sexta-feira, agosto 05, 2016

Cleyton Cabral



A gente só pode definir o que é Cleyton em termos latitudinais, sem longitudes. Porque ele está sempre a cerca de nós, cosmopolitamente acessível. É jovial, polido, confortável em seu estar no mundo, ônibus londrino de dois andares. Nunca encontramos Cleyton, avistamos. Ele nos mira: longos braços de moinhos de vento quixotescamente aptos para o abraço. Avestruz desencabulada, sem cabeça para se meter em buracos.

Cleyton é uma girafa cujas tranças recém-cortadas aparecem citadas em O búfalo, de Clarice Lispector. É uma palmeira que dá coco. Um grafite de Osgemeos na Marginal Pinheiros. É um farol desatento aos barcos. É o falo de Brennand, ereto, monumental, muito exibido diante da pernambuquisse cotidiana. É aquele personagem de circo, que circula muito comodamente com imensas pernas de pau em nossa sala. Aceita um bolinho de chuva?

Kafka, jamais sonhou Cleyton Cabral.

O horizonte, a terra à vista, o grito do marinheiro diante da costa brasileira, os índios nus exibindo o pau brasil e a espada em riste, no grito do Ipiranga: tudo isso tem muito de Pedro e Cleyton Cabral.

Há algo de circense em Cleyton, como aquele elefante que se ergue, no picadeiro, nas patas dianteiras. Algo de bailarina na ponta dos pés, de sombrinha, no alto da corda bamba. Algo de ventríloquo mímico. De Burter Keaton falastrão. De cego cantador de feira. De beato de jibão. Mas, principalmente, há nele, um quê daquelas enceradeiras antigas, compridas, que se punham a dar choque e desembestavam, sozinhas pela casa, insólitas, como uma galinha correndo no quintal, sem pescoço.

Tem qualquer coisa de cleytoniana, o pregão de feira, a festa popular, um parque de diversão. Cleyton é o que há de mais próximo à máquina de algodão doce, pois parece tecer do invisível, a doçura rosa, saborosa, para o delírio de todas as crianças. Um pau de sebo cobrando que o escalem é Cleyton. É Cleyton, uma antena de televisão transmitindo notícias espetaculares para Marte, Júpiter, outros mundos.

Há algo de alienígena nele. De surrealista, em seu modo de estar no mundo, tão cômodo com suas longas pernas. Há uma malícia perigosa de criança precocemente safada, hilstiana, desenhando com lápis rosa caralhinhos no banheiro. Portanto, algo de rodriguiano em Cleyton, mais que subterrâneo, íntimo, sentimental, e que salta de repente: periscópio de submarino surgindo no mar, como a barbatana de um tubarão. Zoologicamente falando, Cleyton seria facilmente o maior suricato do mundo, por seus gestos ágeis, pescoço flexível, dando travellings rápidos em torno. Chicote de câmeras. Zoom para a formiga escondida no tapete. É o tal do menino que jogou os chinelos do vovô na latrina, deu descarga na preguiça e na velhice casmurra do avô. E soltou uma gargalhada oswaldiana.

Sim, há algo de poético, modernista, literário em Cleyton. Nada da tristeza clandestina de um João Cabral. Está mais para o altofalante da cidadezinha qualquer de Drummond, cuspindo radiofônicas notícias difusas. Sorvete de graviola. Pipoca Moderna. Pífanos de Caruaru. Aliás, ele é a pessoa mais adequada para possuir um bigode de Dali.

Cleyton é vertical. A torre da fábrica soando alto o apito de dispensa do operariado, apito que desobriga a gente de bem, do trabalho exaustivo, realizado por costume, necessidade; sem amor. Um changeman, um power ranger, um spectre man brazuka. Um outdoor que espelha e colore a paisagem, negociando nossos instantes de dispersão. Aquela pomba que voou para o lado contrário, dentro do teatro, num rasante mais espetacular do que qualquer número de prestidigitação. Cleyton merece aplausos. Aquele joão-bobo de posto de gasolina, que nada tem de bobo, e a gente sabe que, de uma hora para outra, pode nos surpreender, fugindo em disparada na boleia de um caminhão.

Cleyton são alturas. Pipa no ar, vocação para balão de gás hélio, hilariante. Gargalhadas flutuantes nos azuis nordestinos, o céu cortado na linha do papagaio. Verde. Um drone pairando sobre Olinda. Um pássaro, um avião.

Nenhum comentário: