sexta-feira, abril 01, 2016

Do amor e seus restos mortais

Então este o destino do amor? depois de tudo vivido, casa, intimidade, confidências, risos, banhos conjuntos, um cem número de confissões íntimas sobre as dores familiares, as crises de dinheiro, de mudanças profissionais, a torcida, os filmes, os livros, as viagens, as fotos, as bebedeiras, as visitas de madrugada, os aniversários, os almoços, as peças, as exposições, os saltos amorosos, os amigos feitos em comum, a grana, as brigas, a cumplicidade, as pizzas, as febres de todas as doenças...

... resumir-se a um aperto de mão frouxo, 
uma incapacidade de olhar nos olhos e uma boa dose de desprezo.

Que ponto a somatória de erros (algumas mentiras, essas traições de corpo, o vasculhar de gavetas), destrói tudo onde se reconhecia como amor?

Eu que vivo o espanto diário de descrer mais e mais em qualquer encontro
como fazer, ao constatar
que tudo que se viveu intenso, profundo, e dolorosamente
não ter significado nada para quem tanto amou?

[O que é uma traição?]

Pode restar em nós
alguma fagulha de esperança
em qualquer pessoa, qualquer amor futuro,
depois de sentir que tudo que se acreditou verdadeiro foi "o maior engano".

E o que fazer com esse vazio que a gente carrega depois?
Esse vazio que se converte em dura armadura protetora
Essa desesperança que põe sombra em tudo.
Se carregamos em nós ainda a fagulha
de um amor que já não há
(e só nos queima
com sua mínima brasa triste?)

Depois disso, como se abrir de qualquer forma, 
quando toda esperança é uma coisa meio vazia
Todo sentimento sinceramente declarado se torna uma mentira que nos envergonha por termos crido

[Então, em casa, atarantado com as panelas
a máquina de expresso para sempre quebrada
um cão que se arrasta feliz e dependente de nós
o cansaço físico
o suor
o banho
a solidão da casa sem o fantasma de estimação.
o lustre negro, fazendo lembrança com sua sombra,
as taças de cristal não usadas
a garrafa bonita do Absolut
os toscos bibelôs]

tudo se soma
na desilusão vivente
e a descrença maior, inacreditável
que não vale a pena
nada vale a pena
não vale.

[E é quando começamos a esquecer].





Nenhum comentário: