sexta-feira, agosto 05, 2016

Marcela, minha amiga


REVIDE entra agora em fase de declaração de amor. 

Amo o amor de Marcela pelos cães, gatos e, principalmente, pelos sobrinhos. Amo as fotos que faz, e os comentários curtos e sarcásticos no facebook, assim como amava quando ela escrevia longamente em Umbigo Roxo ou no Blog das 30 pessoas. Amo seu desencanto blasé que camufla delicadezas que ela simula não ter, aquele ar meio despachado com a vida, que ela parece achar desinteressante, mas que saúda e exalta em depoimentos/narrativas autoirônicas, críticas e fotos cheias de nonsense. Ela tem um olhar crônico-familiar sobre o mundo; familiar, porque os Prado-Paivas são sempre o objeto de suas crônicas, das revelações prosaicas das relações cotidianas, contradições entre afetos e desatenções dos pais-avós; da personalidade insólita de seus pets; do desacordo afetivo entre os sobrinhos projetados e os blackblocks que são, outsiders, para sua alegria e deleite nunca confessado. Poços de Caldas é o mundo; as roletas, os jogos de azar, os altos e baixos da família caldense, os pasteluxos, a corda bamba econômica, as frustrações com os machos ursos a exigir cuidados de filhos. Ela é de uma passionalidade incrível, capaz de danosas explosões de ciúme. O hiato de um amor partido que lhe deixou um cão, certa desilusão e uma aproximação com a fé, ecoam ainda no modo como anda caminhando atualmente pela vida, com reservas e atenção. Marcela foi desde que a conheci uma surpresa, e ela segue me surpreendendo sempre, nas visitas que faz a São Paulo, e a mim, por tabela, já que sempre uma insuspeitada aventura se realizou em sua vida. É talentosa e sagaz, mas não se leva suficientemente a sério para investir numa carreira x ou y. Não sustenta ambições de enriquecer ou qualquer outro plano de felicidade fora dos ganhos afetivos da família, pois a maternidade, agora, grita, furiosamente, dentro dela. Pensa em voltar para São Paulo. Que será de seus cães? De seus gatos? Sobreviveria a distância dos sobrinhos que se duplicaram? E o projeto do filho? Quem saberá o destino de Marcela? Os cabelos que se erguem, o olhar do pai e da mãe - possivelmente, de todos os Prado-Paivas, sintetizados em seu rosto. Marcela que dirige, vai querer ficar engarrafada no transe de São Paulo? Ilhada? Solitária? Sem saída? Marcela seguirá trabalhando no Banco do Brasil? Emprego para toda a vida; orgulho da avó? Que será de Marcela sem Minas, apátrida, apartidária e tão pouco afeita à política da boa vizinhança? Ela que, se atiçada, dá com a bandeira, vermelha, do Brasil, nos falsos nacionalistas obtusos e hipócritas. Privativa. Privada é sua amizade, incapaz de nos fazer uma declaração de bem querer. Ela é tantas vezes lacunar. Interrompe o diálogo do nada, como se se esquecesse de nós. Marcela é a peça de um quebra-cabeça por se fazer e que não se encaixa. É um outro estilo de mulher. É preciso que peças se construam para acomodar o ser que é, arredia e desconfortável, em enquadramentos, onde se queira defini-la. E segue. Marcela, para onde?

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