terça-feira, fevereiro 02, 2016

A fotografia não rememora o passado

 “A Fotografia não rememora o passado (não há nada de proustiano em uma foto). O efeito que ela produz em mim não é o de restituir o que é abolido (pelo tempo, pela distância), mas o de atestar que o que vejo de fato existiu. Ora, esse é um efeito verdadeiramente escandaloso. A Fotografia sempre me espanta, com um espanto que dura e se renova, inesgotavelmente. Talvez esse espanto, essa teimosia, mergulhe na substância religiosa de que sou forjado; nada a fazer: a Fotografia tem alguma coisa a ver com a ressurreição: não se pode dizer dela o que diziam os bizantinos da imagem do Cristo impregnada no Sudário de Turim, isto é, que ela não era feita por mão de homem, achiropoietos? ](a=não; kheir=mão; poiesis=fazer). Ou seja, trata-se a uma representação que supostamente emana de Deus, impregnada de sua própria substância.]



Eis soldados poloneses em repouso em um campo (Kertész, 1915); nada de extraordinário, a não ser isso, que nenhuma pintura realista me daria: eles estavam lá; o que vejo não é uma lembrança, uma imaginação, uma reconstituição, um pedaço da Maia, como a arte prodigaliza, mas o real no estado passado: a um só tempo o passado e o real. O que a Fotografia dá como alimento a meu espírito (que permanece insaciado) é, por um ato breve cujo abalo não pode derivar em devaneio (trata-se talvez da definição do satori) , o mistério simples da concomitância. 

A câmara clara, de Roland Barthes. Saraiva. 76-77

[Um livro brilhante!!! Ensaios filosóficos e intimistas sobre fotografia]


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