terça-feira, janeiro 26, 2016

O céu de São Paulo no cair da tarde de seu aniversário


Aquele prazer de fotografar as pessoas que gosto

SOLAR






NOTURNA





Cecile Duret. 2016.

Aniversário de São Paulo









 


Cecile me convidou para ir ao mirante da Paulista assistir São Paulo SA, do Person. Noite linda, gente linda, música, pura alegria paulistana. Foi lindo. 

No domingo, 24.01, fui com Cecile na Vai Vai




No domingo, 24.01, fui com Cecile na Vai Vai, ver o ensaio da escola que fará homenagem à França. Ela sendo da Alliança me botou na sala vipe, mas gostamos mesmo é de ficar no meio do povo. Sambemos. 

Eu, Pelé e Bowie, na Paulista


Poema sujo, de Ferreira Gullar


Poema sujo

(trecho inicial)

turvo turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos
menos que escuro
menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos que furo
escuro
mais que escuro:
claro
como água? como pluma? claro mais que claro claro: coisa alguma
e tudo
(ou quase)
um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas
azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu
tua gengiva igual a tua bocetinha que parecia sorrir entre as folhas de
banana entre os cheiros de flor e bosta de porco aberta como
uma boca do corpo (não como a tua boca de palavras) como uma
entrada para
eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
entrando-nos em ti

bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome seu nome era...
Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia
perdeu-se na profusão das coisas acontecidas
constelações de alfabeto
noites escritas a giz
pastilhas de aniversário
domingos de futebol
enterros corsos comícios
roleta bilhar baralho
mudou de cara e cabelos mudou de olhos e risos mudou de casa
e de tempo: mas está comigo está
perdido comigo
teu nome
em alguma gaveta
(...)

[Li aos dezessete e explodiu a minha cabeça. Uma força, uma fúria, que ninguém pode ver no poeta Ferreira Gullar velho, conservador e reacionário até as tripas. Mas o poema cristaliza, petrifica, conserva um tempo e consagra um desejo de explodir convenções, todas - familiares - morais - políticas - sociais e da forma literária. "O poema sujo", um dos mais belos libelos pela liberdade. Assim, para além do homem, o poeta, o poema se faz vivente, corajoso e existente, à revelia do que aquele, enquanto homem, veio a se tornar.]

quarta-feira, janeiro 20, 2016

Baixar cds e músicas

http://js-audio.blogspot.com.br/

Rápido, limpo, atualizado, perfeito.

AQUI

terça-feira, janeiro 19, 2016

Pedra

Onde tinha um poeta
jaz serena
esta pedra

se é de bronze
a tal pedra
e o mar ruge na areia ondas de sereno azul
nada importa.

sob o sol deste Rio escaldante
tudo ensonha
soma
ensina

somos menos
a cada instante.




eduardo arau
2016

Personagens famosos do cinema


The H8ful eight (Os oito odiosos), de Quentin Tarantino


Durante uma nevasca, o carrasco John Ruth (Kurt Russell) está transportando uma prisioneira, a famosa Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), que ele espera trocar por grande quantia de dinheiro. No caminho, os viajantes aceitam transportar o caçador de recompensas Marquis Warren (Samuel L. Jackson), que está de olho em outro tesouro, e o xerife Chris Mannix (Walton Goggins), prestes a ser empossado em sua cidade. Como as condições climáticas pioram, eles buscam abrigo no Armazém da Minnie, onde quatro outros desconhecidos estão abrigados. Aos poucos, os oito viajantes no local começam a descobrir os segredos sangrentos uns dos outros, levando a um inevitável confronto entre eles.


Todo filme de Tarantino para mim, já é uma forma de alegria. Sei que ele vai, com seu humor, cinismo e inventividade na construção de excelentes cenas e diálogos me mostrar que o cinema é um lugar interessante. Adoro também o modo como ele ressuscita carreiras, e nos mostra como os atores atualmente são tão sub aproveitados pelo cinema. Aqui o foco em Jennifer Jason Leigh e Kurt Russel. Neste faroeste filmado em 70mm (para evocar o faroeste spagghetti, juntamente com a trilha de Ennio Morriconi), longo - 168 minutos - como são todos os filmes de Quentin, há na verdade muitos encontros, uma profusão de diálogos, poucos silêncios, muita blague, e aquelas explosões final típicas de seu cinema, em que a violência explode jocosamente, como uma fantasia divertida e jamais dolorosa. 



