sexta-feira, setembro 30, 2016

O náufrago

Não me preparei para chegada dos navios, embora os sonhasse de mil maneiras antes que o sonho batesse, de espuma e areia: brancas asas de arrebentação. 
 
Esquecer é missão dos que não vão ao mar. Sargaços verdejando, fossas profundas, arrecifes salientes expondo na descida da maré dentes ao sol: meu relógio. Há os que contam da chegada à ilha com marcas nos troncos e fazem quaresma e ano novo, acendem fogueiras e meditam à beira-mar. 
 
Eu desde sempre me encerrei no escuro da mata, adentrei-a sem medo de feras extintas em outras terras, galápagas eras. Pelejei na redescoberta do fogo e estive um tempo louco vagando só, no inferno verde e nu. Ilhado. Até ser ilha. 
 
Fui eu quem fiz a casa no mais alto, vi a extensão feliz dos desertos d’água e que enlouqueci, quase querendo o silêncio de grilos e pássaros. Mas meu coração encontrou ao Senhor quando eu sonhava sobre a pedra. 
 
Há de se povoar o mundo dando nome às coisas para que elas existam. Distinguir entre as plantas, o formato verde de suas folhas, o degradê das pedras se a lava o mar, se pelo vento, é polida; assim como cada inseto, a frutinha rubra que entorpece, o floema, a macia seiva que estanca o sangue, o visgo que cura feridas ácidas. Então me proclamei o nomeador. Minto. Acatei o chamado e não há hoje na ilha planta ou pedra que não existam. Mesmo as miragens de barcos, aprendi a distingui-las em graus de permanência e nitidez, pois não é também o ser outra coisa que não miragem? 
 
Dentre todos que a maré restituiu à praia a salvo dos tubarões, ou para dourar ao sol inclemente sem Deus, deu Ele a mim o dom de povoar esse novo mundo. Sem báculo, as longas barbas, sigo, muito Noé, às avessas, pois minha arca são essas águas, essa vaguidão à vista. 
 
Não precisei ir ao Sinai. Ele não me cuspiu do céu a Palavra com raios, trovão ou esplendor de sarça incendiária. A brisa em sal da maresia em meus ouvidos, um rastro na areia, uma vela se dobrando ao vento, foram a minha tábua da lei. Fiel ao Seu silêncio, acatei o ofício, a missão. Esqueci o nome que tive, me ergui da negra lama que há: eu hei por nome Adamah. E foi noite, e foi manhã.

Sobre a pedra, eu ponderei toda humanidade. Eu intuí o Cristo e a cruz. Dos evangelistas, a vara pôs nome à areia que o subimento carregou daqui. Escrevi todo o livro que conterá o Mar Vermelho, o Egito, a coma de crina de Sansão, a sabedoria de Davi, este mar que se rasgará noutro mar. Vermelho. Que maneira deixar, por conseguinte, emporcalharem o Éden essas ilusões de homens que não me podem adorar? Como permitir aportar na terra santa pés hereges de absolvição? Descer o tronco de nésvera, esburacar tarádias, conspurcar-lhe a minha criação na generalidade de um impróprio substantivo, eu que matei os signos que não abarcavam a vida? 
 
Observo-os com método e silêncio. Os tarígenos me acompanham na vigilância. Deixo que os homens se percam e se apavorem com uivos de maripio que invento. Sou o fantasma que não os deixa sonhar edificações, que com o perdão da pedra nomeada os atinge, certeiro, a cabeça. Cada morto novo confirma minha eleição ante o Senhor. Há revoos de talarôs, anuís com que me alimentar, não me faltam caleri para o descanso ou atiá, para calar meu medo.
A fim apaziguar a solidão de Deus, deito à margem até meu corpo ser coberto pelas águas, de onde emerjo em flutuações fantásticas, e de onde exijo que a luz se faça. E a luz se faz. A luz e o mundo que Minha voz constrói. 

Revisado em 30.9.16 

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