quinta-feira, fevereiro 11, 2016

E sombra (conto de Marcelino Freire)

E sombra

Quem vê Kyoto assim, os olhos miúdos, não julgaria que o amor viesse um dia. Para ele, logo ele, um passarinho.
Kyoto, um rapaz sem alegria. Monge, servil. Como um coração que não bebe. Kyoto não bate, Kyoto não bate bem. Kyoto é doido, Kyoto é pedra, Kyoto não esbugalha os olhos. Só tem emulsão. Corte programado, os outros dizem.
Kyoto trabalha em laboratório fotográfico no centro de São Paulo. Photo Hiroshima.
Kyoto vive com a mãe num tronco de apartamento. O pai saiu para trabalhar no Japão. O Japão é longe e Kyoto também.
Tokyo
Hipnótico
O trabalho é imperador. A imagem de Kyoto não tem poder. E tem. Feito deus asiático.
Polaroid Polacolor
Entende tudo sobre goma arábica, transferência de pigmentos. Kyoto cospe fotografias. Para ele, morrer na profissão seria zen. Na concentração. Na disciplina.
Experiente em heliografia. Platinum e Palladium. Kyoto é funcionário exemplar. No horário, no rendimento. Nem se incomoda que seja pequeno o salário. O dia seja pequeno, a noite caia. Caiam as cópias na gaveta, automáticas.
Chegar em casa. Trancado, suado. Pensar que o pai se perdeu. Que o pai não respeitou a dor ancestral. Virou rolamento.
Kyoto revelando a vida dos outros, toda hora. Fotografia em uma hora. Promoção de álbum. Ganhe um filme de 24.
Kyoto não imaginaria a imagem de Soraya.
Soraya.
O amor tem suas químicas. E fantasmas.
Kyoto viu as fotos de Soraya no laboratório. A primeira foto que Kyoto viu de Soraya o coração disparou do disparador. Amarelou.
Dizer xis não é ser feliz.
O sorriso de Soraya é que é um raio. O coração uma cor. No dia em que Soraya se abriu, objetiva. Mulher madura à primeira vista. Close fechado.
Seus seios, cílios de alumínio. Termográficos
Soraya chegou com o pacote de final de semana. Era feriado. Ela entregou para o atendente um filme de 36. Olhar 43.
Kyoto ficou branco. Não piscou. Mudou a posição do sol, de repente. A força da luz afeta a profundidade da sombra. Kyoto tem um coração doente, alaranjado. Interiores com iluminação de tungstênio.
Anêmico
A mãe de Kyoto enche Kyoto de sucos de arrozvv. Filho, quando você era pequeno era gordo. Ela mostra como Kyoto era bonito aos 2, 4, 7 anos. Pára o tempo. O tempo ficou sendo a hora em que os olhos de Kyoto bateram nos olhos de Soraya.
Kyoto começou a acompanhar a vida de Soraya, congelar seus movimentos. Quando ela vai à praia. Quando faz aniversário. Quando beija a boca do otário do namorado.
Quando viaja.
Kyoto viajou com Soraya. Todo japonês viaja. Foi a Santiago. Rumo a Nova Friburgo. Ao céu de Boiçucanga. Andaram de trem fantasma na Disneylândia. Paris, Cidade Luz. São Paulo é um país apagado.
Photo Hiroshima tem o melhor preço do mercado, o melhor colorido, o melhor atendimento. O melhor é pensar e disfarçar. Guardou segredo para si. Não revelar. Escolher Soraya no esquecimento. Ninguém procura ninguém no esquecimento.
A vida dos outros continua. Kyoto corre para copiar. O churrasco de mais um cliente. A festa de formatura, a viagem a Nova York, o parque de domingo.
O Crepúsculo.
A mãe de Kyoto espera no começo da noite. Tem a cara das plantas que cultiva. Inativas. Anos para nascer uma pétala. Anos para uma flor florar.
É preciso sol.
Mas cuidado: evite clarão. Mas cuidado: não vai abandonar a mãe para se entregar a outro sentimento. Mas cuidado: sentimento não tem cabimento. Sentimento é quadro a quadro. A gente coloca o sentimento pousado e clica. Emoldura na parede o pôr-do-sol. A felicidade é só um flash. Depois, ficamos cegos. Cuidado: abraços não são laços eternos.
Soraya na boca do namorado. Kyoto olha de novo o namorado. Bonito, diferente de Kyoto. Kyoto não tem graça. Kyoto e sua mãe não tem graça. Sua mãe naquela língua de formiga minguada, magra. Mãe que só diz “sim”. O ensinamento do “sim”. A cabeça afundada para o chão. Soraya merece um homem melhor. Mesmo que seja otário. Homem safado, sarado e sedutor.
O namorado certo é o namorado errado.
Quem é Kyoto?
Molha o olho miúdo. Abre a sua dor no espelho. Kyoto é feio. Repete: Que graça tem Kyoto? Que raça tem Kyoto? Kyoto queria ser um negro. Ter uma mãe negra. Queria jogar futebol. Uma teleobjetiva para escancarar o segundo gol.
Este amor.
O que ele tem? É amor?
Roubou uma, roubou duas, dez. Quinze fotografias de Soraya. Colocou na gaveta, para olhar.
Olhar como uma meditação. Olhar como um abismo é olhado. Um voo iluminado. O que é isso? Nunca viu Soraya de muito perto. Nem sabe se a carne existe.
Eclipse.
Já estão dizendo que Kyoto perdeu o juízo. Deprimido, esquisito. Demorando com os pedidos. Por que não joga raciocínio neste feitiço? Cadê o raciocínio?
Kyoto cada vez mais escuro. Vontade de matar a mãe. De fugir ao Monte Fuji, atrás do pai.
Um passarinho Kyoto.
A vida é um suicídio.
Devagarinho.



Marcelino Freire. BaléRalé. Atelie Editorial. São Paulo. 2003.

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