Por que Tarantino é um diretor farsesco, nele nenhum compromisso como real, mas com a tradição cinematográfica. Nem o verossímil lhe interessa, aposta na potência e engenhosidade da linguagem cinematográfica, em personagens exóticos e singulares em tramas que são puro nonsense. Mas suas obsessões estão de volta, encontros de personagens que convertem para um espaço confinado (Cães de aluguel) onde os conflitos dão lugar a intensidade verbal, calcada em astros que emprestam referências e trejeitos aos personagens que representam, como o personagem de Kurt Russel acenando para um dos seus sucessos, O enigma do outro mundo, onde pessoas presas no gelo do Ártico, não podem confiar uma nas outras.



Falastrões, excêntricos, desconfiados e vingativos confinados num cenário claustrofóbico, os personagens como que ascendem a um palco, e entre palavrões, porradas e tiradas delirantes, entremeadas por flashbacks reveladores, vão desfilar questionamentos sobre os EUA, o papel do negro na guerra da independência e desbravamento do oeste, e seus patriarcas fundadores (como a carta falsa de Lincohn que o veterano negro traz, a mentira também ajuda Tarantino a questionar a História americana. 



 Engraçada a entrada do "astro" Channing Tatum, que entra para fazer uma ponta para ter a cabeça explodida em seguida. 



O bom dinossauro, da Pixar






A primeira animação da Pixar que assisto e sinto ser exclusivamente voltada para "criancinhas". Uma animação bela, provavelmente para explorar o 3d, mas sem novidade. Assisti com Gabriel no Marabá, aqui perto de casa, na semana passada.

Ex machina, de Alex Garland




Um cenário, quatro atores, efeitos digitais, nenhuma pirotecnia, direção econômica e precisa, um grande roteiro cheio de não ditos, com uma tensão crescente sem cambiar a narrativa lenta e bem pontuada do filme. Cheguei ao filme por indicação dos filmes que foram ignorados em 2015. Assisti em casa com Gabriel. Um filme genial, que põe em questão o pós-humano, máquinas capazes de pensar e interagir com o ser humano. a raiz do filme nos conecta com Blade Runner, o momento em que Deckard entrevista a androide Rachel. Mas ele está profundamente focado no presente, na recente evolução da inteligência artificial empregada na Internet e nos celulares em "seres virtuais" como SIRI e Google Now e nos super Gurus da tecnologia, como Steve Jobs. É igualmente reconhecível a ponte entre Ava/Eva e o robo HAL de 2001, uma odisséia no espaço, de Kubrick. 


Caleb (Domhnall Gleeson), um jovem programador de computadores, ganha um concurso na empresa onde trabalha para passar uma semana na casa de Nathan Bateman (Oscar Isaac), o brilhante e recluso presidente da companhia. Após sua chegada, Caleb percebe que foi o escolhido para participar de um teste com a última criação de Nathan: Ava (Alicia Vikander), uma robô com inteligência artificial. Mas essa criatura se apresenta sofisticada e sedutora de uma forma que ninguém poderia prever, complicando a situação ao ponto que Caleb não sabe mais em quem confiar.


Novamente Ava/Eva vem trazer a desordem no paraíso artificial criado pelo "deus/criador" Nathan e jogar o mundo em desgraça. A ambiguidade, na linha dos escritos de Philip K. Dick, segue fazendo escola neste filme, não entre realidade ou mundo paralelo, mas na identidade dos próprios personagens.  




segunda-feira, janeiro 18, 2016

House of cards, série da Netflix



Sabia da sua existência, mas não tinha muito interesse sobre séries focando o universo da política estadunidense. Então, baixei na Maristela, e ela me convenceu a assistir ao primeiro episódio. E a constatação de que a vida inteligente migrou por completo para as séries. Tudo é incrível, da fotografia, a direção dinâmica e engenhosa, as interpretações iluminadas, e o texto/roteiro afiadíssimo. Shakespereano até o osso, no modo como o protagonista vira para câmera e comenta suas ações cínicas e perversas, à maneira de Ricardo II. E a esposa macbethiana. Genial até não caber mais. Roubei da internet os motivos para assistir ao filme. 

Celebrada como uma das melhores séries da atualidade, House of Cards é uma produção da Netflix e entrou na 3a fase. 

1. Os protagonistas

O produtor David Fincher (responsável por filmes como Seven, O Clube da Luta, O Curioso Caso de Benjamin Button, Os Homens que Não Amavam as Mulheres e Garota Exemplar, entre outros) garante que todos os membros do elenco principal eram a primeira escolha. O resultado disso foi um Emmy, considerado o Oscar da televisão, de melhor Elenco de Série Dramática já na temporada de estreia. 

