sexta-feira, abril 08, 2016

Batman vs. Superman - A origem da justiça, de Zack Snyder



Não sou fã de filmes de heróis, e detestei o primeiro Superman que tinha como a melhor coisa a presença de Henry Cavill. Filme longo, de 2h40. Assisti no Marabá, com Guino, comendo uma pipoca gigante e bebendo coca-cola. Tudo para não dormir. Esperava o que se espera sempre do diretor Zack Snyder, aquela condução realista, num universo obscuro, repleto de personagens perversos e insanos, ameaçando uma cidade tomada pelo medo; tudo conduzido de forma épica, frenética e hiperbólica, amparado em tudo que a computação gráfica pode oferecer. Não me frustrei. Na verdade, gostei mais do filme do que poderia imaginar.

Diferente da pirotecnia histérica e festiva de muitos filmes de herói, o que é sempre interessante nesses Batmans é ainda a condução realista, tendo por cenário a cidade monumental e sombria, onde a violência e a corrupção - em todos os níveis: o jogo de poder dos políticos, a falta de escrúpulos da mídia e dos empresários, - já exigiriam por si a intervenção de um messias. No caso deste universo noir, Batman e Superman surgem, na verdade, como anti-heróis, já que apresentam poderes sobre-humanos, mas insuficientes para deixar de serem o que de fato são: homens falhos. Isto por que, neste universo dos quadrinhos, os super-heróis figuram sempre como personagens fantásticos psicologicamente vulneráveis, homens presos à traumas infantis que não lhes permitem nunca se emanciparem das figuras paternas sacrificiais. Querendo ocupar o lugar do pai, tomam para si a missão de punir os maus, na esperança vã de tornarem o universo sombrio que habitam, um lugar melhor. Não conseguem, pois por si, se acham em crise, incapazes de seguir uma prosaica vida mortal e abdicar do "poder extraordinário que possuem". Tentam ainda assim, uma vida dupla, de figuras aceitáveis socialmente, ainda que ensimesmadas, sem destino certo, e que sempre voltam às ruínas onde se criaram. 

Mais poderosas que as sombras externas, são as internas, materializadas na reiteração do momento do trauma (sempre mortes). Há sempre um entrave ético e moral a perturbá-los e algo a que precisam abdicar. Neste ínterim, surgem vilões (seus duplos, espelhando-os de forma disforme), cuja energia caótica (quase sempre a mesma deles), resultam em ação irrefletida, insanidade, violência e destruição. Tais salvadores parecem, portanto, os únicos heróis possíveis num mundo onde a lei, a ética, a ordem e uma série de valores (cristãos/patriarcais) não mais vigoram. Não bastasse isto, cada filme de herói hollywoodiano traz uma reflexão sobre o momento que vive os EUA, e por tabela, trata da instabilidade num assaz violento e obscuro que o capitalismo erigiu. Há sempre um perigo nas sombras que coloca todos de sobreaviso e que fomentam a paranoia. Esta faz com que vejam sempre o "outro" como inimigo (o invasor, o alienígena), a ponto de desejar sua aniquilação antes mesmo que a ameaça se cumpra. A resolução, como não poderia deixar de ser, se faz pela força bruta, o enfrentamento. 


As mulheres surgem neste Batman vs. Superman como agentes civilizatórios, querem - por meio da via da emoção ou do bom senso - "organizar" e dar sentido a esses homens. Conselhos (mãe Marta), afetos (Louis Lane), proposta de diálogo (a senadora) e parceria (Mulher-maravilha) são o que podem oferecer, mas com exceção da Mulher-maravilha, terminam sempre como moeda de troca, vitimas facilmente capturadas pelos vilões, fato que implica novas ações (sempre sacrificiais), dos heróis. Neste universo truculento, não há espaço para finais felizes de fato, no desfecho há sempre o prenúncio de novas ameaças, realimentando a paranoia, uma breve parada para mais explosões na cidade, destruições épicas de prédios e dilemas ético-morais. 
Mas isso pouco será sentido pelo espectador médio, a quem interessa mesmo a profusão intermitente de efeitos, pouco atento para os furos - muitos - da trama, a inconsistência psicológica dos personagens, a replicação ad nausea dos mesmos clichês: perseguições de carros, tiros em profusão que não atingem a ninguém, bazucas e seus projéteis, helicópteros globe-trotters, vilões estrangeiros devastando cidades e massacrando exércitos inúteis e inocentes passivos. Os diálogos com frases de efeito pouco inteligente, mas sentenciosas e memoráveis em seu vazio de sentido, completam a trama. Sempre uma pausa para novas cenas espetaculares de destruição massiva e épica. O tom cristão e messiânico não pode faltar, com sonhos premonitórios e anunciadores, além de fantasmas (de patriarcas, mortos em sacrifício) que sempre falam por parábola obscuras, sentenças e mandamentos compreendidos na hora de se efetuar a superação de um obstáculo, ou no instante em que "renascer" se faz necessário. 
Efeitos especiais, brutalidade movida a testosterona, angústia existencial, vingança e paranoia, são os ingrediente para a esperança de um mundo, cujo equilibrio só poderá ser restabelecido por meio da fé e do transcendente. Só que todo desfecho só pode ser uma salvação provisória (externa, do mundo real, pois interiormente, o personagem voltará ao seu eterno dilema e angústia existencial, ou seja, tudo será reconstruído na próxima sequencia para o eterno retorno do herói preso em seu labirinto. 



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