quinta-feira, dezembro 01, 2016

De uma postagem no Facebook sobre a queda do avião e Vittorino



Fiz uns tantos posts e compartilhei outros tantos que chegaram sobre temas variados. A minha recusa à comiseração geral pegou fundo nos corações e fui xingado inbox por pessoas amadas. Flanando sobre vitrines cyber, não alimento novas ilusões sobre pessoas, sobre o país e o futuro. Tampouco escamoteio minhas falências morais ou éticas. Sexta, tem hospital para levar a mãe, lavei hoje o banheiro, dei banho no meu cachorro aleijado e comi linguiça calabresa. Enquanto vinha no trem para Mauá, li um trecho lindo do ensaio do Walter Benjamin, o suicida que sempre estimula meu desejo de viver e produzir. Fui ao dentista fazer placa para bruxismo, conversei com meu irmão, instalei o Uber no seu celular, e minha cunhada me serviu um café delicioso. Com meu sobrinho Vitorino fiz um robô de lego, um sol amarelo de massinha de modelagem, um coelho púrpura, um video cantando "Meu pintinho amarelinho" e belas fotos. Minha vida é prosaica, simplória e, em boa medida, satisfatória. O Facebook me distrai e nele propago determinadas impressões absolutamente pessoais sobre o mundo, além de cronicar meu dia-a-dia. Leio várias postagens e interajo com pessoas que mal conheço, que conheci mais nas redes que na vida e com gente que admiro e sinto saudade da presença real. Mas na prática, nada é sério e relevante demais. Que relevância tenho eu ante a catástrofe da queda de um avião com 76 mortos? Que valerão lágrimas minhas a eles, que independem do meu respeito piedoso ou insultuosa indiferença? Por que aos vivos constrange e agride minha recusa a compactuar com a catarse (ou expurgo) em forma de dor coletiva? Este dia o que vai me ficar é a alegria deste encontro, sintetizada numa fotografia com Vitorino, que para mim é a cara do amor.

Nenhum comentário: