quando diz “da minha pele moura, louro sol, louro insulta a minha melanina, louro sultão que então minha dor ilumina, mina de solidão”

Do moderno ao tradicional, “Mãe Menininha” traz na sequencia o alívio e a redenção do carnaval. É uma homenagem à mulher negra pobre que se tornou uma das figuras mais importantes da hierarquia do candomblé no Brasil e é signo da grande e amável matriarca. “Terra doce e cativante”, a Bahia, ganha um nome e é Menininha. Nesta canção, a imagem da água retorna e ganha novo contorno na figura de Oxum, orixá das águas doces de quem Mãe Menininha do Gantois era filha. “Essa beleza do carma viva e morto”, idealiza o material e ancestral celebrado na festa.

Sorrateira, a faixa “Fumaça” tem a base rítmica de um samba exaltação e a voz em alguns momentos rarefeita que aos poucos nos envolve numa atmosfera dialética entre o cheio e o vazio. E, por fim, “como um ponto após o outro ponto”, a cultura popular tradicional nordestina é apreciada em “Reticências” entre estrofes de repentes e cordéis. Há o retorno da figura de Maria, desta vez na forma da sagrada tríade. “Maria que vela meu sono/Maria que arriba meu véu/Maria que puxa a corda a descarrilhar meu carretel”. Maria onipotente, onipresente e onisciente, a mulher que é o passado, o presente e o futuro. É Maria “que puxa a corda” do tempo. 

“Ô Mariquita lá se vai a pipa/Vai descarrilhar meu carretel…” Aqui, a narrativa se encerra, intenta ganhar mundo. No desenrolar das reticências, a obra – objeto vivo -, no contato com o outro – os sujeitos apreciadores -, torna-se um terceiro ser. Nesse encontro entre a arte e o espectador, a obra foge ao controle de seus criadores e “põe-se a cirandar”. Por fim, o sentido da obra é inteiramente costurado, puxado do “ponto de cruz” da primeira canção, até o desenrolar do carretel na última. Entretanto, uma linha fica solta…

A pipa vai desfiando o fio deste ser mulher num eterno tornar-se, como nos disse Simone de Beauvoir.
O disco Mulher é um registro antropológico e historiográfico da trajetória social da mulher. Mulher como substantivo plural e identidade polissêmica, não como personificação de uma figura única e representativa nacional. Mulher que vai do sentido ontológico e cosmológico do ser até sua realidade contemporânea, subjetiva e política. Mulher que dialoga com o tempo e espaço, que é a própria natureza divinizada. A mulher do moderno ao tradicional, de marcante herança negra e sertaneja. É, sobretudo, uma obra dialética, na perspectiva hegeliana, capaz de perpassar inúmeros sentidos da existência feminina. Nas palavras de Conceição Evaristo, “Eu fêmea-motriz./ Eu força-motriz./ Eu-mulher./ Abrigo da semente,/ moto-contínuo/ do mundo.”¹ Por isso desponta como uma das principais obras de música popular brasileira produzidas nas últimas décadas.  

[Um arraso essa análise do disco MULHER, de As bahias e a cozinha mineira. A fonte é o Blogueiras negras. Para ir à fonte do texto AQUI.]


sexta-feira, outubro 14, 2016

Café Society, de Woody Allen





Entrei no filme não esperando nada, e ele vai seduzindo e encantando até tornar-se uma experiência de deslumbramento. Tudo funciona com perfeição, glamourizando hollywoodianamente cada uma das atrizes, que estão linda e fantásticas. Jesse interpreta um dos melhores alter egos de Woody, Kristen é estranhamente ambígua, Blake enche os olhos. O humor, a sagacidade, o encanto e desencanto desta história de amor que não se conclui, este fim de relacionamento que faz com que o amor, por não ter se realizado, não acabe. Woody mereceria um prêmio só pela fusão final, em que dois rostos, muitos distantes se unem, frustrados, pensando um no outro. Não há como não se comover.