terça-feira, abril 19, 2016

Um bonde chamado desejo, de Rafael Gomes





Um Bonde Chamado Desejo é uma das mais perfeitas e complexas peças do americano Tennessee Williams. Mostra a atribulada convivência entre Stanley Kowalsky, um abrutalhado imigrante, casado com Stella, que recebe em casa a irmã, Blanche Debois, mulher marcada por uma neurose ambígua, provocada pela fome de amor e desejo de compreensão. A chegada de Blanche vai desestruturar a rotina do casal e levar a personagem à loucura. 

A peça levou ao estrelato Marlon Brando, pela interpretação magistral do polaco Stanley. Seu Kowalsky, bruto, sexy, instigante, saiu dos palcos para às telas do cinema, num filme dirigido por Elia Kazan, inaugurando no cinema uma nova forma de interpretação (o Método), imortalizando-se como mito. Ao seu lado, vivendo Blanche, outro mito - a inglesa Vivien Leigh (a Scarlett O'hara, de E o vendo levou) - que interpretou-a numa vulnerabilidade pungente. Tudo bem diferente do que se assiste no Tucarena. 


O teatro em forma de Arena possibilita um grande dinamismo na cena, já que os atores atuam num círculo. Há um trilho em torno do palco, como um carrinho bem aproveitado cenicamente. No centro do palco, um quadrilátero onde se encaixam cadeiras, e que metaforiza o aprisionamento e a precariedade do espaço onde vive Stella e Kowalski. Talvez isso tenha contaminado a forma como o texto muitas vezes é proferido, como uma metralhadora, até mesmo em pontos, em que a palavra e o respiro seria necessário para adensar psicologicamente as personagens em cena. 


Não assisti à peça com Eduardo Moscovis como protagonista, mas Juliano Cazarré cria um Kowalski reto, horizontal, bruto, sem substrato, tudo o oposto do Método. Nada parece vir de "dentro" e seu corpo, no qual Brando explorou o desejo e a tensão sexual, está preso, ingessado, sem o erotismo necessário a uma peça que traz o desejo desde o título. A atriz que desempenha Stela, Virgínia Buckowski, apresenta uma completa compreensão da personagem, e destoa dos demais, tão equivocados em suas atuações. Em sua Stela a culpa, a compreensão, a pulsão do desejo, força e vulnerabilidade se apresentam com precisão, o texto sai com clareza e emoção na medida certa, apesar das dificuldades dispostas por seus parceiros de cena.



A interpretação de Maria Luiza Mendonça é desastrosa, trazendo uma histeria rodriguiana para aquela que é para muitas atrizes, o melhor papel feminino do drama moderno. Sua Blanche não apresenta nuances, a atriz erra o tom e começa lá em cima, aos berros, sem inserir sutiliza, sem dimensionar a interioridade da protagonista. Pior, parece destoar de todos os atores em cena, que ficam reduzidos, pela hipérbole, a satélites erradios. Se não fosse histérica de uma ponta a outra, sua Blanche ganharia em força nas cenas finais, onde da fantasia delirante, chega a absoluta loucura, após a violação do cunhado, uma cena violentíssima. O final apressado, em que cada palavra conta, é escamoteado, as palavras estão lá, sem redimensionar o final trágico, pungente de Blanche.


À direção, caberia ter contido Mendonça, estimulado Juliano Cazarré a uma entrega real, e possibilitado um equilíbrio na atuação do elenco, embora não se possa questionar a inventividade na movimentação que dinamizou um texto já clássico. Aliás, o espetáculo, com todos os seus deslizes, só faz a gente desejar mais assistir a outros textos de Tennessee Williams, pois é na palavra, em seus diálogos tensos, viscerais, ironicos e inteligentes, que sobrevivem mesmo à tradução, que fazem de O bonde um clássico que merece ser visto.



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