sexta-feira, novembro 18, 2016

A biografia de Rita Lee


Rita Lee sempre foi uma das minhas artistas preferidas. A biografia dela tem frescor, nenhuma pitada de sentimentalismo ou autocomiseração. Capítulos curtos, cheios de lances jocosos. Elas escamoteia o entorno e foca em si, em suas aspirações, entradas e saídas das drogas, o mundo da família (pai, mãe, irmãs e agregadas) e depois o amor por Roberto, o nascimento dos três filhos; seus bichos de estimação. Vai passo a passo dizendo o que pensava e o que fazia quando elaborava cada um dos seus trabalhos. E pára para analisar os discos, dizer o que vale a pena e o que não. Mas seu dizer tudo é também uma forma de não ir a fundo, tudo parece demasiadamente exterior, resume em ações, sem que ela de fato mergulhe de fato em si. Seus dentros, só a ela pertence. E como a vida é épica e se faz no ato corajoso de enfrentamento do mundo, de desejo - as vezes autodestrutivo de gozar - só o à frente existe, o tempo inexorável agindo nos cabelos, brancos. Rita chega ao fim de si sem se gastar, sem se entregar. Escrutina-se sem se dar por completo, biografa-se sem vender sua história (sem se vender) e sai de cena se desmistificando, numa biografia sem grandes tintas, onde os dramas mais profundos são revistos e ditos sem gravidade. Jocosamente, sarcasticamente, tão rock roll quanto a vida que, Rita Lee, ao passar-se a limpo, finge esgotar a menina-mito, mezzo italiana-americana, a perfeita tradução de uma São Paulo que não há mais.

[Leio aos saltos, desde quando a comprei há quatro semanas. E o efeito que me provocou foi o desejo de ouvir cada um dos seus discos com toda a atenção].

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