quinta-feira, março 10, 2016

Sales Ab'Sáber sobre Caetano Veloso





Tendo que explicar a um amigo que não conhecia a música de Caetano Veloso - e ainda há quem não a conheça -, qual o sentido e a orientação da coisa toda, o valor de seus múltiplos valores, elaborei um esquema que permitisse algum esclarecimento. Para além da inteligência especial dos elemento íntimos, as soluções particulares da forma canção, as sacadas formais precisas e simples do compositor, penso que seu trabalho, seu pensamento pela canção, se organiza ao redor de quatro eixos, que são eles mesmos multiplicados em variações e deslocamentos, para mais perto ou mais longe de seu centro. Poderíamos pensar como se estes vetores compusessem um campo espacial onde cada canção está mais próxima ou mais distante de um ou de outro deles, cada uma em sua posição em relação ao todo, multiplicado pelas partes. O primeiro dos eixos de Caetano é a pesquisa ampla da forma Brasil, que tem historicidade, e que se expande até a configuração de pesquisa da forma do mundo e mesmo da história. São canções como "Tropicália", "Triste Bahia", "Haiti", "Fora da ordem", "Perdeu", "Sexo e dinheiro". Nesta região, se articula a crônica mais viva do presente, em cada momento histórico do percurso do músico/sujeito na sociedade em rápida modernização numa época difícil: "Alegria, alegria", "Tigresa", "Sampa" ou, por exemplo, as recentes "Baixo Leblon" e "Neguinho". A segunda trilha é a do lirismo intenso, autoerótico e moderno, mas também por vezes negativo e melancólico. Lirismo que se expande até tocar a matéria da vida brasileira, popular, ou populista, contaminando-a com o valor especial que o eu tem para o músico, em um momento que produz erotismo e graça sobre o próprio mundo. Deste tipo são: "Objeto não identificado", "Lua de São Jorge", "Cinema transcendental", "London London", "Odara" e tantas outras. O terceiro vetor é a pesquisa poética alta, de temas de essência e de questões humanas universais, mode de dar nome moderno aos grandes sentidos das coisas, de maneira tão nítida, e tão infernalmente inteligente, que por vezes chega a iludir perfeição. É a pesquisa da poética moderna que está em jogo aqui. "Oração ao tempo", "Cajuína", "Terra", "A tua presença", "O ciúme", "Pecado original" e mais algumas outras. O quarto vetor de Caetano é o vanguardismo, o experimentalismo estético, que evoluiu das estratégias popa e problemas ligados à modernização atrasada e heterogênica brasileira do final dos anos 1960, então dita tropicalista, para o estranho hippismos telúrico, muito experimental, sem medida prévia ou norte que não a própria experiência dos discos radicais dos primeiros anos da década de 1970: Transa, Araçá azul e Joia. E que, por fim, a partir dos anos 1980 e 1990, decaiu para um som "pós-moderno" de tonalidade world, muito menos interessante que as pesquisas anteriores, pelo menos par ao meu gosto. Mas a principal característica desta obra, a sua marca própria, é o lirismo dialético. A pulsação muito erótica de um eu que se celebra na mesma medida em que equaciona as dimensões do seu mundo. O eu celebrado por se encontrar no mundo que encanta, ou o eu que encanta o mundo e por isso celebra a sim próprio, é a liga central deste artista. O amor de Caetano Veloso pelo próprio eu, que esparrama como potência, desde si, um amor pelo mundo, "que não é chato", e que é erotizado quase utopicamente pelo artista, faz de sua obra uma imensa experiência de sedução. E também, nesse movimento de refluxo do sentido do mundo sobre o eu, de espalhamento do eu sobre o mundo, anuncia-se o movimento mais geral de substituição da política pelo corpo, pelas questões identitárias e pelo erotismo do mercado. 




Tales Ab'Sáber
ensaio, fragmento (205 apontamentos de um ano)
pp. 44-45
editora34
2016


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