Em excelente fase, Kevin Spacey é o protagonista Frank Underwood, um político ambicioso que não mede esforços para atingir seus objetivos. Ele é capaz de mentir, manipular e até matar. No entanto, a série faz com que o espectador seja o seu maior cúmplice — ele fala diretamente para a câmera em alguns momentos. Acabamos, involuntariamente, torcendo para que suas maracutaias deem certo.

Claire Underwood, esposa e comparsa do político, é vivida pela bela Robin Wright. A atriz, que interpretou a namorada de Tom Hanks em Forrest Gump e que também é muito lembrada por seu casamento com Sean Penn, dá-nos uma excelente e intrigante personagem feminina. 

2. O enredo

Adaptada pelo roteirista Beau Willimon do livro homônimo de Michael Dobbs, a série, que também tem uma versão britânica, acompanha a vida do congressista Frank Underwood. O político, após perder a oportunidade de exercer o cargo de Secretário de Estado, inicia uma campanha inescrupulosa para derrubar aqueles que o prejudicaram. 

Embora o casal Underwood (Kevin Spacey e Robin Wright) não seja "flor que se cheire", a verdade é que ninguém é mocinho nessa história. Como trata dos bastidores da política norte-americana, outros personagens orbitam em torno dos dois — e também servem como massa de manobra: o congressista alcóolatra Peter Russo (Corey Stoll), a repórter ambiciosa Zoe Barnes (Kate Mara) e o chefe de gabinete Doug Stamper (Michael Kelly) são alguns exemplos de personagens com o "rabo preso". 

Ninguém tem moral na trama — e talvez seja exatamente por isso que a série pareça tanto com a "vida real". 

3. A fotografia

Se você ainda não está empolgado com a história, House of Cards tem ainda uma fotografia muito interessante — e que também foi agraciada com um Emmy. A série mostra a que veio já na abertura, que, feita em time-lapse, evidencia a imponência da capital dos Estados Unidos. 

4. Os fãs ilustres

A série é a favorita da presidente Dilma Rousseff e também faz a cabeça de Barack Obama, que morre de medo de receber spoilers. O presidente norte-americano, inclusive, já declarou que gostaria que algumas coisas na Casa Branca funcionassem tão bem quanto na série. 

— Eu estava assistindo a Kevin Spacey e pensando: "Esse cara está conseguindo realizar muita coisa" — brincou. 


Roberto Toledo Pompeu, mostrando na Veja mais da nota luta de classe


"Os brasileiros da sua classe". Uma frase bastante simples, mas que sintetiza a exclusão e o desprezo aos pobres do Brasil, depois de uma jocosa citação sobre nomes. 

Faço foto bonitas do Lucas


2015.

O clube da felicidade e da sorte


O clube da sorte e felicidade. Assisti pela primeira vez na Globo, de madrugada. Levei para ver com a irmã, que dormiu, mas vi com Maristela. Um filme sobre mulheres. Uma trama episódica e fabular. O passado e o presente de mulheres vindas da China. Suas histórias pessoais, sempre traumáticas, e a reflexo de suas relações nas filhas, já nascidas na América. Ideias de continuidades da vida. Belo, emotivo, revelador das mudanças dos tempos e da força das mulheres. 


Best of enimies, documentário de Robert Gordon e Morgan Neville


Gosto de assistir a documentários. Me interessam a técnica, a montagem, o ritmo, para além mesmo do assunto. Este por exemplo, mal conhecia os "personagens", mas gostei da premissa. Dois aristocratas americanos , um hiper conservador (William F Buckley Jr.) e um liberal moderado (o escritor Gore Vidal) num debate de televisão sobre política, guerra e comportamento. Todos os tabus norteamericanos, a luta de classe, o racismo, a mulher, a homossexualidade: o públicos e o privado em choque com uma sociedade repressora e intolerante. Ambos a cara da América. O filme trata de inimigos, de rancores, de ressentimento, de tabus, e é muito reveladora de um modo de ser e pensar dos americanos. A linguagem é dinâmica, toda aquela eficiência americana em agudizar tensões e converter em narrativo o que poderia passar por informação crua. Mais que um filme de personalidade contrastante, um filme de personagens.


