terça-feira, fevereiro 02, 2016

Para Paco, que gostava dos meus contos


Eu sempre inventei histórias, e Paco gostava dos meus contos. Paco entendia as minhas histórias, as camadas, as trincheiras de sentido, expunha, tantas vezes, o que nem eu, tendo redigido, suspeitava ter posto. Talvez Paco fosse melhor leitor do que eu, fabulista.
O fato é que as histórias nos uniam para além da casa, que era velha, e os muros altos, que sempre há em tudo que conto, bem como mato crescente, sem fé ou juízo, sempre ocultando o que está embaixo, a rés do chão, para o mistério de quem vai pisar essas paragens: erva daninha crescendo em tudo para ruína de tudo, ao pé da gente, por isso, jazendo invisível. Somos cegos todos? 
Mas havia vaga-lumes. Da infância, a mais bonita lembrança: pontos luminosos na escuridão luzindo estrelas na altura do olhar, ao alcance da mão. E Paco era mau, esfregava na camiseta a calda dos bichinhos, e traços de luz cruzavam seu corpo por minutos.
As irmãs, três, invejavam de mim, a presença inseparável de Paco.
Porque sim, estávamos sempre juntos, siameses quase, cismados no siso, subindo no “oi” das árvores, pondo correria nos galos e galinhas, atormentando as irmãs que eram velhas, velhíssimas, negras, sem um pingo de imaginação.

Eu e Paco espetávamos tatus bolas com alfinetes. Íamos fazer uma coleção de insetos, ele até conseguiu um besouro azulado, quase preto, com chifres, pesado, o nome Timóteo eu dei.

E Paco era bonito, cabelo escuro, repartido, as pálpebras inclinadas, os cílios sísmicos. Tudo era sólido, pernas, a caixa do peito sem precisar estufar para ser grande, era quase já o moço futuro, o homem. As meninas, elas queriam andar de mãos dadas com ele. Tropeçavam fingimentos para ele as erguer no ar. E rir. Dentes claros, o hálito de hortelã, o furo no queixo, o pomo de Adão. As meninas olhavam-no demais, despiam-no com olhos gulosos, e mesmo uns rapazes. Eles cobiçavam o corpo de Paco, a cor dourada da pele de Paco, o verde dos olhos de Paco. Tudo que um dia deveria ser pleno, se Paco não morresse no desfecho da história. Pois eu olhava-o, e não conseguia construir seu futuro, casado, matrimonial, longe do alcance de mão direita. Paco iria morrer em breve. Paco nunca iria conhecer o Egito de Paulo Coelho.

As irmãs, negras, gralhas, três, intuíram seu destino. Mas eram mau fabuladoras, só desentranhando aquele mesmo fio narrativo, inolvidável começo, meio e fim. Eu era a quarta, a última. Porque eu era mais nova que Paco. Mas elas não me louvavam, com o olho de vidro da inveja compartilhada, amavam só a Paco, ficavam cegas de tanto amor. A mais velha fazia-lhe cafunés delicados, e ele dormia entre as pernas da segunda, a Maior, que esticava, negro, o fio do seu cabelo para extrair inexistentes lêndeas, sedentas de sangue. A terceira, Minor, arrancava qualquer outro, quebradiço, irregular.
De mim, elas tinham todo o ódio do mundo. Me mandavam para longe. Vá para longe! Elas queriam o meu fim. Diziam que eu enfeitava a vida nas histórias, eu inventava o que não se via. Eu queria ser que nem Deus. Eu via nelas o rancor do amor que Paco tinha por mim. Eu as irava com minhas imaginações, pois eu fazia a vida ser mais. Eu via nelas a face horrível.

Por isso, sim, eram sempre as bruxas das histórias de fada, ainda que não houvesse fadas. Os dragões de três cabeças, a se decapitar. Eram as mouras tortas, deformadas, a bestas canibais das florestas escuras. Paco era o meu João e o pé de feijão.

Porém chegou o circo. Paco se encantou. O trapezista também espirrava fogo, e a bailarina do picadeira virava fera na ter;ª o circo tinha gente de menos. E Paco sabia dar aquele salto mortal sem corda na perna, sem rede de proteção, só a água do fundo do riacho é que o circo não tinha. E eu já começava a minha fase realista.

Eu pegava na mão dele e ele dizia me deixa. O circo ia parti dali a duas semanas. Ele guardava do Carnaval aquele frasco de lança perfume. Ele espirrava no lenço e ia dormir feliz. Mas um dia, os olhos vermelhos, ele jogou o frasco, ainda semi-cheio ou vazio, pela janela. Paco andava louco de amor pela mulher barbada.

