quinta-feira, fevereiro 11, 2016

A outra forma (um conto de Guimarães Rosa)

A outra forma


Dez da noite; tarde, para o lugar, na noite comum, de céu despoento e lua nova. Quieta, a igreja, sua frontaria de cem palmos, fechada. Mesmo o adro com o cruzeiro e coqueiros vago de qualquer viva sombra. Dentro, a matriz se pausava, às escuras. Mas, havia lá alguém. No coro, e sem luz, quase sem ousar movimentos, como se se emboscasse, preparado. O homem media seus pensamentos. Temia; ainda. Teria ânimo para defrontas, até à eventualidade extrema, os mistérios do pavor, que a tanto se propunha?
Do alto, dominava o interior do templo, âmbito de treva. Outromodo, porém, que a escuridão não se adensasse, ou a ela seus olhos se tinham afeito, a pouco e pouco. Pequena e vermelha, a lâmpada do Santíssimo alumiava em volta do altar-mor; e, pelos vitrais e óculos, incerta claridade entrava, um tanto se fundia. Via-se a mesa sua alva toalha, os castiçais, as flores e vasos, no nicho o vulto da Santa, os emolduramentos, o Cristo em cruz, o tabernáculo; destacado, o púlpito, de pedra branquiça; e distinguiam-se os bancos da frente, na nave. “Seja minha presença a simples ação, nada imagino... ele se repetia.
Todavia, assim, a igreja dava engano de repleta. Dos que vinham, diuturnos, por resignada angústia ou aflita esperança, pairava muito ali alguma realidade, quase corpórea, que nem o persistir dos cheiros de cera e incenso. Esperar-se-ia, a qualquer espaço, um sussurro ou tosse, partidos de recanto. E na matriz, antiga, jaziam mortos, sob lápides pisadas, com os titubeios; mementos de gastas e não mais sentidas recordações... Comendador Urbano Affonso Aramenha de Rojões Parente, benfeitor, venerado dos seus... na paz do Senhor... Padre Euzébio da Matta... DÍDIA DORALENA ALMADA SALGOSO... Aqui dorme (Outro tempo os vira, outro os levara). O padre não queria a lanterna, consultar as horas. Supunha devesse longo durar, sua vigília.
Prevenia-se de erguida mente, para qualquer alerta espantoso. Melhor, meditasse; segundo o preceito: na postura mais cômoda. Não havia ali, porém, sequer um confortável assento. Só bancos e cadeiras simples além de estantes e o harmônio. De joelhos, então, persignou-se; trouxera, com o hissope, a caldeirinha de água benta. Não revestira estola. Senhor, o combate não é meu...” não era um exorcismo. Sabia-se de alma e corpo expostos a riscos graves. Sempre abertas, em toda a parte, as portas do inferior o mal, inaprofundável e os poderes do abismo, subidores. “... O inimigo tudo estragou no teu santuário...” recitava: o salmo setenta-e-quatro. Deus estreita sua grandeza, deixando-nos o dom terrível de dilatá-la, em espesso mundo, no deserto da matéria. Uma igreja fácil incendiava-se; não poupava o raio as cruzes e as relíquias; os vasos sagrados podiam profanar-se, destruírem-se as alfaias, conspurcadas, e ser envenenado o vinho da consagração. ... A timore inimici eripe animam mean...” Premia. Sua coragem tinha de consistir num ato imperativo.
Torva abominação, com efeito, conturbava os fiéis, desordem enigmática, o absurdo passo para pensar e caso de pasma ameaçava a matriz, por um século tranqüila. De dois meses, na lua nova, a toalha do altar amanhecera estraçalhada, afrontosamente. Seria de atribuir-se a ninguém; a sacrílega turpitude. A igreja conservara-se trancada, sem sinal de efração, nenhum possível traço humano, o mínimo vestígio de um ímpio criminoso. Meio em relutância, tinha-se de cogitar nas nequícias das potências-do-ar, espíritos maléficos; ou, quando não um fenômeno arcano, transnatural, do lado-de-lá, dos mortos, que, com a permissão de Deus, raro retornam. Porque, na lua nova seguinte, a rica toalha mudada, mantel de linho puríssimo, aparecera estroçada, outra vez. E, os que moravam próximo, ouviram que, desde a meia-noite, e adiante na madrugada, tantos cães uivassem; quando alguém avistou disse-se à porta da igreja, ignóbil vulto animal; o de uma porca, enorme.
