segunda-feira, dezembro 19, 2016

Esta criança, de Joel Pommerat



Renata Sorrah andava em busca de um novo texto. Mas não só. Já se tornou um costume para a atriz apresentar autores ao País. Trouxe Um Dia no Verão, quando o aclamado norueguês Jon Fosse ainda era desconhecido por aqui. Também estava na primeira montagem de um texto de Fassbinder entre nós. Com Esta Criança, ela repete, de certa forma, esse expediente: trata-se da estreia do francês Joël Pommerat em palcos brasileiros. A diferença neste caso é que o texto, por melhor que seja, não está em primeiro plano. "O que me interessava, sobretudo, era me aproximar deles." Eles são a Companhia Brasileira de Teatro, grupo com sede em Curitiba que, gradativamente, se firma como o mais importante da cena atual.

Antes de chegar ao Sesc Vila Mariana, Esta Criança foi vista no Rio. Lá, venceu em quatro das cinco categorias do Prêmio Shell a que estava indicada, entre elas melhor atriz para Renata Sorrah e melhor diretor para Marcio Abreu. No ano passado, a Cia. Brasileira também arrematou os prêmios Bravo! e APCA de melhor espetáculo para Isso Te Interessa? As premiações servem para confirmar uma trajetória ascendente. Mesmo fora do eixo Rio- São Paulo, esse conjunto de artistas criado em 1999 foi capaz de demarcar seu espaço. Após uma série de bons espetáculos, alcançaram projeção inegável com Vida (2010). E foi precisamente nesse momento que despertaram a atenção de Renata. "Eu me lembro de ter ficado encantada quando assisti à peça. Tudo ali me instigava, o texto, os atores, a presença que eles tinham no palco."

Presença é palavra determinante para quem quiser entender o que torna esse teatro tão especial. Em cada uma de suas criações, a Companhia Brasileira de Teatro exibe um estilo de interpretação peculiar, que não se relaciona propriamente com a ideia de representar um personagem, mas com determinada maneira de estar no palco. Algum território de sensibilidade e simplicidade. Um processo em que os atores não devem apagar sua individualidade para dar lugar a um outro. Ao contrário. Todo esforço é para que "sejam eles mesmos". "É uma tentativa de me colocar ali como pessoa, não só como atriz", considera Renata. "Eu tenho opinião, uma história, algo que o Marcio percebe e convoca. Sei reconhecer o melhor que eu, da maneira como sou, posso dar."

No caso de Esta Criança esse exercício de "estar presente" ganha um grau de dificuldade extra. Isso porque todo o material com o qual a peça está lidando é essencialmente dramático: em dez episódios, o autor disseca infelicidades familiares. Nascimentos, brigas, mágoas e mortes envolvendo mães, pais e filhos. Sem assumir o lugar de protagonista, Renata Sorrah reveza-se com Giovana Soar, Ranieri Gonzalez e Edson Rocha para dar corpo a diferentes personagens e tramas. Há a mulher grávida que tem a esperança de que o bebê prestes a nascer a redima de todas as faltas. O pai que não pode mais trabalhar e é agredido e humilhado pelo filho adolescente. A mãe que precisa ir ao necrotério para reconhecer um corpo que pode ser o do seu filho.

Diante dessas histórias, como não resvalar no dramalhão? Ou em uma leitura psicológica dessas questões? "É uma gangorra constante", define o diretor. "Em que entramos e saímos do drama. A busca por uma precisão que tem a ver com presença: como manifestar essa presença em frequências diferentes, mas sempre muito próximas umas das outras. Um território sempre instável."
Instabilidade que também está na essência da arte de Joël Pommerat. "Nada é mais bonito do que o equilíbrio precário", define o dramaturgo, um dos mais aclamados autores teatrais de língua francesa. "Gosto que minhas histórias sejam improváveis, tortas, que não tenham lógica, como dizem, que sejam mancas."

Na vida, nem tudo é bem acabado, nem sempre coerente ou de bom gosto. Em Esta Criança o escritor se valeu de situações verídicas para compor o seu enredo, depoimentos que recolheu após entrevistar diversas famílias na região da Normandia. "Escolho situações cotidianas e procuro, dentro deste quadro, a mais forte tensão, a maior intensidade", declarou o escritor. Para o encenador, o interessante não está propriamente na realidade, mas na forma como Pommerat dialoga com ela. "Ele nunca transpõe uma situação da vida para o palco. O que está ali se refere ao real, mas o condensa, transforma, retira do realismo."

Mesmo antes de se encontrarem, o grupo e Renata Sorrah já conheciam essa obra. A companhia havia se debruçado sobre o autor, traduzindo para o português alguns de seus títulos. Por outro caminho, a atriz também havia chegado ao nome de Pommerat, recebera a indicação de Ariane Mnouchkine, diretora do reconhecido Theatre Du Soleil, na França. O consenso favoreceu a escolha. Mas não significa que a parceria entre eles se restrinja a esse interesse comum. "O encontro com a Renata é algo que terá continuidade", diz Abreu. "Porque necessariamente estabelecemos uma relação que fica reverberando em outras coisas." Assim que a temporada de Esta Criança chegar ao fim, eles já planejam um novo trabalho, desta vez debruçados sobre um texto do israelense Hanoch Levin.


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