sexta-feira, abril 08, 2016

Tangerine, de Sean Baker (2016)


Pelo menos dois fatores fazem de Tangerine um filme interessante. Ter sido todo filmado com iphones (o que não é inédito, mas segue sendo bacana) e de ter como protagonista duas amigas transexuais: Sin-dee-rela e Alexandra. Tangerine não se pretende um filme barra pesada, nem de denúncia, nem exatamente um filme trans, mas uma comédia beirando o pop, com muito humor e uma boa dose de drama (uma palavra sempre dita no filme). O problema é que partindo do começo promissor fica aquém das espectativas.

Uma traveca sai da prisão (no dia de Natal) e numa conversa no bar com a amiga também trans, fica sabendo que seu namorado-gigolo estava "ficando" com uma prostituta. Ela parte ensandecida pela cidade de Los Angeles, à procura do namorado, e posteriormente, de sua amante branquela, a fim de acertar as contas. De uma hora para outra, o foco se desvia para um taxista romeno, pai de família, que pega travestis para fazer boquetes em lava-carros. Por fim, o filme se alterna entre revelar o eu das protagonistas (o desejo de Alexandra de subir aos palcos) e ser tão somente comédia de erros onde todo mundo esbarra em todo mundo, trai todo mundo, faz revelações, provocando sempre dramas emocionais pueris que explodem em uma algaravia jocosa e insuficiente. O desfecho vai se concentrar/encerrar na loja Donut Time, ponto de encontro de travestis em L.A, numa cena de diálogos tolos, vazios, desinteressantes.

No final, há muito de caricatura no filme, com a marginalidade clássica das travas-negras-putas-fodidas e desesperançadas, tendo por si só a autoconfiança fingida, a amizade e a excentricidade de quem precisa se construir. Derrubam o filme o gigolô branco burro, com pinta de rapper, e sua relação superficial com Sin-dee, assim como a inverossímil procura obsessiva do taxista tosco por Sin-dee. Mas se algo salva Tangerine, é a performance das protagonistas, que constroem personagens outsiders histericamente patéticas, profundamente melancólicas, e ainda assim, humanamente comoventes. Quanto à direção, é frouxa, com cenas sem grande impacto, planos estáticos sem força, e movimentações frenéticas (um ir e vir de travellings acompanhando a andança das meninas) usadas tão somente para preencher o vazio de um roteiro que não avança de fato, e que poderia ser melhor desenvolvido.

Um filme bom para mostrar a possibilidade das novas tecnologias para produção cinematográfica, mas bem aquém, para fazer do filme, cinema de fato. 









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