De novo, no novilúnio, agora, prerrogara-se ele de vir e ficar, por uma vez, sozinho ali, sob rigor de segredo. Depois de grande meditar, rezado assunto; não podia falsear aos deveres de seu ministério. Nem pelos perigos reais da empresa, suas abnormas. Aplicava-se mediante jejuns e válidos dias de oração. O encoberto o rondaria as garras de tentação e possessão e orçava os embates do reino oculto, para onde vão as almas. Desde que proviria o autor do ultraje, de que enganos e antros porque nefas causas? Sendo meia-noite. O padre moveu a cabeça. Nada notava. Mudo mais que inaudíveis morcegos, de asas calafrias, e o silêncio, em seus alvéolos. Todas as noites não rojam uma igual profundeza.
Capacitava-se à prova, tinha o coração puro Sempre lhe fôra dado afastar, sob o amparo da Virgem, as insídias do orgulho e os enlevos da carne que atraem para o cavo chão da tara e da larva. Num afio de exame, repesava os momentos de sua vida; e, mais, aqueles dias ultimos, de preparação estrênua. Consciência em paz. Porque, então lhe voltava, quase obstinada, a figura de uma mulher? Moça, magra, esquálida, de olhos verde-pardos longinquamente.
Desconhecida, a mulher aparecera na semana anterior, de manhã, parada, absorta, quase à porta de casa. Olhara-o, não mais, como se a implorar algo que lhe viesse muito devido. E ele força disto fosse se esquivara, sem a querer fitar, fugira de suas feições. Onde, o mal? No relance, supreendera-se de que talvez a soubesse demasiadamente formosa; a beleza desordenada do semblante dera-lhe, a ele, espécie instintiva de tristeza. Próprio para assustar-se, pensou: tinham chegado ao lugar mulheres de má-vida, podia ser uma dessas, outra vez se benzeu; empunhava o rosário e o crucifixo. Tirando-a, na memória, descobria que se assemelhava a outras, que, desde bem moças, tinham o por nele despertar uma admiração mais aguda, e tomar de sentimento, atração de interesse; ela recolhia em seu aspecto de criatura, algumas meias-parecenças. “... Fixaste, tu, todos os limites da terra... esmagaste as cabeças de Leviatã...” só silêncio. Sem ver, sem achar, sem deparar tempo seqüente.
Torporava com que, certo se esquecera, um tanto, entredormido, cessado de vigiar. Dedilhava o rosário. Tinha de alcançar de esperar de magna alma; sem mais defesa. Aguardava-o. O que? Só, sustoso, vulnerável, sabia, no especulativo, quão efetivo e real o mal se exerce, e o bem se perverte, exorbitados, nas fronteiras do mundo transcendente, como à praia de muitos oceanos... Se ante seus olhos sobreviesse AQUILO mirável o maligno ou o medonho não o iria arrostar as aspersões de água benta nem adjura-lo com as formulas execratórias do Ritual; tão sinistro e obnóxio o lance: que muito mais sabem de nós, que nós mesmos, os entes assombrosos. Sob minutos, no entre-respirar, sentia-se corpo e cansado. ... Os olhos o pardo o verde os olhos... Sofrendo; a mulher, aquela triste moça? Devia rezar por ela. Domino, exauai ” O...