Então minha tia Diloza morreu - 17/01/2016

Minha tia Diloza morreu. Era irmã de meu pai. Nunca foi uma mulher bonita. Era grande, pesada, silenciosa, a soma de uma delicadeza (até no falar) com uma praticidade incrível. Religiosa, ficou solteira até muito tarde, sempre cuidando dos pais, até que um dia encontrou um viúvo baixinho, o Zé, com três filhas pequenas, com o qual se casou para desgosto dos meus avós, que a queriam para si. Nunca, nenhuma reclamação. Cuidou deste marido numa longa e complicada doença,  depois cuidou da mãe Lalina, até a senilidade, depois do pai, tão silencioso quanto ela, com coração fraco. Gostava muito da minha tia, mas não lembro de uma conversa que seja. Falávamos trivialidades, quase sempre sobre os outros, meus avós. Minha irmã era sempre a mais próxima, como é mais próxima ainda hoje de todos os irmãos e primos do meu pai. Ia tentar achar uma foto da tia, mas creio que não acharei. Ela passou assim pela vida, meio coadjuvante, tomando de empréstimo a vida dos demais, sempre cheia de cuidados, ternura, silêncio: um silêncio pesado e triste. Achava-a triste, sempre cercada de velhos e doentes, até que ela finalmente se tornou velha e doente, já com pais mortos, com dois irmãos mortos, sem quem cuidar. Ela parecia desconfortável com a vida, com o viver. Nenhum desejo, nenhuma ambição, nenhuma queixa para a dor de existir. Tinha a Igreja, uma fé que parecia bastar-lhe. Estranho pensar agora que eu amava minha tia Diloza, que era tão visível, tão sem mistério, e tão absolutamente abnegada. Sua humildade extrema, sua total bondade me desconsertava. Passou mal, foi ao hospital, ficou uma noite internada, os rins iriam parar, exigiriam diálise. Ela nunca quereria dar trabalho a ninguém. Morreu de madrugada, não houve telefones noturno. De manhã minha mãe me ligou, tinha dado banho no cão, secava-o na toalha. Marcamos, fui a feira, lavei a louça, atrasei-me, peguei um táxi em Mauá para vê-la. Fui ao seu enterro, perdi seu velório em que uma sobrinha (minha prima Luciana) contou minha irmã, fez uma linda oração. Encontrei os tios envelhecidos, primos alguns que nem me lembro, modificados todos. Com exceção das lágrima da minha tia, foi um enterro sem comoção, quase prosaico, com parentes próximos, dois ou três amigos seus. Morreu num sábado de madrugada, o enterro foi no domingo, 17.01.2016. Como se para não atrapalhar compromissos, a semana de ninguém, a vida entregue aos demais, até o fim. Descanse em paz. 

segunda-feira, janeiro 11, 2016

E então, que quereis?

Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.

Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
é agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.

Vladimir Maiakóvski

Então David Bowie faleceu



Hoje, 11.01.2016.

A internet ficou cheia de homenagens, e eu fiquei apaixonado por esta:


A história do glúten


Utopia, tema da FUVEST 2016


A pele de Vênus (La Vénus à la fourrure), de Roman Polanski (2013)



A pele de Vênus (La Vénus à la fourrure), de Roman Polanski é um filme de 2013 e que lhe deu o César de melhor diretor. Tinha baixado há um século, até que há três dias meu sobrinho Lucas me convenceu a assisti-lo. 


Dois atores em cena, um único espaço, a matriz é um texto teatral (“A Vênus das Peles”, do norte-americano David Ives, corroteirista do filme com Polanski), mas não pense num "teatro filmado", Polanki vai sempre além, como já havia feito com "A morte e a donzela" e "O deus da carnificina", mas nunca antes com tanta potência. O enredo é simples.




Thomas está num teatro em Paris testando atrizes para sua estreia como diretor. O texto adaptado por ele é A pele de Vênus, escrito por Leopold von Sacher-Masoch, de 1870. De Masoch originou-se o termo masoquismo, pois na peça, a submissão do homem diante de uma dominatrix surge pela primeira vez explicitamente como "fetiche sexual". Thomas, vivido Mathieu Amalric (caracterizado fisicamente como um clone do próprio Polanski) encerra um longo dia de testes de atrizes num decadente teatro parisiense. Reclama ao telefone sobre o nível baixo das atrizes avaliadas, sem firmeza, sutileza e talento para viver sua protagonista, quando surge a porta, molhada pela chuva e atrasadíssima, Vanda (Emmanuelle Seigner), implorando para ser testada para o papel. Embora ele a ache vulgar, rude e estúpida e fazer de tudo para dispensá-la, termina por ceder a sua insistência, pois ela parece irredutível em sua vontade de interpretar a protagonista Vanda, "coincidentemente" sua homônima. 



