quinta-feira, fevereiro 18, 2016

David Lynch, sobre a escolha de atores para o filme


"Não interessa o quão fantástico é um Ator: na escolha do elenco, é preciso selecionar alguém que combine com o papel, que seja capaz de encarnar o Personagem. Não faço testes com os Atores. Acho que isso é um tormento e inútil para mim. Além disso, eu teria que ensaiar com cada um deles, o que leva muito tempo. Por isso, gosto de conversar com os Atores e prestar atenção enquanto eles falam. Começo a imaginá-los na trama enquanto falam . Alguns param na metade do caminho. Outros vão até o fim, e aí tenho o Ator certo. 
Certa vez eu quis convidar o Dennis Hopper para um papel em "Veludo azul". Eu trabalhava com uma produtora de elenco, mas todos me diziam "Não chame o Dennis, ele está drogado, vai lhe trazer problemas". Dei ouvidos a essas pessoas e não chamei. Eu e a produtora de elenco ficamos procurando vários outros Atores, mas nenhum deles era o "Frank" para mim. Até que um dia, a agente do Dennis Hopper me procurou, e disse que ele estava bem, estava desintoxicado e sóbrio, para dar uma chance para ele. O próprio Dennis me ligou, e me disse: "Eu quero fazer o Frank. Eu sou o Frank". Aquilo me arrepiou, e desde então eu preferi escalar o elenco dentro do meu feeling e não me deixar envolver por comentários de outras pessoas sobre escalação de Atores.
Encontrar um Ator que corresponda a um papel preciso não é difícil. Frequentemente é até uma evidência. O que é mais complexo, é escolher o bom Ator. O que quero dizer com isso, é que, para um dado papel, há sem dúvida cinco ou seis Atores capazes de fazer um excelente trabalho. Mas cada um oferecerá um trabalho diferente. É como em música: você pode escolher tocar o mesmo trecho com um clarinete ou um trompete. Os dois podem lhe dar algo maravilhoso, mas o efeito a cada vez é diferente. E cabe a você decidir qual deles é o melhor para o filme. Depois, acho que o segredo para obter o melhor dos Atores é criar uma atmosfera mais confortável possível no Set. É preciso dar aos Atores tudo aquilo de que eles precisam, pois afinal de contas, é deles que vem o maior sacrifício. São eles que estão diante da câmera e tem mais a perder. E mesmo que sintam prazer ao fazê-lo, eles não deixam de ficar aterrorizados, e é por isso que eles precisam se sentir em segurança."

David Lynch, Cineasta

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