segunda-feira, dezembro 05, 2016

Galo Galo

O galo
no salão quieto.

Galo galo
de alarmante crista, guerreiro,
medieval.
 
De córneo bico e
esporões,  armado 
contra a morte,
passeia.

Mede os passos.  Pára.
Inclina a cabeça coroada
dentro do silêncio:
 
 
—— que faço entre coisas ?
  —— de que me defendo ?
Anda.
No saguão.
O cimento esquece
o seu último passo. 
 
 
Galo: as penas que
florescem da carne silenciosa
e duro bico e as unhas e o olho
sem amor.  Grave
solidez.
Em que se apóia
tal arquitetura ?
Saberá que, no centro
de seu corpo, um grito
se elabora ? 
Como,  porém, conter,
uma vez concluído,
o canto obrigatório ?
 
Eis que bate as asas, vai
morrer, encurva o vertiginoso pescoço
donde o canto rubro escoa

Mas a pedra, a tarde,
o próprio feroz galo
subsistem ao grito.
 
 
Vê-se:  o canto é inútil.

O galo permanece — apesar
de todo o seu porte marcial — 
só, desamparado,
num saguão do mundo.
Pobre ave gurreeira!
 
Outro grito cresce
agora no sigilo
de seu corpo; grito
que, sem essas penas
e esporões e crista
e sobretudo sem esse olhar
de ódio,
não seria tão rouco
e sangrento

Grito, fruto obscuro
e extremo dessa árvore: galo.
Mas que, fora dele,
é mero complemento de auroras. 


FERREIRA GULLAR 

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