Após tirar da bolsa um figurino que diz ter comprado num brechó (sob a roupa, ela exibe espartilho negro, cinta liga e indumentária sado-masoquista), mostrar que decorou toda a peça (embora Thomas não entenda como conseguiu cópia de sua versão) e, sem que ele encontre seu nome na lista das candidatas ao teste, convencer Thomas a ler/interpretar as falas de Séverin (autor-protagonista da peça), Vanda inicia sua atuação pedindo as devidas indicações do "diretor". Ela bajula-o a todo tempo, elogiando sua versão, suas referências, seu modo de dirigir, mas pouco antes de iniciar o teste, já está conduzindo a cena, tanto que modifica a luz do teatro para ser mais adequado "ao clima" da cena, criticando o cenário disposto para o teste, que é o de uma peça grega, com direito a símbolo fálico, cujas falas ela evoca en passant



Ao iniciar a leitura, sua energia incontrolável e despudorada, cede lugar a uma Vanda refinada, instigante, sutil, fazendo de uma echarpe a tal pele de Vênus. A partir daí, Thomas é seduzido e dominado pela atriz Vanda, a ponto de se perder as linhas entre o texto da peça e o embate diretor/atriz, homem/mulher, dominador/dominada. 



Mas não é apenas isso, um clima entre o fantástico e terrível se instaura no palco, em que as cenas são brilhantemente enquadradas, ora como se eles encenassem para uma platéia, ora como se o palco se desfizesse num não-lugar. A partir de então, o texto a ser encenado é questionado por Vanda, que o entende como submissão da mulher aos desejos do homem, classificando-a como uma peça pornográfica. Thomas defende a obra e ambos chegam a brigar, enquanto Vanda insinua ser o masoquismo do diretor (sempre atendendo o telefone e falando com sua noiva rica, submisso, prometendo chegar logo e levar o que ela exige) sua motivação para montagem.


Se na peça Séverin é o masoquista que se torna escravo sexual da Vênus Vanda, em cena Vanda o instiga a viver plenamente seu papel, vestir a pele, entregar-se aos seus impulsos, num processo de sedução continuamente ativado e reativado na "entrada e saída dos personagens" na leitura das falas.  Se para Hegel (na dialética do Senhor e do Escravo), um não existe sem o outro, é o que acontecerá em cena. Para que o papel de diretor possa existir, é necessária uma atriz. Para que a dominadora possa existir, é necessário o subjugado. Na dança dos papéis, os gêneros socialmente orientados (masculino e feminino) revelam-se limitados e imprecisos. Até a troca e reversão de papéis, - e pensemos no teatro onde todos desfilam máscaras/peles (visíveis ou não), - em que as noções de masculino e feminino se embaralham por completo e não se permitem enquadrar. Por isso Vanda e Thomas entram e saem de personagens – alguns deles impostos pela construção social – o que os aproxima e repele simultaneamente. E os medos do personagem masculino, com o tempo, se transformam naqueles de homens infantilizados diante de grandes mulheres.


Ao longo da trama, Vanda dominará Séverin até convertê-lo em seu escravo, a ponto deste oferecer-lhe - na peça - um contrato a ser assinado (talvez uma piscadinha ao sucesso do sadomasô soft "50 tons de cinza"). No final, depois de um turbilhão de sedução, luta entre os sexo, taras expostas, Thomas é preso (literalmente) e vê surgir diante de si, a gloriosa - e assustadora - deusa Vênus/Afrodite, desnuda apenas com uma pele, que dança furiosamente como uma bacante e pronuncia-lhe o texto grego, mostrando-se vingativa e humilhando-o, pois desceu à Terra por vingança pois, sendo a encarnação do feminino, jamais se permitiria dominar. Obra de gênio, numa interpretação desconcertante e olímpica de Emmanuelle Seigner.



O homem dominado pela mulher não é algo novo na obra de Roman Polanski, a mesma Seigner já havia feito o mesmo no genial Lua de fel, também uma evocação do teatro e da tragédia grega, com encenações, violência, sexo e desfecho trágico/desconcertante. Embora aparentemente simples, dois atores, um palco, 1h33 minutos de duração, A pele de Vênus/Vênus de vison talvez seja o melhor filme do diretor em muitos anos, seja pelo refinamento da direção, da luz, a direção excepcional dos atores sem nunca deixar o ritmo cair. 


O jogo de cena entre a arte e a encenação dos atores (do texto encenado/ do diretor/atriz), o jogo entre dado real e filme: Almaric como alter ego do diretor em cena a esposa deste, para discutir as relações de desejo amoroso; o jogo entre presente (peça contemporânea e país) e passado (a figuração da deusa que desce ao mundo dos mortais); o jogo entre tom realista e onírico/fantástico, sua discussão sobre as relações de desejo homem/mulher e sobre o próprio sentido da arte, tudo isto revela a grandeza desta obra-prima do cinema.