... ronco e estrondo um retumbo! da negridão, de onde os mortos enterrados... Deus, meu, que eu não enlouqueça!... O vulto... a coisa... a PORCA. O... onho, grunho, o brusco peso o volume a PORCA PRETA hispidava-se, saltava de um lanço o gradil, escalava os degraus do altar-mor... Deus que aprisionais os mais perigosos espíritos, em capas cada vez mais densas de matéria!... Sobre medo e repugnância, enxergava-a: maligna e monstra, ia a estrafegar a toalha, rosnando, no estardalho.
Não! sua voz, dele, atroara e tremera. A cuja-coisa voltou-se bicha toda uma fusca massa e cabeça, chispara para o coro os châmeos olhos e encurvos dentes e a goela. Rugia. O Padre gemeu: Senhor ergue-me acima do estupefaziamento do mal-assombro, como a Daniel que na caverna não via os leões, senão só Tua presença, inefável...
Em pé, e com arrepio. Sentisse, em tão apertado horror, rodas da morte. Caíra-lhe o rosário. Traçava com o dedo o sinal-da-cruz, no punho da sotaina. De tropelão, a Porca descia, vindo para a escada do coro ao longo da nave.
Seu trupo, o desembesto, estrondava nos escalões de velha madeira. Sobrepôr-se no transir! Deus meu... ele quis e quis. Sem fazer um pé atrás, sem afastar os olhos, em vertiginosa imobilidade. Se não fosse o Inimigo, com seus embustes, mas pobre alma sem altura, que apenas por uma benção de caridade? ele se lembrava. Surgia-lhe por diante, ao perto, massiva, brutesca em pez e fauces a Porca. Deus... que prestais Vossa substância de amor, para os seres serem... ele se lembrou. A Moça o fitava.
Seus olhos, nela acabados de sair de algum nevoeiro. Toda, enfim, transformada com a aparência corporal por um estranhifício. O rosto: alvo não lívido. Os olhos: o longe o verde o gris. Aquela. Já era figura. E estava vestida dum negro veludo; pudesse ainda ser também cerdoso buri/el de penitente, perdida. Olhava-o submissamente suplicava? Era tão bela. Ele a contemplou, com respondência: cheio de Deus e amorosidade. Iam-se-lhe os olhos. Iam-se-lhe. A ela, para ela. Tudo ele a pedia... Seria vão, aquele atraimento, desses prestígios da goécia, o que induz enganos, o maravilhoso hediondo, se vero e almo? Outro medo o agarrara, continha-o. Se fictícios os olhos o esgazeio: objécticos tornados de matéria mineral, da luz de um simulamento, videnciado, um para-trás de espelho... Tão sempre. Tão simples. Tão belos. Dela. Deu uma beleza preternatural, de outra sorte, outra lei, outra semelhança! outro mundo. Se há o Amor, há o Mal? ele arrancou de si. E se a eternidade fosse uma escolha? Soube: se a aceitasse, desceria primeiro com ela, unidos, para onde, mais que dois grãos no íntimo da mesma pedra, mais que pela mera superfície do destino. Mas tornou atrás. Seu medo constringia-o quase num final de soluço.
A Moça, a mulher, de novo a sumir-se, tresmudar-se já estendida imóvel no chão se lhe representava. Ele não atinava com que a teria coberto um pano, um tapete, o fôrro do demônio. Para não a ver desaparecer. Livrara os olhos. Não temer, não sofrer. Nem olharia no relógio, nem acenderia a lanterna. E ia esperar, ali, até ser dia claro, de costas para tudo, trevas. Pelo vidral, avistava raras estrelas. Ouvia, que os cães uivassem.
Acabou de tremer; esfriavam-se-lhe as unhas. Ajoelhado, inexercitado, levava a Deus sua invalência. Via, vazio, o púlpito, branco de pedra, da grande, oculta igreja. Só podia rezar, pelos mortos na nave sepultados, num dormir infreme. Só pelo silêncio dos mortes, às pompas da poeira. Só pó.
Porém, nele, enormes coisas separavam-se, no chão de sua alma, na dor, no nunca mais, não no trem da memória. Profunda, funda, sua tristeza.

João Guimarães Rosa.
[transcrição efetuada em 10/10/2002; com base nos originais do arquivo d autor; IEB-USP]


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