segunda-feira, novembro 28, 2016

3%, série da Netflix




3% série da Netflix. Um texto crítico.

3% é uma série brasileira da Netflix. Uma ficção científica. Jovens em determinada idade são submetidos a um teste para viver no MarAlto, uma espécie de paraíso na Terra destinado a 3% da população de um planeta devastado. Os daqui vivem miseravelmente sem assistência, submetidos à violência e misérias mil, desassistidos do Estado. Submentem-se ao Processo, uma espécie de vestibular com entrevistas, testes de lógica, exames de índole/moralidade, provas físicas etc. Ser desclassificado significa ficar sem futuro, quase o que sentem os candidados da FUVEST. Em cada episódio, um personagem é eliminado como num reality show. Quase todo episódio começa com flashback (à maneira do Lost), é mostrado o passado do personagem e suas motivações. Infiltrados no grupo, há "terroristas" que pretendem destruir o sistema de dentro, mas sem grande convicção. Há claro um tirano, Ezequiel; tirano, pero o mucho. Há cenas de tortura em pau de arara. As referências são à ditadura e à imensa desigualdade de classe brasileira e mundial. A ideia não é original, há os filmes Elizium e a quatrologia Jogos Vorazes com mesma premissa, desenvoldos com maiores orçamentos. 3% é pobrinho de recursos em efeitos especiais com visual à Hans Donner, mas tem aquela qualidade 02, bem feitinho com o que dá dentro de uma estética de comercial/videoclipe televisivo. O roteiro é bom, os atores são competentes e tudo segue bem azeitadinho, embora haja vários furos quanto à verossimilhança, principalmente, quando se trata da psicologia dos personagens. Prende, entretem, mas, sendo uma alegoria tão próxima, rica para discussão de algo que vivemos tão intensamente no presente - desigualdade, opressão, conscientização política/de classe, - ela se restringe a esvaziar qualquer viés conscientizador, volta-se para o drama pessoal, tolo e melodramático. A motivação é uma vingancinha (da protagonista) pois o irmão foi morto pelo vilão. O particular suplanta qualquer ideal coletivo, aquém de ideologia, de desejo libertário, de esperanças utópicas. Embora a motivação política seja sustentada pelo personagem Rafael, o fato de ele ser um tanto amoral - por vezes, fútil - tira a potencia da "Causa". E tudo se dilui no lance de sempre, o coração ferido, mantendo-se mais do mesmo, nada para fora do mero espetáculo televisivo. Não querendo ser mais que "diversão", a série esvazia-se em si mesma, nada propõe e fica com o espectador, nenhum dilema, nenhuma associação permitida com a vida. Nenhum ganho de consciência. É a trama lá deles, individual, particular, assistivel, acomodada à fantasia sci-ficction. Condena-se, assim, ao 100% de esquecimento, logo após assistido.

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