No confessionário, ele não foi confessar, pois os padres queriar bolir com ele. Então ele deitava na árvore grande, nossa, com as pernas grossa no tronco pensando no futuro da humanidade. Ele queria era fazer a revolução francesa. Eu olhava as coxas de Paco, eu não queria ser sua irmã, eu odiava aqueles olhos de ternura. Preferia ser a mocinha que se deixa enganar no amor do irmão e que vai se matar de tão impossível amor, e que acaba louca. Eu estava louca por ele. Arranhei o abraço dele. Tirei sangue das costas. Eu estava a quarta das fúrias. Eu queria tirar sangue dele. Então ele me beijou na boca. Inventei uma história lá, para mim, ele me pediu. Mas com desfecho feliz.

Então ele subiu no picadeiro. A roupa de malha de não escapar a alma ou o desejo. No megafone, o anão que arremeçava facas apresentou a atração. Todos os olhos colados feito a colã de Paco. Alguém avisou que havia perigo. As três irmãs rezavam terços. Eu só pensei em Jesus Cristo. Paco saltou e estava acabado.

Minhas irmãs inconsoláveis. A gente arrastou para casa o pulo. Acusavam-me de acostumar Paco a viver no ar. Aquela corda partida, fui eu que tinha atado nos seus braços. Eu achava que Paco podia voar.

Eu sofri demais. Eu já não queria comer. Eu vivia na camisola dos dias. E se eu não quebrasse tudo elas não tinham chamado o médico para me tratar.

Eu vivia amarrada na cama. Eu queria o teatrinho de sombras dos meus fantasmas. Mas a irmã velhíssima gritou que era ordem de dormir. Elas nem mais lembravam-se dele. Eu estava na cama quando ouvi então ranger a porta da frente. Os passos afundavam a madeira do corredor, da sala eles subiam, par em par, os degraus da escada. A porta do meu quarto se abriu. Ele ao lado da minha cama. Eu virei o rosto, e a respiração dele é de quem não estava lá. Eu ia chamar as irmãs odiosas. Mas eu as sabia quietas querendo o meu fim. Ele disse que me perdoava, e que agora, ele vinha para eu lhe contar sua nova história.

Depois disso ele vinha me visitar sempre. Ele queria os meus contos infinitos, e eu, para fazê-lo viver mais, eu adiava o desfecho para também continuar viva, antes que o clarão do dia corrompesse o quarto com sua luz. Eu concebia o terror de morrer, os passos, os rangidos, a voz sem som, os roncos falsos das velhas.
Nos dias, eu pairava meio macambúzia, sonolenta. Eu me amparava na janela, pensando a emenda da história anterior. Acenava de camisola, para as vizinhanças, mas ninguém me queria bem.

Então eu falava sozinha, falava as histórias. As grandes aventuras de Paco. As irmãs, bruxas, um dia iam ter que morrer. Uma morreu, eu soube, pela ausência, mais ou menos quando levaram embora o grande espelho à entrada da casa. Eu sofria terrivelmente o letal silêncio delas. A casa era aquele museu sem música. Meu nome: Mnemosine.
Vocês vão morrer, eu gritava, de ódio. Eu não podia ver, minha beleza de mulher brotando pela expulsão dos espelhos. Mas eu escovava na cama meus longos cabelos, como quem espera o amante, na alcova gótica. As outras duas passavam em frente a minha porta, rindo de mim. A vida era a guerra. Só tinha paz quando Paco me visitava.
Paco que ia ser para sempre meu amado irmão. Eu tinha escrito inteiro o futuro dele. Mas na mão que me estendeu havia apenas aquele branco colossal, sem linhas. Desconsiderei, pensando, que toda narrativa se faz em retrospectiva.

Só um dia eu fui buscar os retratos de Paco e não achei. Onde estão desgraçadas, eu praguejei. E encontrei no fundo de uma gaveta um caco de espelho esquecido. Então eu vi na minha cara a cara da Primeira, da Maior. As outras duas disseram: “É você que puxa o fio irmã, e não há Paco, nunca houve Paco. Agora senta, e conta a história do moço para nós.” E eu ri, minha boca em ruína de gengivas, elas tinham as piores imaginações do mundo. Elas queriam a lembrança dele, elas o tinham esquecido, ou ele só existia em mim. Eu pensei em Paco e disse para mim mesma: Paco cest moi.


Elas eram, de repente, as mais tristes e bondosas e tudo era uma cadeia de contas de fracassos. Não cobrei mais os retratos, contei mais de Paco e para Paco, do glorioso salto, o imortal pulo do gato, e no meio de tudo, de mim, de nós, as três irmãs. Eu quero que ele viva para sempre, pensei, e escrevi essa história. Eu disse... eu digo agora, presente narro-o, a vocês, se eu pereci: Eu era todo o amor, e as histórias eu as entregava todas para as irmãs. Chego a pensar que eu as contava para mim. Ou só para ele. Para Paco, que gostava dos meus contos.

Eduardo de Araújo Teixeira 
2/02/2016

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